Tribuna Expresso

Perfil

Fórmula 1

Nico Rosberg: deixem de o tratar por ‘Britney’, ele agora é campeão do Mundo

Aos 31 anos, o alemão conquistou o primeiro título mundial, uma década depois de chegar à Fórmula 1. Em 2006 era apenas um menino loiro e bonitinho, com um pai famoso: agora ganhou, por direito próprio, um lugar na história da disciplina

Lídia Paralta Gomes

ANTHONY WALLACE/Getty

Partilhar

Quando chegou à Fórmula 1, em 2006, Nico Rosberg era um jovem de 21 anos, loiro, bonito, fresco. O australiano Mark Webber, seu colega de equipa na Williams, um tipo másculo, moreno, de feições duras e já nos trintas, olhou para o alemão com cara de bebé e não perdeu tempo a arranjar uma alcunha ao rookie: “Britney”. Sim, como a estrela pop.

Entre 2006 e 2016 passaram 10 anos e hoje já ninguém pode chamar Nico Rosberg de Britney: chamem-lhe antes campeão do Mundo. Aos 31 anos, Rosberg venceu finalmente o seu primeiro título, depois de ser 2.º em 2014 e 2015 e 27 anos depois daquelas férias em Ibiza em que o pai, Keke Rosberg, campeão do Mundo em 1982, o colocou ao colo e pela primeira vez deixou o filho mexer num volante - Keke controlava os pedais, claro.

Como bom filho de piloto de automóveis, Rosberg nasceu na Alemanha, mas cresceu no Mónaco. Enquanto outros miúdos sonhavam um dia pilotar nas ruas de Monte Carlo, era nelas que Rosberg ia para a escola. “A minha mãe levava-me de carro pelos túneis. O caminho para a escola era a pista”, contou em 2015 ao The Telegraph. “A minha sala de aula era mesmo por cima do paddock, uns quantos andares acima. Quando os mecânicos estavam a preparar os carros eu mal me conseguia concentrar”, lembrou ainda o alemão. Uma das suas primeiras recordações é estar a cochilar no iate da família, no porto de Monte Carlo, e acordar com o som do McLaren de Ayrton Senna a sair do túnel. Nico tinha três anos.

Com tantos incentivos, era como se o destino de Nico Rosberg estivesse traçado. Começou nos karts aos 6 anos e aos 13 cruzou-se pela primeira vez com Lewis Hamilton: foram colegas de equipa em 2000. Dois anos depois foi campeão da Fórmula BMW, na Alemanha, correndo depois na Fórmula 3 europeia. Mas a decisão de fazer da competição automóvel a sua vida só chegou em 2005. Excelente aluno, Rosberg tinha nas mãos uma bolsa para estudar Engenharia Aeronáutica no prestigiado Imperial College London. Recusou e nesse ano foi campeão das GP2 Series. No ano seguinte estava na Fórmula 1.

Rosberg era um miúdo de 21 anos quando chegou à Fórmula 1, em 2006

Rosberg era um miúdo de 21 anos quando chegou à Fórmula 1, em 2006

Clive Mason/Getty

A Williams apostou no miúdo e logo ao primeiro GP, “Britney” brilhou, apesar de não ter nas mãos o melhor dos carros: no Bahrain foi 7.º e fez a volta mais rápida. Nunca um piloto tão jovem tinha conseguido a volta mais rápida no seu primeiro Grande Prémio. Nos quatro anos em que esteve na Williams, Rosberg não conseguiu melhor que dois pódios, mas logo deu a conhecer algumas das suas características: inteligente, rápido, trabalhador, mas discreto.

Em 2010 passou para a nova equipa da Mercedes que, além de contratar Rosberg, tirou da reforma Michael Schumacher. Nos três anos em que foi companheiro do sete vezes campeão do Mundo, Rosberg foi sempre o homem mais forte da Mercedes, conseguindo a primeira vitória no GP China de 2012. Depois de vários anos a desenvolver o chassis da Mercedes, Rosberg viu a equipa tornar-se a mais competitiva da grelha na época de 2014. O problema é que nessa altura já Lewis Hamilton tinha chegado à escuderia. Nos últimos dois anos, o britânico bateu consecutivamente Rosberg, roubando o protagonismo ao alemão. Até este domingo.

Em 2010 foi contratado pela Mercedes e bateu o pé ao sete vezes campeão do Mundo, Michael Schumacher

Em 2010 foi contratado pela Mercedes e bateu o pé ao sete vezes campeão do Mundo, Michael Schumacher

PATRICK HERTZOG/Getty

O rapaz de quem não há nada para dizer

Quando perguntaram a Bernie Ecclestone, o excêntrico proprietário da Fórmula 1, quem preferia ver como campeão do Mundo este ano, este não teve dúvidas em escolher Lewis Hamilton. E isto explica-se apenas com uma palavra: dinheiro. Desde que chegou à Fórmula 1 que o britânico, de alguma forma, revolucionou o paddock. Mais do que ter sido o primeiro negro a correr na competição e, mais tarde, a sagrar-se campeão do Mundo, Hamilton deu à Fórmula 1 uma modernidade que até então não tinha. Sempre houve bad boys na grelha, mas Hamilton é outra coisa: as roupas, as tatuagens, as namoradas, a vida de glamour que mostra nas redes sociais, os amigos famosos, a atitude desafiadora, tudo isso trouxe um novo público, mais jovem, à Fórmula 1.

Por isso mesmo, Ecclestone diz que Rosberg é “mau para o negócio”. Numa coluna que mantém no Daily Mail, o homem forte da Fórmula 1 escreveu que uma vitória do alemão não seria benéfica para o desporto. “Se o Nico ganhar será bom para ele e para a Mercedes, mas não necessariamente para a Fórmula 1 porque não há nada para escrever sobre ele”.

Isto porque Rosberg é o epítome do bom rapaz: homem de família, casou-se em 2014 com a namorada de longa data Vivian e no ano passado foi pai pela primeira vez. Além disso, nunca sai do tom nas cinco línguas que fala fluentemente (alemão, inglês, espanhol, francês e italiano), continua com aquele ar de quem não parte um prato e com a pele limpa de tatuagens. Continua a viver no Mónaco, onde ninguém dá por ele e, na garagem da Mercedes, não há quem não lhe reconheça o esforço, o trabalho. A coisa mais fora da caixa que podemos dizer do alemão é que sabe andar de monociclo e fazer malabarismo com três bolas. Ao mesmo tempo. De resto, Rosberg é rápido, mas Hamilton é talento. Rosberg é a discrição, Hamilton é mais espalhafato. Rosberg não terá fotógrafos à porta, não fará capas de revista, não será cara de uma qualquer campanha de moda. Mas é campeão do Mundo.

Ecclestone bem pode dizer que não há muito para dizer sobre Rosberg mas assim de repente esta prosa já vai em mais de 5 mil caracteres e provavelmente ainda não chegámos ao que é verdadeiramente importante: 206 Grandes Prémios, 23 vitórias, 30 pole positions, um título mundial. Não o tratem mais por “Britney”.

Partilhar