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Nico Rosberg e Lewis Hamilton: dois queridos inimigos e um título

Colegas de equipa, rivais, "frenemies". Os dois pilotos da Mercedes discutem este domingo, em Abu Dhabi, quem vai ser o campeão mundial de 2016. O alemão parte com uma vantagem de 12 pontos face ao britânico, eles que se conhecem de ginjeira: os seus caminhos cruzaram-se pela primeira vez quando ambos tinham apenas 13 anos

Lídia Paralta Gomes

Conhecem-se desde miúdos e, tal como nas últimas duas temporadas, Nico Rosberg e Lewis Hamilton vão lutar pelo título mundial de Fórmula 1. A vantagem, desta vez, está do lado do alemão

ULI DECK/Getty

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Abu Dhabi: calor, deserto, luxo, decisões. Pelo terceiro ano consecutivo, o circuito de Yas Marina é palco da última prova do Mundial (algo que também já tinha acontecido em 2009 e 2010) e, tal como há dois anos, Lewis Hamilton e Nico Rosberg, colegas de equipa na Mercedes, afiam facas para uma luta fratricida pelo título.

A diferença para 2014, quando Hamilton venceu o seu segundo título (tem três), é que desta vez o alemão tem vantagem: são 12 pontos que Rosberg terá de gerir para finalmente conquistar o primeiro título de uma carreira de 10 anos na Fórmula 1, ele que é dono de um daqueles recordes que ninguém acha muita graça ter: nunca ninguém ganhou tantos grandes prémios (23) sem ter ganho o Mundial. A oportunidade nunca esteve tão à mão e “basta” um pódio na capital dos Emirados Árabes Unidos para deixar essa infame lista.

O basta está entre aspas e a razão é simples: após o GP Japão, no início de outubro, Rosberg tinha 33 pontos de vantagem para Lewis Hamilton, que nas duas últimas temporadas foi campeão, deixando o alemão com uma prata que na Fórmula 1 vale zero. De outubro para cá, o britânico venceu sempre e já salvou dois match points, no México e no Brasil. Mas amanhã, em Abu Dhabi, não há volta a dar: vai ter mesmo de haver campeão.

Os caminhos de Nico Rosberg e Lewis Hamilton, ambos com 31 anos, cruzaram-se bem antes destes dominarem a principal disciplina do desporto automóvel. Os dois conhecem-se desde os 13 anos, quando foram companheiros de equipa no mundial de karting, uma espécie de jardim de infância dos campeões. Apesar de não poderem ser mais diferentes (Rosberg é discreto, Hamilton mais vaidoso), tornaram-se amigos, mas hoje, após dois anos de uma acesa rivalidade cheia de casos, a relação é tensa, ainda que não distante.

Estranho, não é? E daí não: talvez Rosberg e Hamilton sejam o melhor exemplo daquilo que os anglo-saxónicos chamam de “frenemies”, expressão que é uma mistura de “friend” (amigo) e “enemy” (inimigo). Na pista, acumulam-se os despiques entre ambos, despiques esses que muitas vezes acabam na gravilha (como no GP Espanha) ou com pedaços de peças no meio da pista (GP Áustria) - e estamos só a falar deste ano. Por outro lado, ambos moram no mesmo condomínio fechado em Monte Carlo e não é estranho vê-los a conversar na piscina. E na Mercedes todos sublinham que os dois trocam todo o tipo de informações sobre o carro, para que ambos possam melhorar. Talvez nem tudo se tenha perdido desde os tempos em que partilhavam quarto na adolescência e embrenhavam-se em violentas lutas de almofadas.

Hamilton e Rosberg com 13 anos. Tão queridos que eles eram...

Hamilton e Rosberg com 13 anos. Tão queridos que eles eram...

“Temos respeito um pelo outro, que já vem da altura em que éramos companheiros nos kartings, quando tínhamos 13 anos. É claro que há altos e baixos, dependendo da situação. Às vezes a nossa relação é mais difícil, outras é mais fácil. Trabalhamos juntos pelo bem da equipa e, ao mesmo tempo, somos rivais. Assim que é tudo muito intenso”, confessou o quase sempre politicamente correto Rosberg antes do GP Brasil, há duas semanas.

Toto Wolff, diretor executivo da Mercedes, nem sequer quer ouvir falar em estratégia ou até na discutida hipótese (na imprensa britânica, note-se) de Rosberg provocar um acidente que coloque Hamilton fora-de-jogo - o britânico só tem possibilidades de chegar ao título se for ao pódio. Não haverá ordens dentro da equipa (aliás, nunca houve, Wolff só ponderou tal cenário após o choque dos pilotos no GP Áustria e terá sido mais um puxão de orelhas do que outra coisa qualquer) e a todos os que lhe têm perguntado sobre a corrida de domingo, Wolff responde simplesmente que os dois merecem e que por isso “que ganhe o melhor”.

Como curiosidade, caso Nico Rosberg confirme o título, será apenas o segundo filho de campeão do mundo a imitar o pai: Keke Rosberg, que venceu o Mundial de 1982. Graham (1962 e 1968) e Damon Hill (1996) foram os primeiros a conseguir tal feito.

Os momentos quentes da temporada

Nos últimos três anos, a rivalidade entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg já conheceu vários momentos de tensão. Este ano as coisas aqueceram a sério no GP Espanha e no GP Áustria, com direito a encontros imediatos do terceiro grau entre os dois Mercedes em plena pista e trocas de acusações fora dela.

No GP Espanha, Hamilton partiu da ‘pole’, mas deixou-se ultrapassar pelo colega no arranque. Ainda na primeira volta, Hamilton tentou recuperar a posição, Rosberg não foi na conversa e, resultado, acabaram os dois fora de pista.

Já no GP Áustria, a emoção apareceu na última volta. Rosberg seguia em primeiro, Hamilton em segundo e, numa altura em que o alemão se debatia com problemas nos travões e nos pneus, o britânico tentou a ultrapassagem. Rosberg defendeu-se de forma mais agressiva e o embate foi inevitável. O carro de Hamilton escapou sem danos e o britânico venceu a corrida. Já Rosberg, mais tarde considerado culpado pelos comissários, ficou sem asa dianteira e terminou apenas em 4.º.

As contas do título

Para conseguir o seu primeiro título mundial, Nico Rosberg nem precisa de ganhar em Abu Dhabi. Estão 25 pontos em jogo e o alemão tem 12 de vantagem para Hamilton, pelo que um lugar no pódio é suficiente. Rosberg será sempre campeão caso se verifiquem os seguintes cenários:

  • Se Hamilton for 1.º, tem de ser 3.º ou melhor

  • Se Hamilton for 2.º, tem de ser 6.º ou melhor

  • Se Hamilton for 3.º, tem de ser 8.º ou melhor

  • Se Hamilton for 4.º, Rosberg é automaticamente campeão, seja qual for o seu resultado

Se Hamilton for 2.º e Rosberg 7.º, os dois pilotos ficam empatados com 373 pontos. Como ambos têm o mesmo número de vitórias e de 2.º lugares, é preciso desempatar com o número de 3.º lugares: aí ganha Hamilton.

Adeus aos veteranos

Além da decisão do título, o GP Abu Dhabi marcará o adeus à Fórmula 1 de Jenson Button e Felipe Massa. O britânico de 36 anos confirmou na quinta-feira uma despedida que já era conhecida - deverá ainda assim continuar em 2017 como piloto de reserva da McLaren -, deixando a competição após 305 grandes prémios, 15 vitórias e um título mundial, em 2009. Já o brasileiro da Williams, de 35, fará no domingo o seu 250.º e último grande prémio de uma carreira que começou em 2002, na Sauber, e conheceu o melhor período entre 2006 e 2013, na Ferrari, onde conseguiu as 11 vitórias que tem no currículo.