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Como Rosberg, Prost retirou-se campeão. Tudo para não correr novamente com Senna

A época de 2017 será a primeira sem o campeão do ano anterior nas pistas desde 1994. Naquela vez, Alain Prost preferiu retirar-se no auge a ser companheiro de Ayrton Senna novamente

Evandro Furoni

Pascal Pavani/AFP/Getty

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A Fórmula 1 revive este ano a experiência de não ter o campeão da época anterior na pista. Nico Rosberg decidiu retirar-se depois de conquistar o título e isso não acontecia desde 1994, quando Alain Prost, campeão em 1993, decidiu que não correria mais.

A diferença é que se Rosberg saiu por não ter mais motivações na F1, Alain Prost tinha um outro motivo: recusava-se de todas as formas a reeditar a parceria com o brasileiro Ayrton Senna e, ao mesmo tempo, a rivalidade mais famosa da história do automobilismo mundial.

"Qualquer um, menos Senna"

Prost fechou com a equipa Williams quando já era um veterano na Fórmula 1. Aos 38 anos, o francês já havia ganho três títulos mundiais quando começou a parceria com a equipa inglesa, após tirar um ano sabático em 1992.

Quando Nigell Mansell decidiu levar o seu famoso bigode para a Fórmula Indy, Prost tinha o estatuto e a nacionalidade correta para a agradar à francesa Renault, provedora de motores para a Williams. O piloto só impôs uma condição para aceitar: nada de Senna.

"A verdade é que quando assinei o contrato com Frank [Williams, dono da equipa], era um contrato de três anos e eu disse: 'Não quero ser o número um, não ligo. Nunca fui o número um numa equipa. A única coisa, e eu sei que tu entenderás, é que eu quero enfrentar Ayrton, pois ele é 'O Homem', mas nunca vou aceitar Ayrton na minha equipa novamente", disse Prost numa entrevista para a revista "F1 Racing".

A parceria deu certo: Prost foi campeão em 1993 com sete vitórias e 99 pontos. A questão é que surgiam boatos de que o vice-campeão daquela época estava insatisfeito na McLaren e a oportunidade era tentadora demais para a Williams desperdiçar.

"Durante a época Frank disse-me: 'Alain, desculpe-me, mas eu estou a sofrer muita pressão para ter Ayrton na equipa'. Eu disse que eles não teriam a minha autorização porque este é o ponto central de tudo", disse o piloto francês na mesma entrevista.

"Até que em agosto peguei no telefone e disse a Frank: 'Tudo bem, tu queres Ayton, ficas com Ayrton e eu retiro-me. Mas se eu retirar-me, quero que me paguem o contrato do próximo ano [1994]. Se Ayrton quer vir e será sem custos para ele, eu quero receber como um campeão mundial", revelou Prost.

O samurai contra o computador

Para entender a recusa de Prost em relação a Senna, é necessário voltar ao biénio de 1988/1989, quando a dupla protagonizou a maior rivalidade da história da Fórmula 1. Prost já era tricampeão pela equipa quando foi consultado sobre quem deveria ser o seu novo parceiro na McLaren.

"Em 1988 era uma escolha entre Senna e [Nelson] Piquet. Quando fui ao Japão com Ron [Dennis, chefe da McLaren] para conhecer os homens da Honda, disse que eles deveriam escolher Ayrton, pois ele era o piloto mais talentoso", contou Prost numa entrevista para a revista "Motorsport" em 1998.

O francês arrependeu-se da opinião mais tarde. Juntamente com Senna, chegaram até a McLaren os motores Honda, e a equipa basicamente dividiu-se em duas. Houve funcionários que chegaram a mencionar que parecia que havia a equipa McLaren, liderada por Prost, e a equipa Honda, que trabalhava para Senna.

As personalidades opostas também não ajudavam. Prost era conhecido como "O Professor" pelo seu estilo limpo de pilotagem. Senna era idolatrado por ser extremamente agressivo. O brasileiro chegou a quase empurrar Prost contra a parede em Estoril, ainda no início da parceria.

Entrou para a história o Grande Prémio de Suzuka de 1989, quando os dois pilotos se recusaram a dar espaço ao outro numa curva. Prost acabou fora da corrida, Senna seguiu, mas foi desclassificado por ter tido ajuda externa para voltar após o acidente. O francês sagrou-se campeão.

"Tive um almoço com o presidente da Honda em 1988 e ele admitiu que favoreciam o Ayrton. Disse-me que a nova geração de engenheiros a trabalhar nos motores ajudava mais Senna, pois ele era mais o samurai, eu era o computador", disse Prost.

Reconciliação antes da tragédia

Quando o francês parou de correr, a relação começou a mudar. Senna abraçou Prost no pódio em Adelaide, o último com as duas lendas juntas. Em 1994, já na Williams, Senna chegou a declarar que Prost fazia falta na Fórmula 1.

O brasileiro estava particularmente próximo do rival no Grande Prémio de Ímola. Prost era um grande advogado por mais segurança no automobilismo e Senna estava a herdar o manto. Eles conversaram muito naquele fim de semana, principalmente depois de Roland Ratzenberger morrer num acidente nos treinos de sábado.

Durante a prova, foi Senna quem sofreu um acidente e não sobreviveu. Prost foi ao seu enterro em São Paulo.