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Um Grande Prémio de loucos, numa cidade de loucos: a Fórmula 1 estará a planear uma street race em Hanói

Não é preciso consultar números para arriscar escrever que na capital, e segunda maior cidade do Vietname, há quase tantas pessoas como motos. Porquê? As ruas são estreitas e confusas e as curvas apertadas, o que torna o andar sobre duas rodas no meio de transporte mais apropriado. Mas existem rumores de que a Fórmula 1 está prestes a anunciar a realização de um Grande Prémio no meio da cidade, como acontece no Mónaco

Diogo Pombo

Linh Pham

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Hanói em particular, e o Vietname no geral, em tudo o que toca a cidade, é um caos organizado. Milhões de pessoas, literalmente, escolhem algum tipo de moto como meio de transporte preferencial e essa opção por duas rodas é compreensível, dada a forma como se vive em Hanói. Pessoas sentadas em motorizadas, com cara de sonambulismo, despreocupadas com quem possa vir de frente ou dos lados, aparentemente a fazerem o que lhes apetece enquanto vão buzinando, não em protesto, mas como aviso de que estão ali.

Para quem não está, ou nunca foi lá, é mais fácil ver este exemplo:

Ou este:

É uma organização caótica, por muito contraditória que tal descrição seja, porque toda a desconsideração por supostas prioridades, regras de trânsito, faixas de rodagem ou bom-senso resulta e as pessoas fazem a sua vida. Nada disto é impeditivo que, um dia, se ouse organizar uma corrida de automobilismo, fechando um circuito no meio da cidade das ruas apertadas, estreitas e confusas, como a Fórmula 1 parece querer fazer.

Esta quinta-feira, a revista "Forbes" avançou que a organização da modalidade revelará, em breve, um novo Grande Prémio para o calendário na antiga capital vietnamita. Por em breve entenda-se “nas próximas semanas”, garantiu a publicação, que citou uma fonte da Fórmula para escrever que “eles vão anunciar uma street race”.

Ou seja, um circuito urbano onde, pelo menos, uma parte do trajeto seja em vias da própria cidade, que são fechadas ao público para a realização da corrida. Algo que, a época passada, aconteceu em quatro dos 21 Grande Prémio do calendário: em Montreal, no Canadá, no Mónaco, em Singapura e em Melbourne, na Austrália, onde a próxima temporada arrancará, no final de março.

A decisão, explicar a "Forbes", foi tomada internamente na quarta-feira, em Londres, onde a Associação de Promotores de Fórmula 1, que junta as organização das 21 corridas, se juntou. Mais tarde, ter-se-ão encontrado com representantes da Liberty Media Corporation, que, em 2016, comprou os direitos da modalidade e, pouco depois, demitiu Bernie Ecclestone da função de diretor executivo da rainha das provas de automobilismo. Mas esta história também passa pelo magnata britânico.

Mark Thompson

Em abril, pouco antes de abandonar a F1, admitiu ao “Independent” que, nesse ano, rejeitara uma oferta de promotores no Vietname. Ecclestone revelou que o eventual contrato teria uma duração de 10 anos e renderia cerca de 363 milhões de euros. “Até me deram a oportunidade de reunir com o presidente do país. Mas não aconteceu, porque já tínhamos corridas e bons promotores nessa região do mundo. Já tinha sido criticado quando coloquei corridas em Baku [Azerbaijão] e na Rússia, por não terem tradição no desporto”, explicou o ex-patrão da Fórmula 1.

O britânico também terá pensado na reputação que já o perseguia, de se focar, apenas, nos cifrões e no lado financeiro da modalidade, distribuindo Grandes Prémios pelos locais do mundo que mais dinheiro ofereciam para obterem uma licença da parte da entidade. Como uma espécie de leilão. “Quanto posso extrair disto? Quanto receberei logo a pronto? E acabámos com corridas em sítios como Baku, onde nos pagaram muito dinheiro, mas em nada ajuda a construir a imagem da marca a longo prazo e a saúde do negócio”, criticou, entretanto, Greg Baffei, diretor executivo da Liberty.

E o Vietname, neste momento e como está, pouco contribuirá para tal. Apenas construiu a primeira pista em 2016, distante em 30 quilómetros de Ho Chi Minh, no sul do país, algo que já tentava fazer desde 2010 - o plano foi sendo adiado devido às leis relativas às apostas desportivas. As apostas online foram legalizadas em março de 2017, escreve o “Independent”, embora ainda só sejam permitidas a quem aufere um salário mínimo mensal de 408 euros.

HOANG DINH NAM

A Fórmula 1, atualmente, tem três corridas agendadas para a Ásia - na China (13-15 de abril), na Singapura (14-16 de setembro) e no Japão (5-7 de outubro).

Pelos vistos, e caso venha a receber o quarto Grande Prémio no continente asiático, a confirmar-se que será um circuito urbano, Hanói vai mexer com a vida de muita gente: se o tráfego e o trânsito já é o que é, com ruas fechadas e acessos restringidos, o caos poderá ficar mais desorganizado.