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Uns concordam, outros querem cortá-lo com uma motosserra: a coisa nova que se discute na nova F1

É a novidade mais visível nos monolugares para a nova temporada, que arranca a 25 de março em Melbourne, na Austrália. O halo vai aumentar a segurança, mas a estética e as dúvidas sobre os efeitos que pode causar em termos de visibilidade deixam ainda dúvidas a alguns dos pilotos

Lídia Paralta Gomes

Marco Canoniero/Getty

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Não falta sequer um mês para o arranque da nova temporada da Fórmula 1, em Melbourne, na Austrália. A primeira sem grid girls, a primeira com halo.

Halo? Não, não estamos a falar de uma canção da norte-americana Beyoncé, mas sim daquele objeto não-voador identificado que vai passar a surgir à frente do habitáculo do piloto, tudo para tornar a Fórmula 1 ainda mais segura. Isto, apesar dos acidentes fatais serem neste momento uma raridade na disciplina – o francês Jules Bianchi foi a última vítima mortal, em 2015, nove meses depois de um acidente no GP Japão. Antes dele? Ayrton Senna, em 1994.

Foi exatamente após o acidente de Jules Bianchi que os responsáveis máximos da Fórmula 1 se empenharam ainda mais em esforços para ao mínimo o perigo nas pistas e a primeira proposta do halo, uma plataforma em forma de T que protege o piloto das lesões cerebrais que podem acontecer com o impacto de grande objetos, foi apresentada pela Mercedes ainda em 2015.

O halo da Mercedes era feito de aço e, em testes, provou ser eficaz a evitar o embate de pneus de 20 quilos lançados a 225 km/h. Seguiram-se alguns anos de desenvolvimento e evolução do sistema, até que a Fórmula 1 tornou obrigatória a sua adoção para a época de 2018.

A tecnologia que já está a ser usada nos primeiros testes de inverno, que estão a decorrer em Barcelona, e que será visível em todos os carros da grelha de partida no GP Austrália, a 25 de março, é substancialmente diferente da primeira proposta da Mercedes: o halo de 2018 é mais resistente, feito de titânio e o arco é mais largo, de forma a afetar o menos possível a visibilidade do piloto, bem como o risco de nele embater em caso de acidente.

O aspecto do halo num dos Red Bull

O aspecto do halo num dos Red Bull

Joan Valls/Urbanandsport/Getty

Mas será o halo infalível, capaz de evitar qualquer tipo de lesão cerebral grave a um piloto? Risco haverá sempre, mas os estudos feitos pela FIA, a Federação Internacional Automóvel, são claros: em 17 testes a acidentes graves, o halo ajudou a minimizar danos em 15. Nos restantes dois, o resultado foi neutro.

A estrutura resistiu ao embate de objetos largos, como partes de outros carros, rodas ou barreiras metálicas. Mas ficou por provar se salvaria Jules Bianchi, que embateu e ficou preso debaixo de um trator que fazia a recolha de outro carro; ou se teria evitado o acidente de Felipe Massa no GP Hungria de 2009, que sofreu uma fratura craniana causada por uma pequena peça que se soltou do monolugar de Rubens Barrichello.

Uns contra, outros nem por isso

Que o halo torna o carro mais seguro, parece que ninguém tem dúvidas. Mas um pouco como o futebolista que, mesmo sabendo que tem menos possibilidades de se lesionar usando caneleiras, sente-se melhor sem as usar, nem todos os pilotos e diretores estão a favor deste novo sistema. Pela visibilidade que tira, pelo peso que o halo vem acrescentar ao carro. Mas, a maioria, aponta motivos meramente estéticos, o que deu azo a reações, bem, extremamente gráficas. Como a do diretor-executivo da Mercedes, Toto Wolff.

“Não estou nada impressionado com o halo e se me dessem uma motosserra eu cortava-o! Devemos naturalmente de ter em atenção a segurança do piloto, mas o que integrámos não é esteticamente atraente e precisamos de uma solução que pareça melhor”, disse o responsável, que ainda colocou reservas quanto aos efeitos do aumento de peso do carro. “Ao colocá-lo no meio do carro, vais alterar imediatamente o centro de gravidade”.

Pierre Gasly, da Toro Rosso, surgindo entre o halo

Pierre Gasly, da Toro Rosso, surgindo entre o halo

Peter Fox/Getty

O centro de gravidade é algo que preocupa Max Verstappen, um dos pilotos mais altos e pesados da grelha. “Não vai ser nada bom para mim”, frisou o holandês numa entrevista ao site da Red Bull, onde também criticou o aspecto do halo: “É muito feio”.

Outro dos críticos? Nico Hulkenberg, da Renault, nada satisfeito com as mudanças que a Fórmula 1 trará este ano. Para o alemão, o fim das grid girls e o início do halo são “grandes golpes”.

Quanto ao halo, Hulkenberg justifica a sua rejeição não só está relacionada com questões estéticas mas também porque “a probabilidade de acontecer algo em que o halo seja realmente útil é mínima”, disse à revista “No Sports”. O alemão diz ainda que todos os pilotos conhecem os perigos que correm: “Os desportos motorizados têm o factor velocidade. E todos estão conscientes disso”.

Mas para cada piloto que tem reservas em relação ao halo, há outro que aplaude a adoção do sistema. Há dois anos, Fernando Alonso despistou-se no GP Austrália e o seu McLaren deu várias voltas até parar destruído no chão. O espanhol teve de ser desencarcerado, uma operação que teria sido facilitada caso o halo já estivesse implementado.

“Acho que isto deixará rapidamente de ser um ponto de discussão. É um dispositivo de segurança, para proteger a cabeça dos pilotos. Nem sequer deve haver qualquer debate sobre isso, estamos a falar de um dispositivo de segurança”, disse o espanhol à Sky Sports. Alonso admite que a estética “não é a melhor” mas desvaloriza essa questão. “No futuro tenho a certeza que a Fórmula 1 e as equipas vão encontrar a melhor maneira de tornar o halo um pouco mais agradável para os fãs”.

Sebastian Vettel, piloto da Ferrari e inicialmente um crítico do halo, parece ter mudado de opinião durante os treinos em Barcelona: “Na verdade é bem menos invasivo do que eu pensava. Tenho a certeza que toda a gente se vai habituar”. Opinião partilhada por Daniel Ricciardo, piloto da Red Bull. “Não me levem a mal: não adoro o aspecto, mas acho que no final vai tudo ficar bem e rapidamente teremos outras coisas para falar, principalmente quando as corridas começarem”, escreveu o australiano numa coluna escrita no site oficial da equipa.

Vettel era um dos críticos do halo, mas após os treinos de Barcelona parece ter mudado de ideias

Vettel era um dos críticos do halo, mas após os treinos de Barcelona parece ter mudado de ideias

Joan Valls/Urbanandsport/Getty

Valtteri Bottas, da Mercedes, diz que se adaptou rapidamente ao halo e acredita que o mesmo vai acontecer com o público. “É algo novo e parece diferente, percebe-se que as pessoas não gostam muito ao início, mas toda a gente se vai acostumar. No simulador completei uma corrida e devo dizer que nem sequer reparei no halo”, disse na rúbrica “The Flying Lap”, do site Motorsport.com.

“Se a ‘coisa’ pode prevenir lesões, grandes ou pequenas, já é bom”, sublinhou o 3.º classificado do Mundial do último ano, ganho pelo colega de equipa Lewis Hamilton. O britânico tem uma opinião, digamos, mista sobre o halo. Tal como Bottas, acredita que em pouco tempo toda a gente, desde pilotos a adeptos, se vão adaptar à nova realidade, mas sublinhou durante a apresentação do Mercedes para a temporada de 2018 que os carros vão ficar “mais pesados” e, por isso, “menos divertidos de conduzir”.

Mais um gasto

Mas sobre o halo há mais discussão do que a estética ou a visibilidade. Para as equipas mais pequenas, com mais restrições orçamentais, o novo sistema veio criar um gasto extra e investimentos que não estavam previstos. A Force India, por exemplo, viu-se impedida a usar uma versão desenvolvida do chassis do ano passado, algo que tinha decidido fazer para controlar custos.

O diretor técnico da escuderia, Andrew Green, lamentou-se ao site da revista “Autosport”, lembrando que a Force India “não tinha antecipado fazer um novo chassis para 2018, dada a quantidade de mudanças feitas no ano anterior” e que as alterações no regulamento significaram gastar “centenas de milhares se não um milhão de dólares para colocar o halo no carro”.