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Futebol feminino

Aguenta coração: elas sofreram, mas Portugal está pela primeira vez no Europeu

A história está feita. A Seleção Nacional feminina empatou (1-1) na Roménia e agarrou o último bilhete disponível para o Europeu de 2017. Um feito inédito que obrigou a prolongamento e a muito sofrimento. Holanda, aí vamos nós

Lídia Paralta Gomes

Ela acreditou: Andreia Norton marcou o golo histórico que coloca Portugal no Europeu da Holanda

DIOGO PINTO-FPF

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Às vezes é preciso apenas aquele momento de inspiração, aquela decisão bem tomada. Quando nos segundos finais da 1.ª parte do prolongamento Ana Borges gingou na direita, tirou uma adversária do caminho e deu na área para Andreia Norton, toda a gente esqueceu o jogo menos feliz que a lateral do Chelsea estava a fazer até então.

Ana Borges até podia ter rematado, mas olhou e viu Andreia Norton sem marcação. A atacante do Sp. Braga recebeu, encheu o pé e marcou o golo mais importante da história do futebol feminino nacional. O golo que nos coloca pela primeira vez num Europeu. Holanda, aí vamos nós!

É claro que isto com Portugal não vai lá sem sofrimento. E um bocadinho de garra, já agora. Depois do nulo da 1.ª mão, do nulo do tempo regulamentar, aquele golo tinha de ser decisivo. Só que logo no arranque da 2.ª parte do prolongamento, a Roménia empatou, por Rus. Portugal continuava em posição de agarrar o último bilhete para o Europeu, mas os 9 minutos que se seguiram foram o sufoco.

“Segura”, “aguenta”, “guarda a bola”. Durante aqueles intermináveis minutos esqueceu-se o futebol: o importante era agarrar a história. Após duas tentativas falhadas, em 1997 e 2001, Portugal vai mesmo estrear-se numa grande competição de seleções, depois do empate por 1-1 conseguido em Cluj, na casa de uma Roménia que se tinha escondido em Portugal para matar no seu terreno. Não conseguiu.

Jogo aberto

Era certo e sabido que o jogo de Cluj seria bem diferente do encontro do Restelo, onde Portugal arriscou pouco e a Roménia nada. E, por isso, só na 1.ª parte houve muito mais futebol do que nos 90 minutos de sexta-feira. Pressão dos dois lados, bola a viajar constantemente entre as duas áreas, em suma, um jogo aberto.

Sem surpresa a Roménia entrou melhor e criou perigo logo aos 2 minutos, com a guardiã Patrícia Morais a afastar com os punhos após um canto tenso na esquerda. O aviso estava dado: a equipa amorfa do Restelo estava só a guardar-se para o jogo do tudo ou nada.

Mas perante mais de 7 mil espectadores - nunca um jogo de futebol feminino na Roménia tinha tido tanto público -, Portugal não se escondeu: foi à procura do domínio de jogo através do futebol apoiado que lhe está no sangue e aos 18 minutos quase chegava à vantagem. Após uma belíssima jogada de envolvimento do ataque nacional, sempre ao primeiro toque, Cláudia Neto cruzou para a área, onde Carolina Mendes rematou de calcanhar. Paraluta estava atenta e defendeu para canto.

A Seleção Nacional estava no seu melhor período, bem na circulação, bem no passe, mas menos bem na hora de rematar. E apesar de ter mais posse, a Roménia levava sempre mais perigo quando chegava perto de Patrícia Morais.

Sem conseguir marcar na 1.ª parte, Portugal foi-se abaixo nos segundos 45 minutos. Com Cláudia Neto sem a magia e critério habituais, Ana Borges muito vulnerável ao erro quando subiu da lateral para terrenos mais avançados e o cansaço a dar de si, Portugal começou a jogar direto e a permitir espaços à Roménia.

Aos 56 minutos, Patrícia Morais foi gigante, salvando por duas vezes Portugal: primeiro ao defender um remate forte de Lunca, numa das inúmeras cavalgadas da romena pelas laterais - os quilinhos a mais eram mesmo só aparência -, e logo de seguida a segurar em cima da linha a recarga de Ciolaucu. Uff.

Conseguir suster a velocidade da Roménia passou a ser então o objetivo da Seleção que, apesar disso, até podia ter resolvido o assunto nos descontos. Na sequência de um raro contra-ataque rápido, Diana Silva deixou para Ana Borges que tentou colocar em jeito, fora do alcance da guardiã romena. A bola acabou por ressaltar numa adversária e o prolongamento que se adivinhava acabou mesmo por acontecer.

Patrícia sempre atenta

O tempo extra começou com um ataque cardíaco coletivo para Portugal, quando Havristiu cabeceou colocado ao canto inferior direito da baliza de Patrícia Morais. A guardiã, à semelhança do que fez ao longo de todo o jogo, estava lá para voar e acalmar-nos os sinais vitais.

Depois, aos 105 minutos, chegou a tal jogada em que Ana Borges deu um safanão em todas as nossas críticas e Andreia Norton encheu-se de fé. O resto é história.