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Futebol feminino

Andreia Norton: primeiro a bola, depois a Comunhão

Em miúda, Andreia Norton jogava nas ruas, descalça, entre os rapazes. Na passada terça-feira, colocou a seleção feminina de futebol no Europeu pela primeira vez - e hoje, às 15h (transmissão TVI24) lidera o Sporting de Braga, líder do campeonato feminino, frente ao Sporting, 2º classificado

Lídia Paralta Gomes

A avançada de 20 anos foi a heroína em Cluj, na inédita qualificação portuguesa para o Euro

FOTO André Sanano/FPF

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As Comunhões Solenes no Furadouro sempre foram ao sábado de manhã. Calhou naquele ano os infantis do clube da praia, a cinco quilómetros de Ovar, jogarem no mesmo dia, quase à mesma hora. Andreia era a única menina do plantel e nada neste mundo iria fazer com que faltasse ao jogo. Nem mesmo a Comunhão. “Pediu-me para jogar a 1ª parte e tanto me chateou que tive de a meter em campo”, conta Augusto Barbas, o primeiro treinador de Andreia Norton, de 20 anos, a miúda de quem se fala: na terça-feira marcou o golo que colocou a Seleção Nacional feminina pela primeira vez num Europeu. O empate (1-1) em Cluj ditou o momento mais alto do futebol feminino português — no próximo ano, na Holanda, a 24ª seleção do ranking da UEFA vai intrometer-se entre os gigantes, de 16 de julho e 6 de agosto.

A frieza e a determinação com que recebeu aquela bola de Ana Borges e a chutou para a baliza da Roménia não são coisas de agora. Naquele sábado de manhã da Comunhão, no Furadouro, onde cresceu, Andreia embrenhou-se tanto no jogo que se esqueceu do compromisso com Deus. “Não queria sair do jogo”, recorda o técnico. “Chamava-a, chamava-a e ela não me ouvia. Tive de pedir ao árbitro para pará-la, para ela ter ainda tempo de tomar banho, vestir-se e seguir para a igreja”. Norton — é assim que todos a tratam — tinha apenas 10 anos, mas Augusto Barbas via-a chegar aos treinos de bola debaixo do braço e não tinha dúvidas: a miúda ia ser jogadora de seleção.

Uma década depois, Andreia é avançada do SC Braga e a heroína do histórico apuramento de Portugal. Em pequena jogava à bola na rua, na praia, descalça, frente a um bando de rapazes. “Jogava em todo o lado que visse uma bola”, lembra o primo César, com quem foi criada. De tal forma que quando se inscreveu no Clube Desportivo do Furadouro rapidamente se tornou uma das melhores. Mesmo entre rapazes. “Era a única rapariga, mas batia-se de igual para igual com os colegas. Era bem melhor que quase todos eles”, diz o técnico, que confiou o estatuto de subcapitã de equipa a Andreia. Felizmente, esta nunca sentiu complexos, apenas respeito. “Antes de jogar com o Furadouro, os clubes perguntavam sempre: ‘A menina vem?’. E os que tinham mais condições arranjavam sempre um balneário só para ela. Quando não havia essa possibilidade os colegas eram uns cavalheiros e deixavam a Andreia equipar-se primeiro”, conta Augusto Barbas.

A infância não foi fácil. Andreia é filha de Pingo, um antigo jogador brasileiro que passou pela Ovarense em 1995/96. Os dois não se conhecem, mas começaram a falar há alguns anos nas redes sociais. A jogadora foi criada primeiro pela avó, depois pelos tios, e cresceu num humilde bairro piscatório do Furadouro. Mas quem a conhece, diz que é daí que vem a sua espontaneidade e alegria. “Estou muito feliz porque ela é genuína. Costumo dizer que a Norton é uma casa cheia, onde estava era uma festa”. Paula Pinho foi treinadora de Andreia no Clube de Albergaria e diz que a avançada está “entre as três melhores jogadoras” com quem alguma vez trabalhou: “É uma jogadora muito completa, que consegue conciliar rapidez, força, técnica e uma grande visão de jogo. Tanto tem a força para fazer um remate a 30 metros da baliza como para arrumar três adversárias com um drible estonteante”.

DIOGO PINTO-FPF

Hoje há mais

“O que é que eu senti quando ela marcou o golo? Nem sei, mas os meus vizinhos sentiram um começo de um berro!”. Augusto Barbas brinca, mas não podia estar mais orgulhoso da miúda que ajudou a formar e que, diz, “só está a jogar 50% daquilo que pode atingir”. E, mais do que tudo, Andreia merece, porque a sua história também é uma história de superação: “Tem origens humildes mas sempre teve apoio familiar. Nunca perdeu o sorriso na cara”. Nem mesmo depois de um ano complicado em Barcelona, para onde se transferiu em 2015. Operações aos ligamentos cruzados dos dois joelhos não deixaram a avançada impor-se no gigante espanhol e Norton voltou em 2016 para Portugal.

“Tem talento para ser uma das melhores portuguesas de sempre”, garante Barbas. Domingo há mais: Norton prepara agora outro dos momentos da época: às (15h) o Sp. Braga (líder) recebe o Sporting (‘vice’) para a Liga Allianz. E ela quer voltar a ser heroína.

Factos e números

Na 2ª feira comemorou-se o 35º aniversário do primeiro jogo da seleção feminina. A 24 de outubro de 1981, Portugal jogou um particular frente à França, que terminou sem golos.

Portugal está no 40º lugar do ranking da FIFA (e 24º da UEFA). O objetivo é estar no top 25 da FIFA em 2020.

Há cerca de 3 mil atletas federadas em Portugal. A Alemanha tem mais de 250 mil. Na Suécia, país com 10 milhões de habitantes, há mais de 150 mil jogadoras.

O Roménia-Portugal (TVI24) foi o programa mais visto do cabo na 3ª feira, com uma média de 189 mil espectadores. O pico de audiência foi atingido no prolongamento (329 mil pessoas)