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Futebol feminino

A vida é delas, o futebol é de toda a gente

Durante dois dias, a Tribuna Expresso acompanhou a seleção feminina e ouviu histórias de mulheres que por acaso são futebolistas - e que não por acaso se qualificaram pela primeira vez para um histórico campeonato europeu, que será disputado no verão, na Holanda

Alexandra Simões de Abreu e José Caria

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A meio da conversa, a frase sai-lhe de repente, sem aviso. “A minha mãe faleceu quando eu tinha 16 anos”.

Aconteceu em 2010. Tatiana vivia com os avós maternos, “por opção própria”. Diz que “não quis abandonar Portugal, o futebol e a escola”. O pai havia emigrado há dois anos para França, onde trabalhava na construção civil, e a mãe tinha acabado de ir ter com ele.

Não insistimos mais. Há perguntas e respostas que se mastigam na boca e acabam por ser engolidas perante a dor.

Dia 1. Piso 1. Balneário B4. 15h30

Tatiana chegara de Uber ainda não eram três e meia da tarde, a hora marcada para a concentração do primeiro estágio da seleção feminina de futebol, após a qualificação para o Europeu da Holanda, a disputar em julho.

Está um daqueles dias gélidos de meados de janeiro. Sentada numa mesa perto da janela do restaurante da Cidade do Futebol, Tatiana tem os auscultadores ligados ao smartphone de onde quase não desvia o olhar.

É um fiel companheiro que ajuda a matar o tempo e as saudades. Enquanto esperamos pelas companheiras de seleção, a jovem de Oliveira do Bairro, de 22 anos, vai desvendando a sua curta mas já marcante história de vida. Quase sem perguntas.

Diz que aos seis anos a maior felicidade era andar na rua a dar pontapés na bola, ao lado dos rapazes. Teve de esperar outros seis para poder jogar numa equipa mista, onde ironicamente era a única rapariga. “Larguei logo as aulas de piano e o atletismo”, conta. Com 14 anos estreou-se nas seniores do Albergaria, a rampa de lançamento de muitas jogadoras do norte do país, e por aí ficou duas temporadas. Adorava jogar futebol.

“Quando me deram a notícia ao telefone não acreditei logo. Foi de morte súbita”. Não revela mais. Mostra o nome da mãe, Helena, tatuado no braço esquerdo e avança. “Foi um marco controverso porque no ano em que a minha mãe morre sou chamada à seleção pela primeira vez. Eu sempre lhe disse que ia à seleção e quando consigo… ela não está cá”.

Agarrou-se ao futebol como um náufrago a uma bóia de salvamento. Amadureceu depressa. Aos 18 anos foi para a Alemanha jogar no SC Sand. “Sozinha. Não tive receio”.

Foi o primeiro contrato a sério, com ordenado. Duas épocas depois regressa para uma curta passagem de cinco meses pelo Valadares. Nessa altura, “temeu-se o pior“. “Podia correr mal, deitar tudo a perder”, revela-nos mais tarde um membro do staff.

Mas Tatiana não perdeu o foco. Seguiu para o Bristol. “Inglaterra deu-me tudo. Passei a pensar como profissional, a colocar o futebol como prioridade”. Aprendeu a gostar de cozinhar – tem quase um curso sobre nutrição tal a importância que dá à alimentação –, mas o que pretende estudar na universidade é técnicas de tradução de inglês e francês. “Vejo-me um dia a traduzir documentos importantes de uma empresa qualquer”.

Nada ligado ao futebol, garante.

A ida para o Sporting, esta época, possibilitou-lhe o regresso às aulas e a um futebol “menos físico” que o alemão e inglês. “Se posso ser profissional no meu país, porque não? As jogadoras da seleção devem dar o exemplo, porque pode ser uma boa rampa para o crescimento do futebol português, que está a evoluir muito com o projeto da FPF e com a aposta dos clubes grandes que antes só tinham futebol masculino”, justifica a jovem médio que marcou presença na fase final do Europeu de sub-19.

Dia 1. Piso 1. Balneário B4. 15h45.

Cá dentro, 20 mulheres dos 20 aos 28 anos contam umas às outras as novidades vividas nos quatro meses que passaram desde a última vez que estiveram juntas. Aos pares ou em grupos de três e quatro tiram selfies, falam, riem, abraçam-se. A excitação é imensa.

Cláudia Neto, a capitã e a mais velha do grupo, interrompe para anunciar uma novidade. Vão estrear equipamento novo. “Já merecíamos!”, exclama Raquel Infante. E num instante as conversas mudam para “Dá-me um M”; “Isso é um S? Eu visto M”, “Vou experimentar o S”; “Olha lá estas mangas? Estão curtas!”; “Epá, isto fica bem melhor assim coladinho ao corpo”; “Gosto da cor. É mais feminino”.

No meio do veste e despe, Amanda e Suzane, sentadas lado a lado, vão apontando numa lista o tamanho de cada uma. “She’s M”. “No, she wants a L”. “This one is S”.

Amanda já entende alguma coisa de português, sobretudo as palavras mais usadas em campo, mas a conversa só flui em inglês. “Blame my parents” (culpe os meus pais), diz numa gargalhada.

Amanda Jacqueline Da Costa é filha de portugueses e nasceu em Nova Iorque há 27 anos. Tem carreira na liga americana, um curso superior de psicologia e até um negócio próprio, uma pequena academia de futebol para crianças. A disponibilidade para representar a seleção portuguesa aconteceu por “querer competir ao mais alto nível, a um nível nacional”. Já tinha representado os EUA nas camadas jovens, mas nunca mais foi chamada. A primeira convocatória de Portugal surgiu em dezembro de 2015 e a luso-americana não perdeu oportunidade para mostrar as qualidades enquanto médio-ofensivo.

O regresso a Portugal também serviu para rever família – “Não via os meus avós maternos desde os oito anos” – e para praticar um estilo de futebol mais ao seu gosto. “Nos EUA é sempre a mover a bola, máximo dois toques e passa; aqui dribla-se mais. Gosto de misturar os estilos. Sou boa a passar a bola”, assume.

Dia 1. Piso 1. Balneário B4. 16h05

Francisco Neto já tem autorização para entrar no balneário e pergunta: “Fizeste boa viagem? Dormiste?”. Amanda é direta: “Não”. Chegou de manhã, do outro lado do Atlântico juntamente com Suzane Pires, a ‘Zuca’ como carinhosamente é tratada por ter naturalidade brasileira, e só tiveram tempo de descansar uma hora.

Enquanto o selecionador dá a volta ao balneário para cumprimentar uma a uma as suas “meninas”, Suzane resume o seu percurso. Aos cinco anos começou a jogar futsal com o irmão, mas foi a ida para a Alemanha por causa do trabalho do pai – analista de sistema da Mercedes –, que lhe deu a oportunidade de jogar futebol de 11.

Tinha 14 anos e quatro anos depois voa até aos EUA para cumprir o sonho de estudar numa universidade americana. Aconteceu em South Connecticut, onde jogou pelos Boston Breakers. Tirou o curso de administração de empresas e voltou ao Brasil, ao Santos, onde ainda joga. A estreia na seleção portuguesa aconteceu no primeiro encontro do apuramento, contra a Finlândia, em 2015. “Lembro-me que trouxe uma mala grande, cheia de roupa para trocar e as meninas daqui gozaram muito comigo”, conta a rir.

Dia 1. Piso 0. Sala de refeições. 16h30

Hora do lanche. Na mesa comprida, as jogadoras sentam-se seguindo o mesmo padrão de afinidades que as juntou no balneário. As equipas técnica e médica convivem ao lado, numa mesa redonda. Entre croissants, chá, sumo ou fruta, a troca de novidades continua. Carole e Cláudia falam das saudades da comida portuguesa e de como as mães lhes enchem as malas com mimos nacionais. “Eu faço a mala, vou dormir e depois quando abro lá, aquilo é uma surpesa. De certeza que a minha mãe me põe coisas lá dentro à noite”, conta Carole, arrancando gargalhadas.

Carole Costa joga na Alemanha vai para sete anos. Não quer outra vida. É uma das mais alegres de todo o grupo e a DJ de serviço. É sempre ela quem escolhe a música no balneário.

Cláudia Neto, a jogar no campeonato sueco, recorda o lombo de porco que levou da última vez e que, apesar da mala só ter chegado três dias depois, ainda estava delicioso.

“Atenção! Enfermaria dentro de 10 minutos. E toda a gente vai à enfermaria”. A voz de comando vem da doutora Elsa, a líder da equipa médica composta ainda pela fisioterapeuta Susana Azinheiro e a enfermeira Ana Guerra. Por enquanto, vão apenas ouvir e apalpar as queixas.

“Há menos mazelas do que há uns anos. Felizmente a ida de muitas delas para o estrangeiro, o deixar de treinar três vezes por semana para treinar todos os dias, e o investimento dos clubes cá, acabou por resultar num melhor trabalho de prevenção e num maior acompanhamento médico”, resume a médica da FPF. Ao mesmo tempo “a moda do fitness, entranhou-se de tal forma no dia a dia delas que passaram a trocar dicas de alimentação e nutrição”, contribuindo também para uma melhor condição fisica.

O número de jogadoras de futebol profissionais ou semi-profissionais duplicou na Europa nos últimos quatro anos, passando de 1303 atletas na temporada 2012/13 para 2853 em 2016/17, segundo um estudo da UEFA publicado em dezembro passado. Também o número de treinadoras qualificadas teve um aumento esta temporada em relação a 2015/2016, de 31%, para 17.553 técnicas acreditadas, bem como o número de árbitras, para 10.200, um crescimento de 17%.

Em setembro de 2016 havia em Portugal 7104 jogadoras filiadas o que representa um crescimento de 322% desde 2011-12, fazendo de Portugal um dos países onde a popularidade da modalidade mais aumentou, havendo cada vez mais mulheres e raparigas a praticar futebol. Ainda assim, o espaço e o tempo que ocupam na comunicação social, embora tenha aumentado, continua àquem daquele que é dado em países como Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Noruega e Suécia onde há mais 100 mil jogadoras registadas.

O futebol feminino veio para ficar.

Dia 1. Sala de conferências. 17h

O selecionador e a capitã Cláudia Neto seguem para a conferência de imprensa, onde vão falar sobre os dois jogos amigáveis contra a Irlanda do Norte, o primeiro já no dia seguinte. Na sala estão apenas quatro jornalistas e outros tantos repórteres de imagem. Trinta minutos depois, segue-se a palestra, na mesma sala onde decorreu a curta conferência de imprensa. A equipa técnica reune agora com as 20 jogadoras e o encontro dura apenas vinte minutos.

Depois de dar as boas vindas, Francisco Neto vai direto ao ponto. “Ninguém dê por garantido o lugar. Podem ir até ao último estágio antes do Europeu, não é isso que vos garante a ida à Holanda. Trabalhem como se fosse a primeira oportunidade que estão a ter. Nós não olhamos a estatutos, nem a nomes, olhamos a desempenhos dentro e fora do campo. Sempre com o pensamento coletivo à frente de tudo. O comboio está a andar e quem entrar de novo tem que se agarrar, porque está cá não para criar problemas, mas para ajudar. Alguma dúvida falem com a capitã e a equipa técnica”.

O recado está dado – não há intocáveis.

A seguir, um powerpoint mostra os três momentos do treino, que será centrado no jogo de transições. O selecionador explica detalhadamente cada um dos exercícios. E remata: “No primeiro treino vocês falam sempre muito, há excesso de verbalização porque está toda a gente cheia de vontade, a pedir a bola. Vamos com calma. O equipamento é novo, tem de ser suado que está muito apertadinho”.

Dia 1. Hotel. 20h

Após uma hora e meia de treino, já no autocarro a caminho do hotel, só as luzes dos telemóveis iluminam as caras cansadas. Por breves momentos o silêncio verga a excitação do reencontro.

Patrícia foi a primeira a sair do treino, do balneário e a chegar ao autocarro. Parece que está sempre com pressa. “Sou a palhaça do grupo. Acham que só digo disparates e gozam comigo”, queixa-se a guarda redes. Quem não a conhece até pode acreditar que está ofendida, mas a falsa seriedade não dura mais do que uns segundos e é rapidamente desmascarada por Raquel Infante, a companheira de quarto no hotel em Linda-a-Velha.

É a equipa técnica quem decide as parelhas no alojamento mas, de uma maneira geral, cede às cumplicidades criadas em clubes ou nos muitos anos de convívio na seleção.

No quarto 208, Ana Borges, Silvia Rebelo, Carole e Cláudia Neto desfazem as malas. “A primeira coisa é pôr lá fora as chuteiras, senão ninguém dorme com o cheiro”, atira Ana Borges numa gargalhada envergonhada.

A jogadora do Chelsea, de 26 anos, que esta época está emprestada ao Sporting, é uma das veteranas da seleção e para algumas das colegas a melhor jogadora. Brincalhona, Ana revela que o pai e o irmão preferiam que ela “tivesse ido para bombeira ou para polícia em vez de ser jogadora de futebol”, mas o preconceito foi ultrapassado ao verem os bons resultados da extremo direito que, além do futebol inglês, já passou pelo espanhol e pelo americano.

Com contrato até 2019 pelo Chelsea, diz que já não há muita diferença de ambiente nos clubes e na seleção. Não é de estranhar: das 20 jogadoras desta convocatória, sete jogam no Sporting.

É o caso de Fátima Pinto que neste dia completa 21 anos. Após o jantar volante, marcado para as 21h, um bolo de chocolate, os “Parabéns a você” e a oferta de uma camisola da FPF à aniversariante, antecedem a subida ao quarto da doutora Elsa, transformado em enfermaria, e por onde todas passam para massagens e tratamentos.

Com umas mais faladoras do que outras, só depois das 23h é que as luzes começam a apagar-se.

Acabou o dia.

Dia 2. Pequeno-almoço. 10h30

Carole vai até à zona da piscina onde nos revela como foi dura a adaptação à Alemanha, quando há seis anos saiu do Leixões para ir jogar no SG Essen-Schönebeck. Pouco antes tinha sido operada ao coração.

O frio continua a apertar, mas o céu limpo convida a aproveitar o calor do sol. “Tinha um sopro que me provocava muito cansaço. Cheguei a falhar jogos da seleção por causa disso. Felizmente tudo correu bem e estou ótima”.

Os primeiros dias sozinha em terras germânicas foram dificeis. Custou-lhe adaptar à língua – que hoje fala fluentemente –, aos treinos “muito puxados e fisicos” e por isso no primeiro mês “quando chegava a casa ia logo dormir”. Não se arrepende. Está “no melhor campeonato feminino do mundo” e não se vê a sair de lá.

Antes da partida para o estádio nacional, Solange Carvalhas, Ana Borges, Sílvia Rebelo, Patricia Morais e Raquel Infante convivem no quarto das duas últimas. Quando chegamos, falam de Patrícia Gouveia, a médio do Sporting que recentemente anunciou estar grávida. “Eu antes dizia que ia ser mãe aos 22 anos, agora espero que seja antes dos 30. E quero um rapaz, não quero meninas”, atira Ana Borges.

Raquel e Solange assumem que também pensam na maternidade, mas por enquanto não passa disso, de um desejo.

A troca de experiências e de historias continua. Raquel lembra a sua passagem pela Finlândia e de como foi dificil encaixar-se naquele futebol mais direto e fisico, depois de ter passado pelos campeonatos espanhol e italiano. “Gosto de ter a bola e aquilo atrofiava-me um bocadinho. Dois toques e a bola já estava no ataque. Mas foi bom. E adorei os finlandeses, liguei-me muito às pessoas”, conta, depois de confessar que nos primeiros meses “riu muito sozinha”, por pouco ou nada saber de inglês.

A única experiência de Patrícia Morais no estrangeiro aconteceu em França, durante duas épocas. O suficiente para a guarda-redes do Sporting afirmar que se tiver de voltar a ir para fora só se for para o Lyon, “a melhor equipa do mundo”, onde tem hipótese de conquistar a Liga dos Campeões”. Sonhadora chega a deixar escapar que vê Portugal na final do Europeu. As outras riem-se, gozam com ela, dizem que é por ser guarda-redes que é assim, aérea. Ela replica. “Eu já fui avançada antes de ser guarda redes”.

Foi por aí que começou, lá à frente, porque “só queria era correr”. Meio a sério meio a brincar explica que só é guarda-redes porque “era má à frente” e que ao início não achou piada à troca. Mas foi crescendo e engradecendo e hoje nos jogos em casa até já lhe dedicam o mesmo cântico com que brindam o seu homólogo Rui Patrício.

Dia 2. Estádio Nacional. 14h

O roupeiro Hugo Vieira é sempre o primeiro elemento do staff a chegar ao balneário. Sozinho e em silêncio vai alinhando um a um os equipamentos, nos respetivos bancos. Primeiro, os calções dobrados, por cima as meias, mais atrás a um canto os calções e as camisolas para o aquecimento. Por último, as camisolas, penduradas nos cabides.

Tudo alinhado do 1 ao 20.

A roupa interior são elas que trazem.

Hugo faz um esforço para não se esquecer de nada. Já sabe que ali não pode entrar e sair à vontade, como quando está com os homens. Não resistimos à comparação: “Quem são mais vaidosos, eles ou elas?”. “Os homens. Mais vaidosos e mais exigentes”. Mas deixa uma justificação. “Eles são mais profissionais e têm mais coisas nos clubes, mais material desportivo e mais opções do que estas meninas, por isso trazem outros hábitos”.

Até nas chuteiras há diferenças: enquanto elas andam com dois pares, três no maximo, eles têm cinco ou seis, porque têm mais patrocínios.

A equipa da Irlanda do Norte e a de arbitragem já estão a dar uma volta de reconhecimento ao relvado do Jamor, quando a seleção portuguesa se junta a elas. Passear pelo relvado antes de se equiparem nos balneários, é uma espécie de ritual. As três equipas, separadamente, tiram selfies.

Olham-se de soslaio, trocam sorrisos, mal se falam.

Desta vez a porta do balneário fica fechada a estranhos. É dia de jogo, e ainda que não seja a sério, há sempre ansiedade e o momento é delas. Lá dentro, garantem-nos, não há grandes superstições nem rituais escondidos. Uma ou outra é capaz de rezar em surdina. Nada mais.

Mas há um hábito.

Um hábito que surgiu durante a fase de apuramento e que se tornou numa regra por força das boas vibrações e dos bons resultados. Ouvir “Melhor de mim”, cantado por Mariza, antes de subirem ao relvado.

A música tornou-se numa espécie de talismã. A própria Mariza quando soube fez questão de enviar uma mensagem de boa sorte antes do jogo do play-off contra a Roménia cujo empate a um golo garantiu o apuramento das portuguesas.

Dia 2. 1.ª parte. 16h

Tirando a ala esquerda, as restantes bancadas do Jamor já estão na sombra. Os termómetros marcam 11º graus e a partir de agora é sempre a descer. Ainda assim, há cerca de 200 pessoas a assistir ao encontro com a Irlanda do Norte, seleção que apesar de não ter conseguido o apuramento, tem um futebol idêntico ao inglês e escocês com quem, juntamente com a Espanha, Portugal vai disputar a primeira fase do Europeu na Holanda.

As equipas entram em campo, anunciadas com pompa e circunstância, ao som de “O Fortuna” (Carmina Burana) do compositor alemão Carl Orff. Seguem-se os hinos nacionais. Trocam-se galhardetes, cumprimentos. Começa o jogo.

Francisco Neto não consegue ficar sentado. De pé junto à linha limite da sua área passa os 45 minutos a gritar: “Largura baixinha, largura”; “Fica, fica”; “Cláudia joga e vai embora”; “Amanda rasga”; “Cláudia afunda”; “No chão, Carole”; “Aproveita o espaço nas costas delas para rasgar”; “Vamos lá, sem falta”; “Tens a Borges, olha a Borges”; “Diana vai para cima, não tenhas medo. Ganha tu o espaço”; “Não baixa o ritmo do jogo, acelera”; “Cláudia na direita, passa a 4,3,3”; “Mostra-te Borges”; “Embora, está na hora, Cláudia. Vamos”.

O selecionador português olha para a adjunta Marisa Gomes, a adjunta vai ter com ele e trocam opiniões.

Fim da primeira parte.

O marcador continua em branco. Apesar da seleção nacional ter passado a maior parte do tempo no meio campo irlandês, falha a finalização.

Dia 2. 2.ª parte. 17h

17h. 2ª parte. Francisco é o primeiro a regressar do intervalo. Toca no relvado e benze-se. Andreia Norton e Matilde Figueiras estão prontas para entrar. Estes últimos 45 minutos têm mais substituições, mas menos qualidade. Ainda assim, há um golo de Portugal. Marcado por Dolores Silva com a colaboração das mãos de manteiga da guarda redes irlandesa.

Francisco está menos interventivo, ao contrário de António Cravinho, que não consegue deixar de incentivar: “Não deixa, não deixa. Vai, vai”. É o team manager que apesar de só estar com esta seleção há um ano, tornou-se também ele numa “pedra da sorte”. Desde que chegou à equipa, nunca mais perderam. “As jogadoras adoram-no. Ele faz-lhes as vontades todas”, diz um membro do staff.

É ele quem marca as viagens, os locais de estágio, os hotéis, os transportes, enfim, trata de toda a logística e “apaga muitos fogos”. Há 40 anos a trabalhar na FPF, Cravinho diz-se feliz com a mudança. Depois de anos e anos com as seleções masculinas, sobretudo os sub-21, sente-se mais mimado junto delas. “São menos exigentes do que eles e mais prestáveis. Não fingem estar ao telemóvel para não carregar com sacos. Estão sempre prontas a ajudar e não complicam tanto. Por isso eu também tento corresponder aos apelos que me fazem”, explica-se.

Apito final. Depois dos abraços ouve-se o grito de guerra no relvado: “Portugal, Portugal, Portugal”.

Os termómetros já rondam os 6 graus, mas alguns dos que resistiram ao frio vão permanecer junto aos portões. São familiares que vieram, alguns de longe, para matar saudades.

Os técnicos Francisco, Marisa e Mónica Jorge (diretora do futebol feminino da FPF) que também esperam à porta do balneário, vão trocando impressões do jogo e não só. O selecionador não resiste a meter-se com Mónica: “Parece que igualei o teu recorde de sete jogos seguidos sem perder, e com mais jogos oficiais do que tu”. Num instante a internet tira as dúvidas. Tem razão. E a exibição, agradou? “Depois de quatro meses sem nos vermos, encontramo-nos ontem, fizemos um treino às seis da tarde, jogamos hoje e ganhámos… estou feliz”, responde o selecionador com um sorriso rasgado.

Dia 2. Estádio Nacional. 19h30

Lá fora os familiares continuam à espera. Cláudia Neto está desejosa de matar as saudades da sobrinha de um ano, dos pais e da irmã. Falam e riem na penumbra, à saida dos portões. São poucas as oportunidades para encurtar os quilómetros de saudades que separam a Suécia e do Algarve.

Ao lado, a envergonhada Matilde Fidalgo ouve (im)paciente a mãe, Eduarda Mota Veiga, que mesmo sem o seu inseparável megafone, com que atira bitaites para dentro do campo durante os jogos, continua a dar-lhe conselhos e incentivos.

É hora de novas despedidas. O autocarro sai do Jamor para Linda-a-Velha. Lá dentro equipa técnica e médica, membros do staff e jogadoras seguem felizes com a sensação do dever cumprido e já só pensam no jogo seguinte, dali a dois dias, outra vez com as irlandesas.

A vida continua e a vida é delas. O futebol é de toda a gente.