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Futebol feminino

Elas só querem competir com as melhores - mas têm de mudar de roupa nas casas de banho do aeroporto

Este é um dos problemas que levou 12 jogadoras a denunciarem publicamente a situação e a exigirem melhores condições à federação. Isto no país que está seis lugares acima de Portugal no ranking da FIFA

Diogo Pombo

Todd Warshaw

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“Estamos aqui porque queremos ser capazes de alinhar a melhor seleção nacional possível. Queremos conseguir competir ao mais alto nível e, para isso acontecer, toda a gente tem de se comprometer. Tem havido alguns problemas, não só nos últimos anos, mas já há muito tempo.

Primeiro que tudo, não nos é permitido guardar o equipamento, portanto aparecemos nos estágios com as nossas roupas civis, o que sempre aconteceu. Já houve ocasiões em que o pudemos fazer, quando deu jeito ao responsável dos equipamentos ou à FAI [Federação Irlandesa de Futebol], ou porque nos íamos juntar de novo, uma semana mais tarde.

É humilhante ter de ir a uma casa de banho pública e trocar de roupa, aconteça o que acontecer. Dêem-nos um equipamento, não é assim tão difícil. Honestamente, até estou um pouco envergonhada por estar a falar nisto. Eles não têm equipamentos suficientes, e as nossas seleções jovens têm de usar os mesmos equipamentos.”

Tudo o que está escrito em cima foi dito por Emma Byrne. É guarda-redes, capitã da seleção irlandesa de futebol feminino, tem 37 anos e 127 internacionalizações. Ela já venceu Ligas dos Campeões e anda nisto há muito, mas mesmo muito tempo. Foi o tempo em que permaneceu calada, até esta terça-feira, dia em que foi a primeira de 12 jogadoras da seleção a falar, perante os jornalistas.

As jogadoras juntaram-se para denunciarem situações que dizem acontecer há muitos anos - como terem de trocar de roupa nas casas de banho do aeroporto de Dublin, antes de irem ou depois de chegarem de viagem com a seleção. Porque os equipamentos oficiais da FAI, que usam, são os mesmos que as jogadoras das seleções jovens vestem. Tudo é partilhado por todos. “Isto realça a falta de respeito e nem estamos a pedir muito, só os básicos”, resumiu Aine O'Gorman, outra internacional irlandesa.

Não está a mentir. Na lista de exigências, as futebolistas incluiram coisas como terem direito a equipamentos oficiais, uma inscrição paga num ginásio, mais estágios e sessões de treino em território irlandês, ou um plano de nutrição.

E, sobretudo, que a federação compense as jogadoras amadoras pelas despesas reivindicadas pelas empresas em que trabalham, além de uma compensação financeira por cada dia que passem em representação da seleção irlandesa - algo que deixaram de ter há seis anos (rondava os 30 euros diários), escreve o Independent irlandês. “Não tem nada a ver com o que ele ganha ou com o que os homens recebem, trata-se de garantir que as mulheres possam comparecer nas digressões, jogar pela seleção sem se terem de preocupar com contas ou dívidas, porque é isso que se está a passar neste momento”, criticou Byrne, após um jornalista a confrontar com os 360 mil euros salário anual de John Delaney, presidente da federação.

A FAI, até agora, não está a gostar da situação.

Antes de as jogadoras revelarem os problemas publicamente a entidade regrediu até à Idade da Pedra e chegou a deixar avisos, com laivos de ameaça. “A vossa atual postura, de querer tornar isto público, não vos trará resultados positivos, mas, provavelmente, irá prejudicar a imagem do futebol feminino e o seu desenvolvimento futuro. Existe um real perigo de as vossas ações e a vossa recusa em negociar diretamente atrasarem o desenvolvimento do jogo e as vossas carreiras como jogadoras”, lê-se, numa carta enviada às jogadoras, antes da conferência de imprensa de terça-feira.

FLORIAN CHOBLET

No mesmo texto, a federação até as urgiu a pensarem na seleção eslovaca - contra a qual têm uma partida agendada para 10 de abril, Dublin - e nos quartos de hotel que já tinham reservado. Isto porque as jogadoras ameaçaram entrar em greve e recusarem-se a jogar esse encontro.

A entidade, em comunicado, assegurou que tentou agendar reuniões com as jogadoras em cinco ocasiões nos últimos seis meses.

E queixou-se do facto de as jogadoras estarem a ser representadas pelo sindicato de jogadores irlandeses, alegando que tem como política não lidar com terceiros quando o assunto se relaciona com as seleções. “São fornecidos à seleção os cuidados esperados para um ambiente de alta competição, com condições de treino de alto nível, alojamento em hotéis, planos de dieta e de fitness, análise de desempenho e tratamento médico”, argumentou a FAI, defendendo, ainda, que o orçamento da seleção feminina "foi aumentado em anos recentes" e até foi contratado um "treinador vencedor da Liga dos Campeões [feminina]"

O Independent, contudo, recordou que a seleção masculina recorreu a um empresário para negociar o pacote de prémios pela participação no Euro 2016.

Por tudo isto, o sindicato lamenta que a FAI encare as jogadoras e a seleção feminina “não como cidadãos de segunda, mas como cidadãos de quinta”. E pior: trata-as como “porcaria na sola do sapato, é assim que as vê”. A Irlanda é a atual 32.ª classificada do ranking da FIFA e calhou com Portugal, que está seis lugares abaixo, no mesmo grupo de qualificação para o Europeu de 2017, que se joga este verão, na Holanda.

Independentemente da solução a que se chegue, Emma Bryne resumiu o que as jogadoras estão a fazer - “Estamos a lutar pelo futuro do futebol feminino internacional. Isto já não é apenas sobre nós”.

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