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Khalida Popal (quase) deu a vida pelo futebol

Ela é a ex-capitã da seleção feminina do Afeganistão e abandonou o país depois de já ter conseguido o que não parecia possível: criar uma seleção que veste as cores do Afeganistão, no feminino. Falamos de Khalida Popal

Cláudia Alves Fernandes

Khalida Popal é a ex-capitã da seleção de futebol feminino, no Afeganistão

MASSOUD HOSSAINI

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De chutar uma bola a falar sobre os direitos das mulheres foi um pequeno passo. Pequeno, mas difícil para Khalida Popal. A ex-capitã da equipa feminina do Afeganistão abraçou o futebol quando ainda era adolescente, em Kabul, no Afeganistão. Atrás de portas, depois da escola, ela e as amigas jogavam em silêncio para que os guardas Talibãs não as ouvissem.

Em entrevista à BBC Sports, a ex-jogadora de futebol contou que o medo não torvou a sua lembrança da primeira vez em que chutou uma bola: “Estava a chover e era quase outono. Eu e uma colega tínhamos um bola velha e começámos a brincar com os sapatos que trazíamos calçados, porque na altura não havia chuteiras. Foi incrível e divertimo-nos a jogar futebol”.

Depois disso, foi apenas um passo para que jogar futebol deixasse de ser uma brincadeira e passasse a ser algo muito sério na vida de Popal. Com a seriedade, veio a responsabilidade de enfrentar um país onde os homens é que querem, podem e mandam. “A comunidade do futebol não nos queria aceitar. Estávamos a jogar o que sempre foi visto como um jogo para homens, no nosso país”, continua Khalida.

Mas a ex-capitã não desistiu do sonho. Foi acusada de desrespeitar o Islamismo, religião que segue, e chamada de prostituta inúmeras vezes, mas nem isso a impediu. A ex-jogadora explica que no Corão, livro sagrado da religião islâmica, não há nada que condene as mulheres que jogam futebol: “A religião não tem nada a ver com desporto. Jogar futebol é bom para a saúde das mulheres e não é contra a religião. Mulheres contra mulheres não é sexual e não vai contra o islamismo”.

Foi a determinação de Popal e das suas colegas que deu o pontapé de saída para a formação da seleção afegã de futebol feminino – em 2007, a equipa foi formada com o objetivo de inspirar as próximas gerações. No primeiro jogo da equipa saíram de campo mais encorajadas que nunca: o Afeganistão venceu por 5-0 o jogo contra uma equipa formada pela Força Internacional de Assitência à Segurança, uma missão da Nato, no Afeganistão. Mas o relvado do Estádio Ghazi, nesse dia, foi palco de muito mais do que um espetáculo de futebol. “Eu lembro-me de quando jogámos futebol, em Kabul, no estádio de Ghazi onde, antes, as pessoas se juntavam, mas para assistir mulheres a serem alvejadas pelos Talibãs. No mesmo relvado onde nós estávamos a jogar futebol. Naquele momento eu estava a jogar por essas mulheres”

Quando se tornou capitã da equipa, Khalida chegou a temer pela própria vida. "Foi muito perigoso, senti que podia morrer. A minha voz era mais e mais forte. Eu mudei a nação."

Três anos depois da formação da seleção, em dezembro de 2010, a equipa afegã experimentou pela primeira vez um campeonato internacional - o Afeganistão venceu por 13-0 o Nepal, no Campeonato de Futebol Feminino do Sul da Ásia, em Bangladesh. Mas desse jogo, a equipa levou para casa muito mais do que a vitória. Levaram a memória do hino do seu país a ecoar num estádio internacional. “A primeira vez que ouvimos o hino foi emocionante. E quando usamos a camisola da nossa seleção, estava muito orgulhosa. Senti que estava a lutar há tanto tempo... Nós lutámos por aquele equipamento e finalmente tivemos permissão para o usar”.

Passado um ano, depois de tanto lutar por si, pelo futebol e pelas mulheres, Khalida Popal baixou os braços. Com a ajuda de um amigo, voou para a Índia, onde viveu escondida. Abandonou o seu país porque sentiu que lhe tinham virado as costas. “Eu pedi ajuda e ninguém me ajudou. É a minha terra, o meu país, a minha identidade. E quando chegou o momento em que eu e outros precisávamos de ajuda, eles fecharam-nos a porta. Quando lutamos, não queremos perder, mas chega a uma altura em que temos que aceitar”, conta à BBC.

A Dinamarca agora é o país que a acolhe, mas o futebol feminino no Afeganistão nunca deixará de fazer parte da sua vida e Popal continua muito orgulhosa de tudo o que conseguiram alcançar: “Valeu a pena cada batalha. Não importa onde eu acabei, vou continuar a participar e a coordenar programas. E mesmo ao longe, vou ajudar o meu país. É isso que me mantem viva e feliz, porque eu amo o meu país”.