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Futebol feminino

Elas respondem em campo

Foram precisos mais de 30 anos para o futebol feminino português chegar pela primeira vez a um Europeu, mas elas estão cada vez melhores – e conseguiram-no. Esta quarta-feira é o dia D, 'D' do grupo de Portugal, que faz a sua estreia, em Doetinchem, frente à Espanha (17h, RTP1)

Alexandra Simões de Abreu e José Caria

José Caria

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Já todos ouvimos a lengalenga: o futebol não é para meninas, elas não sabem jogar, não têm força, não são inteligentes taticamente, etc, etc, etc. Será que é mesmo assim? A ver pelo que se anda a passar desde domingo na Holanda, nem pensar.

O Europeu de futebol feminino já começou e, quarta-feira, é a vez da seleção portuguesa entrar em campo - pela primeira vez na história lusa - na mesma altura em que a Federação Portuguesa de Futebol, aproveitando o enorme crescimento da modalidade nos últimos anos, lançou a campanha “Responde em campo”, com um objetivo claro: transformar o futebol na modalidade mais praticada por raparigas de norte a sul do país.

Em fevereiro, a FPF bateu o recorde absoluto de praticantes federadas, com 4062 jogadoras inscritas - um crescimento de quase 34% em relação a período homólogo na época anterior.

Os números sustentam o sucesso mais recente da seleção, que se qualificou para uma competição internacional pela primeira vez. Foi preciso esperar por uma geração de jogadoras que ganharam maturidade e experiência, sobretudo em campeonatos estrangeiros, e por uma aposta da própria FPF na criação de condições - este ano Sporting e Sporting de Braga deram um enorme impulso à nova Liga feminina Allianz, batendo recordes de assistência -, para que 23 anos depois se consiga chegar pela primeira vez à fase final de um Europeu.

Um feito histórico alcançado em novembro, depois de Portugal vencer o play-off que atribuía a última vaga. A equipa empatou com a Roménia em Lisboa (0-0) e em Cluj (1-1), mas com a vantagem de um golo fora, já no prolongamento.

O Europeu é disputado por 16 seleções em quatro grupos e em cada um deles as duas seleções mais bem classificadas garantem um lugar nos quartos de final. A seleção anfitriã deste Campeonato da Europa de futebol feminino, a Holanda, venceu a Noruega por 1-0 no encontro inaugural da competição, disputado domingo, em Utrecht, enquanto no outro jogo do Grupo A, a Dinamarca venceu a Bélgica pela mesma margem (1-0). Tudo em aberto.

Portugal vai estrear-se frente à Espanha e é quase unânime a ideia de que a seleção espanhola será a mais difícil de vencer num grupo que inclui ainda a Inglaterra (uma das favoritas) e a Escócia (que também se estreia num Campeonato da Europa).

José Caria

A Espanha venceu todos os jogos de qualificação para este Europeu e em março levou para casa a Algarve Cup, torneio particular que reúne algumas das melhores seleções mundiais, acentuando a grande evolução do futebol espanhol nos últimos anos - as seleções jovens de sub-17 e sub-19 têm estado invariavelmente nas finais europeias.

Os dois únicos embates oficiais entre ambas as seleções aconteceram precisamente na fase de qualificação para este Europeu... e Portugal perdeu. Primeiro, em Badajoz, por 2-0, e depois na Covilhã, por 1-4. A única vez que as portuguesas bateram as espanholas aconteceu num amigável que remonta a 1983 (1-0). Exatamente o mesmo resultado com que elas nos brindaram, em 1994, no segundo amigável.

À partida, o único factor de desestabilização agora poderá ser a ausência de Vero Boquete, jogadora do PSG e histórica capitã da seleção vizinha, e de Sonia Bermúdez, goleadora do campeão Atlético de Madrid, que, inesperadamente, o selecionador espanhol resolveu deixar fora da convocatória.

José Caria

Mas as surpresas acontecem. E neste Europeu, que ainda agora começou, elas já deram ar de sua graça. A Alemanha, campeã em título e medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, empatou esta segunda-feira com a Suécia sem golos, na primeira jornada do grupo B.

As alemãs venceram as últimas seis edições do Europeu, num total de oito triunfos (em 12 possíveis) e são por isso as grandes favoritas à vitória final, enquanto a Suécia não consegue vencer a competição desde a edição inaugural (1984). No mesmo grupo a Rússia venceu também ontem a Itália, por 2-1. As russas não se qualificaram para o Mundial de 2015 nem para os Jogos do Rio mas, como avisou a sua selecionadora Elena Fomina, elas podem tornar-se numas “underdogs”, subestimadas na Holanda, que podem vir a causar danos.

É precisamente esse o papel que Portugal não se importará de ter. Embora consciente de que parte na cauda das favoritas, uma vez que é apenas a 38.ª seleção do ranking FIFA - a segunda seleção menos cotada é a Rússia, 25.ª da hierarquia -, a ideia que o selecionador Francisco Neto entranhou na equipa, de que o caminho se faz caminhando, isto é, jogo a jogo, pode quem sabe, levar as portuguesas um pouco mais longe do previsto.

A forma como a seleção masculina venceu o Europeu há um ano, ajuda um pouco a essa linha de pensamento. “O selecionador Fernando Santos disse-nos para acreditarmos porque nada é impossível e eles provaram isso mesmo, que Portugal tem qualidade, basta acreditar em nós próprias e unirmo-nos”, recordou a jogadora Dolores Silva à Tribuna Expresso, antes de partir para a Holanda.

Dolores é uma das titulares indiscutíveis de Portugal, jogando habitualmente a trinco, ainda que recentemente tenha sido colocada pelo selecionador a lateral - tendo Matilde Fidalgo perdido a titularidade nesse posto, no lado direito. Habitualmente, Portugal alinha num 4-4-2 losango, com Patrícia Morais (Sporting) na baliza, Matilde Fidalgo (Sporting), Carole Costa (Sporting), Sílvia Rebelo (Sporting de Braga) e Ana Borges (Sporting) na defesa; Suzane Pires (Santos, Brasil), Dolores (Sporting de Braga), Ana Leite (Sporting) e Amanda da Costa (Boston Breakers, EUA) no meio-campo; e Cláudia Neto (a capitã e melhor marcadora joga nas suecas do Linkopings) e Diana Silva (Sportin) na frente de ataque.

O grupo de Portugal, que já foi apelidado pela selecionadora da Escócia, a ex-futebolista sueca Anna Signeul, como "o mais difícil", conta com uma Inglaterra que é 5.ª do mundo e vice-campeã (1984 e 2009) e cujas jogadoras são todas profissionais. A Escócia, além de ter de lidar com a ausência de três das suas melhores jogadoras, por lesão, tem metade das jogadoras ainda como semi-profissionais - um pouco à imagem de Portugal. O outro duelo do grupo D, entre inglesas e escocesas joga-se também quarta-feira, às 19h45, em Utrecht.