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Futebol feminino

Foi uma estreia, mas também foi uma lição em 45 minutos

Portugal perdeu por 2-0 frente à Espanha no histórico primeiro jogo da Seleção Nacional feminina num Campeonato da Europa. O resultado foi digno, mas não deixa de ser simpático para Portugal: as diferenças no ranking também se viram no campo, principalmente na 1.ª parte, quando a Espanha dominou a toda a linha

Lídia Paralta Gomes

DANIEL MIHAILESCU/Getty

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Já sabíamos das diferenças há muito tempo e basta ir ao ranking da UEFA: Portugal é a 23.ª equipa do Velho Continente, a Espanha a 7.ª. Mas o dia era de fazer história e às 18 horas em Doetinchem, Holanda, menos uma em Portugal Continental, a Seleção Nacional feminina estreou-se num Campeonato da Europa, numa grande competição, aliás, após 30 anos de espera.

Por um momento, uma fração de segundos, esqueceram-se as tais diferenças. Mas a verdade é que no futebol como na vida, quer nós queiramos quer não, quer nós rezemos mais ou menos por mais Cinderelas na história, a lógica grande parte das vezes impera. E depois de 15 minutos iniciais em que a Seleção Nacional não mostrou um pingo de nervosismo - e acreditem que a ocasião era solene - as diferenças tomaram conta do jogo que abriu as contas do Grupo D.

A partir daí a Espanha dominou em todas as vertentes do jogo e depois de uns quantos ameaços acabou por marcar dois golos ainda antes do intervalo, dois golos que podiam ter sido mais, tal a diferença de intensidade e ritmo entre as duas seleções. Nada que não tenhamos noção. Após o 2.º golo espanhol chegou a temer-se um resultado pouco digno para Portugal, que nos segundos 45 minutos, entre o relaxamento espanhol e um pequeno aumento na qualidade de jogo, conseguiu manter as contas no 2-0.

Defesa a dormir

Espanha a tentar pegar no jogo, Portugal a apostar em transições rápidas e em jogo mais direto. É o ADN das duas seleções e foi o que se viu ontem nos primeiros minutos em Doetinchem. Frente a uma seleção muito mais poderosa, a Seleção Nacional precisava de defender bem, algo que conseguiu no primeiro quarto de hora e algo que se esqueceu de fazer durante o resto da 1.ª parte.

E quando Portugal começou a defender mal, a Espanha carregou, aproveitando as dificuldades posicionais e de abordagem aos lances da equipa de Francisco Neto. Jenny Hermoso ameaçou uma primeira vez, após uma defesa incompleta de Patrícia Morais e numa altura em que Portugal praticamente já não tocava na bola (quanto mais sair do seu meio-campo) o golo já batia à porta da baliza nacional.

Ana Borges lutou muito mas superioridade espanhola foi sempre evidente

Ana Borges lutou muito mas superioridade espanhola foi sempre evidente

DANIEL MIHAILESCU/Getty

Chegou pouco depois, aos 23 minutos. Mal colocada no eixo da defesa, Sílvia Rebelo não viu Vicky Losada nas suas costas. Não viu Sílvia, viu Andrea Pereira, que colocou a bola na jogadora do Barcelona. Esta recebeu bem e rematou melhor, por cima de Patrícia Morais, quando esta se preparava para se fazer ao lance.

Dois minutos depois, a mesma jogada quase resultava de novo, num lance em que a bola embateu no braço de Ana Borges e se pediu penálti - que parece existir. Por esta altura a Espanha trocava a bola à vontade, ao primeiro toque, com critério, algo que Portugal nunca conseguiu fazer. Mais no esforço do que na qualidade, as jogadoras portuguesas tentavam, apenas, não sofrer mais golos.

Só que para não sofrer é preciso não errar e as centrais portuguesas voltaram a ficar mal na fotografia quando pouco antes do intervalo Amanda Sampedro, do alto do seu 1,62 m, viu-se completamente sem marcação no coração de área e teve todo o tempo do mundo para preparar um cabeceamento que só parou dentro da baliza portuguesa.

Com uma posse de bola que faria Pep Guardiola lançar um sorriso (79% face aos 21% portugueses), Espanha parecia caminhar para um resultado de peso, mas na 2.ª parte as nossas vizinhas optaram por abrandar o ritmo, enquanto Portugal tentava engatilhar as jogadas de ataque que tinham faltado nos primeiros 45 minutos.

Mas fora os pézinhos de Cláudia Neto e a garra e pulmão infindáveis de Ana Borges, pouco se viu de Portugal, que ainda assim foi melhorando até ao final no que à circulação de bola diz respeito.

Já a Espanha apenas criou perigo num par de remates do meio da rua, aos quais Patrícia Morais se opôs com coragem.

Segue-se agora o encontro com a Escócia (domingo, às 17h00), equipa de nível mais equiparado à Seleção Nacional, que terá de limar umas quantas arestas, nomeadamente na ligação entre as linhas, na circulação de bola e na saída a jogar, elementos que falharam na estreia com a Espanha.