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Futebol feminino

E durante 21 minutos estivemos nos quartos-de-final do Euro. Estavam à espera disto?

Portugal perdeu por 2-1 frente à Inglaterra no último jogo do Grupo D e disse adeus ao Campeonato da Europa. Mas durante alguns minutos o que parecia impossível tornou-se real: com a Escócia a vencer a Espanha e a Seleção Nacional empatada com as inglesas, um dos lugares nos 'quartos' era nosso. Nikita Parris marcou, Portugal ainda tentou e no final ficou um misto de desilusão, por termos estado tão perto, e de orgulho por termos feito tão mais do que se esperava da 38.ª seleção do ranking da FIFA

Lídia Paralta Gomes

TOBIAS SCHWARZ/Getty

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Ora responda lá, caro leitor: se aqui há duas semanas lhe tivessem dito que no último jogo da fase de grupos a seleção nacional feminina, em estreia no Europeu, ia estar em lugares de qualificação a 42 minutos do final do terceiro jogo acreditavam? Provavelmente não, não é?

Mas foi isso mesmo que aconteceu. Frente à 3.ª equipa europeia do ranking, frente à Inglaterra medalha de bronze do último Mundial, à toda-poderosa Inglaterra, que muitos vêem como a equipa que pode finalmente destronar a Alemanha, que vai em seis títulos europeus seguidos, Portugal, a 38.ª seleção da lista da FIFA, a equipa que só estava pela experiência, a equipa para quem participar já era histórico, quase fazia tremer os alicerces da lógica. Lógica essa que dizia que inglesas e espanholas passariam sem dificuldades à fase seguinte.

Pois a última jornada foi a prova que a lógica, às vezes, dá umas cambalhotas. E com Portugal empatado com a Inglaterra (!) em Tilburg aos 42 minutos de jogo, em Deventer a Escócia marcava à Espanha. De repente, passávamos nós e não as nossas vizinhas, de repente mais história estava à espera de ser feita, depois da qualificação, depois do primeiro golo, depois da primeira vitória.

E só não aconteceu porque ao minuto 48, Nikita Parris correu mais do que a defesa portuguesa, apanhou-nos num raro momento de desatenção e fez o golo que haveria de dar a vitória tangencial à Inglaterra, a tal 3.ª melhor seleção da Europa.

Estavam à espera disto? Talvez não. Mas se calhar o melhor é começarmos a habituar-nos.

E não foi sorte. Ao terceiro jogo, Portugal confirmou uma tendência de crescimento na competição, depois de um arranque com muitas dificuldades frente a Espanha e das melhorias frente à Escócia. Frente à Inglaterra, Portugal não só fez o seu melhor jogo do Europeu como foi não poucas vezes melhor que a superfavorita à vitória no Grupo D, nomeadamente na 1.ª parte.

Talvez de ego empolado pelos 8 golos marcados e zero sofridos pela sua seleção nos primeiros dois jogos e também pelas diferenças no ranking, Mark Sampson, o selecionador inglês - que na verdade é galês -, fez 10 alterações no onze face à vitória frente à Espanha. Não correu bem: a Inglaterra entrou desconectada em campo, sem grande entrosamento, enquanto Portugal mostrava uma frieza incomum face à responsabilidade do jogo.

O primeiro aviso português chegou logo aos 5 minutos, depois de Diana Silva ganhar uma bola em velocidade, obrigando a veterana Williams a travá-la em falta quando já seguia disparada para a área. Portugal estava bem, tinha iniciativa, coisa que tinha faltado frente a Espanha, em que mal tocou na bola.

Portugal bateu-se sem medos ou complexos frente a uma das melhores seleções do Mundo

Portugal bateu-se sem medos ou complexos frente a uma das melhores seleções do Mundo

TOBIAS SCHWARZ/Getty

Tudo parecia absolutamente dentro do controlo quando um erro acabou por deixar a Seleção Nacional em desvantagem. Depois de um atraso de Ana Borges, Patrícia Morais tentou aliviar, mas o remate saiu mal à guardiã portuguesa e foi parar aos pés de Toni Duggan. E a atacante, com um remate cheio de classe, fez um chapéu a Patrícia e o primeiro para as inglesas.

Sem merecer tal azar e com uma dinâmica ainda não vista durante este Europeu, Portugal via-se a perder aos 7 minutos de jogo.

Felizmente, o golo em nada mudou as ideias da Seleção Nacional e dez minutos depois, chegou o merecido empate. Melissa ganha a bola na raça, a jogada segue para Cláudia Neto que vê Diana Silva e com um fantástico passe a rasgar para as costas da defensiva inglesa deixa a atacante bem colocada na área. Diana cruza, a bola faz ricochete na defesa inglesa, volta a Diana que cruza novamente mas desta vez para Carolina Mendes, que só teve de encostar.

Era golo de Portugal, era um quase impensável golo de Portugal frente à Inglaterra e, mais, era o primeiro golo que a seleção inglesa sofria neste Europeu.

Carolina Mendes a encostar para o golo português

Carolina Mendes a encostar para o golo português

Dean Mouhtaropoulos/Getty

E logo de seguida podia ter sofrido mais um, depois de Carolina aproveitar um erro de Bright para abrir na ala para Diana Silva que, por sua vez, tentou devolver à companheira com um cruzamento que Carolina não emendou por centímetros.

Por esta altura, a Inglaterra pouco conseguia fazer face ao jogo surpreendentemente agressivo de Portugal, virado para o ataque e com o trio Cláudia Neto, Diana Silva e Carolina Mendes em modo endiabrado.

Chegou então o minuto 42 e o golo escocês do outro lado da Holanda, o golo que nos fez passar o intervalo qualificadas para os quartos-de-final.

Até ao fim

A 2.ª parte abriu praticamente com Inglaterra a adiantar-se no marcador e, embora não tenha conseguido reagir como no primeiro golo, Portugal procurou sempre a área contrária, principalmente na reta final do encontro, depois de Francisco Neto ter refrescado a linha de ataque, com a entrada de Ana Leite, Amanda da Costa e Laura Luís.

Talvez aqui Francisco Neto tenha sido demasiado conservador, arriscando pouco nas alterações, ao apostar em trocas diretas e tardias, uma demora talvez motivada pela lesão da guardiã Patrícia Morais, que acabou por se aguentar até ao final do jogo. A Escócia continuava a ganhar à Espanha, de forma altamente surpreendente, e a Portugal bastava um golo. Neste particular, a saída de Diana Silva, uma das melhores de Portugal, a dar trabalho constante à defesa da Inglaterra, pareceu precipitada.

Tal como decisão de não deixar Patrícia Morais subir para o último canto do encontro, já dentro dos descontos e que acabou com Laura Luís a rematar à meia-volta, um tiro que se tem ido com mais força, esta crónica seria provavelmente uma crónica histérica sobre o maior feito de sempre da história do futebol feminino português.

Mas o remate saiu sem poder suficiente, Chamberlain amarrou e pouco depois acabava o jogo.

Um misto de desilusão e de orgulho: assim foi após o apito final

Um misto de desilusão e de orgulho: assim foi após o apito final

TOBIAS SCHWARZ/Getty

No final não houve lágrimas, embora a sensação de “estivemos tããão perto” estivesse estampada na cara das nossas jogadoras, que se bateram de forma heróica por uma qualificação que parecia não improvável, mas sim impossível.

Não deu em 2017, ano da estreia da Seleção Nacional feminina em grandes competições. Mas, a partir de agora, quem poderá dizer que não estamos autorizados a sonhar?