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Abram alas para uma semana de futebol ao mais alto nível no Algarve (nos relvados e nas... cozinhas)

A região algarvia recebe, pelo 25.º ano consecutivo, as estrelas do futebol feminino: as melhores seleções, as melhores jogadoras e muitos jogos, de 28 de fevereiro a 5 de março. A Tribuna Expresso foi ouvir as histórias de quem já lá andou como jogadora e, agora, como Team Liaison Officer da seleção japonesa, que invade não só os relvados, mas também... as cozinhas. Quanto a Portugal, estreia-se esta quarta-feira frente à China (15h, TVI24)

Cátia Leitão

A seleção holandesa, atual campeã da Europa, estará na Algarve Cup este ano, tal como aconteceu em 2017

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Imagine isto: está num hotel no Algarve, descansado da vida e de óculos de sol na cara, deitado à beira da piscina, quando, de repente, vê passar um grupo de 23 japonesas, de calções e t-shirts, na direção da cozinha, para o meio dos tachos e das panelas. Debaixo do braço levam soja e outros temperos e talheres tipicamente japoneses. É uma excursão? É uma partida? Não. É mesmo a Algarve Cup, provavelmente o maior torneio particular de futebol feminino do mundo.

A portuguesa Maria João Xavier já lá esteve enquanto jogadora, a representar a seleção, mas agora, já com as chuteiras penduradas, dedicou-se a outra função: Team Liaison Officer (TLO). Trocando isto por miúdos: desde 2004, é um dos elementos de ligação entre a federação e as seleções participantes na Algarve Cup, ou seja, é uma mulher faz-tudo.

"Faço a articulação entre a organização e a própria equipa. Apoio em tudo o que é necessário e tenho de estar sempre por perto para o caso de eles precisarem de alguma coisa, como ir ao hospital, ao supermercado ou à farmácia. Tenho de estar presente em todo o acompanhamento às equipas num país que não é o delas", explica a ex-internacional portuguesa, que já acompanhou várias comitivas ao longo dos anos: os "gregos que queriam mudar tudo a toda a hora e a todo o instante", os "mexicanos que andavam sempre desertos para comer camarões", os simpáticos islandeses e, agora, os japoneses... na cozinha.

"Vão para a cozinha para que os temperos sejam mais próximos daquilo que se come no Japão. No local onde estamos alojados, em Vilamoura, arranjam-lhes tudo o que eles solicitam e eles vão à cozinha fazer uma refeição tipicamente japonesa, com os temperos todos, que eles trazem", conta 'Maria San' - como é tratada -, que partilha o espaço mas não a refeição: "Prefiro as coisas do Ocidente, porque não sei muito bem o que vou comer e, portanto, prefiro não arriscar, prefiro jogar pelo seguro."

Maria João Xavier num jogo de celebração dos 25 anos da Algarve Cup, disputado na Cidade do Futebol

Maria João Xavier num jogo de celebração dos 25 anos da Algarve Cup, disputado na Cidade do Futebol

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Além da língua e da comida, ainda temos os horários. "O Japão tem nove horas de diferença, portanto eles têm horários um bocadinho estranhos para aquilo que nós estamos habituados. Às sete da manhã, eles estão a tomar o pequeno almoço, às nove já estão a treinar e se for preciso às 11 horas estão a almoçar e às 17h vão jantar", relata. Ou seja, o dia começa cedo, mas também termina cedo: "Às sete da manhã vemos toda a comitiva do Japão para ir comer e acabou-se o sossego, mas depois também acabam cedo, a partir das oito da noite já não se vê nenhuma japonesa nos corredores."

Maria João Xavier participou nas primeiras dez competições como jogadora e diz que a Algarve Cup é o pico da competição feminina. "Como jogadora, todas as edições foram marcantes, porque, se recuarmos 25 anos, os quadros competitivos em Portugal não eram o que são agora, e as experiências internacionais não eram o que são agora. Portanto, cada vez que se aproximava o período de março, para nós, atletas, na altura, era uma enorme alegria e satisfação, porque podíamos em alguns momentos competir com as melhores jogadoras que existiam à data", recorda.

As bodas de prata da Algarve Cup

Então, afinal, o que é isso da Algarve Cup? Simples: a Federação Portuguesa de Futebol, em parceira com as federações da Dinamarca, Suécia e Noruega, convida 12 seleções para participar - com 10 equipas a pertencerem ao top 20 do ranking FIFA -, divididas por três grupos.

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O grupo A junta Noruega, Austrália, China e Portugal. E só existe uma palavra capaz de descrever este grupo: equilíbrio. Portugal defrontou a Austrália pela última vez em 1996 e saiu de campo com um nulo. Esta sexta-feira (15h00, transmissão TVI24), as portuguesas prometem dar nova luta às australianas, mas o desafio será duro: a Austrália é 4ª do ranking mundial FIFA, enquanto Portugal ocupa o 38º lugar.

Já o primeiro jogo português com a seleção norueguesa (14ª do ranking), que já ganhou o troféu por quatro vezes, foi também em 1996, mas o resultado não foi favorável às jogadoras das quinas (derrota por 3-0). Quanto à equipa da China (16ª), que já ganhou o torneio por duas vezes, o último encontro com Portugal foi relativamente recente, em 2015, e as portuguesas ganharam, nos penáltis.

Maria João Xavier admite que Portugal não vai ter a vida nada facilitada, mas diz que o mais importante é aprender com as melhores. "A Austrália é muito forte - não é à toa que tem estado nas útimas grandes competições. Portugal vai ter um período de excelência de aprendizagem porque vai jogar contra duas equipas que, em situação normal, não joga, que é contra a Austrália e contra a China. São países que não estão nos nossos quadros competitivos da Europa e como ainda, não conseguimos nenhum apuramento para um Mundial, são seleções que habitualmente não defrontamos, mas isto acaba por permitir também crescer com outro tipo de desafios", explica.

Já o grupo B inclui Suécia, Canadá, República da Coreia e Rússia. As coreanas veem pela primeira vez ao Algarve Cup, mas o 14º lugar no ranking da FIFA mostra que pretendem deixar uma marca bastante forte por terras portuguesas. Já a seleção da Rússia vai para a 4ª participação e embora nunca tenha ganho promete dar luta. Quanto às suecas, já arrecadaram três troféus em Portugal (1995, 2001 e 2009), mais dois do que as canadianas, que só ganharam a edição de 2016.

Por último, mas não menos importante temos o grupo C, com Dinamarca, Japão, Islândia e Holanda. As dinamarquesas são já tradição nesta competição e participaram em todas as edições. Ainda não conseguiram levar a taça para casa, mas já ficaram cinco vezes em 2º lugar. Também a Islândia conta já com bastantes competições: 14, para sermos mais exatos, e o 2º lugar na edição de 2011 foi a melhor classificação até agora.

Quanto às holandesas, chegam a Portugal com um trunfo na manga: são as atuais campeãs europeias. Prometem um jogo de nível muito elevado e vêm para dificultar a vida às japonesas (de Maria João Xavier), que foram campeãs mundiais em 2011 e já estiveram no Algarve em sete ocasiões.

Vencedoras e vencidas

Em 25 anos, existe um claro vencedor, bastante superior aos outros, e que este ano não vai comparecer - talvez para dar a oportunidades às restantes: os Estados Unidos. Ganharam 10 edições e ainda conquistaram o 2º lugar por quatro vezes e o 3º lugar por outras duas, mas agora irão permanecer "em casa", onde criaram um torneio semelhante à Algarve Cup, chamado She Believes Cup, mas com bem menos equipas.

Seguem-se as norueguesas, com quatro títulos, as suecas e as alemãs com três cada, as chinesas com dois e as canadianas e as espanholas com um título cada uma.

A atual campeã é exatamente a vizinha Espanha, que este ano irá participar na Cyprus Cup, outro torneio semelhante à Algarve Cup, que se disputa no Chipre. Já as portuguesas ficam-se por serem apenas as anfitriãs - até agora nunca venceram nenhuma edição nem conseguiram chegar ao pódio.

Maria João Xavier (à direita) foi internacional portuguesa em 76 jogos

Maria João Xavier (à direita) foi internacional portuguesa em 76 jogos

Foto GETTY

Mas a verdade é que ao longo destes 25 anos a competição cresceu muito: de praticamente desconhecida para mundialmente falada, assim como a modalidade em si. E Maria João Xavier acredita que isso é o mais importante. "O torneio cresceu muito. Têm vindo cada vez mais seleções daquelas do topo do ranking feminino, o que trouxe mais qualidade. À medida que a seleção vai crescendo em termos de resultados mais positivos, o que culminou com o apuramento para o Europeu do ano passado na Holanda, o interesse vai aumentando também", garante, recordando que, nos seus tempos de jogadora, a história era outra.

"De uma fase inicial em que pouco interesse havia começamos a assistir gradualmente a um aumento do interesse geral. O auge acontece quando os jogos são transmitidos em direto na televisão portuguesa, o que vai acontecer também esta edição. Quando começámos, em 1994, ninguém ouvia falar disto. Agora é bem diferente e toda esta evolução acompanha também a evolução da seleção e do crescimento do interesse na modalidade. E enquanto Portugal for mostrando que está a subir, o interesse vai aumentar sempre." Venham daí mais 25 anos.