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Este fair play não é uma treta. Ou é? (os problemas que o FCP pode ter de enfrentar)

O mercado de transferências futebolístico fecha na quarta-feira e os clubes (olá, FC Porto) andam aflitos por causa do fair play financeiro da UEFA. Mas os empréstimos contornam as restrições

Mariana Cabral

KENZO TRIBOUILLARD / Getty

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1 - O que é o fair play financeiro?

Citando a UEFA: “É um plano que visa melhorar a saúde financeira global do futebol europeu de clubes”. Ficou esclarecido? Provavelmente não. Citemos então a prática: é uma forma que a UEFA arranjou para impedir que os clubes acumulem dívidas insustentáveis, mas nem sempre funciona (ver a pergunta 3). Desde 2011, o Comité de Controlo Financeiro dos Clubes da UEFA analisa todos os anos as contas dos clubes (pormenor importante: apenas os clubes participantes nas provas da UEFA) relativas às três épocas anteriores, para perceber se há quem tenha mais de €30 milhões de saldo negativo. Se o clube em questão tiver ultrapassado esse limite — atenção que o investimento em estádios, centros de treino, formação de jovens e futebol feminino não é incluído nas contas —, será avisado, vigiado e, eventualmente, penalizado.


2 - Quais são as penalizações?

Tudo depende do tal Comité de Controlo Financeiro dos Clubes da UEFA. Um clube que não cumpra os regulamentos poderá ser advertido, sancionado, multado, sofrer uma dedução de pontos, ser proibido de inscrever novos jogadores ou ser desqualificado das competições europeias. Será o Comité a analisar qual o grau de gravidade da situação, dependendo da tendência para o equilíbrio das contas, mas a abordagem prioritária é sempre chegar a acordo com os clubes incumpridores que se mostrem disponíveis a tentar a chegar ao break even (ponto em que não gasta mais do que recebe e não acumula dívida). Só depois vêm os castigos mais duros. Esta época, por exemplo, os turcos do Galatasaray foram penalizados com a exclusão das provas europeias (Liga dos Campeões e Liga Europa) — impedimento que se mantém em 2017/18.

3 - Há forma de contornar as regras?

Como a única coisa que não se pode contornar na vida é a morte, há, claro. Os clubes em incumprimento podem ser impedidos de gastar mais dinheiro, mas quando não se pode comprar... pede-se emprestado. É o que têm feito os turcos do Besiktas, por exemplo, que foram advertidos no ano passado e acordaram com a UEFA que não ultrapassariam os €20 milhões de dívida em 2016. Por isso, neste mercado, apostaram nos empréstimos — como os do benfiquista Talisca e do portista Aboubakar. O Inter de Milão também fez um acordo prometendo que chegaria ao break even em 2017, daí a demora na concretização da compra de João Mário — não podem gastar sem vender —, chegando ao ponto de ter como alternativa pôr o sportinguista a assinar pelos chineses do Jiangsu, detidos pelo mesmo dono do Inter, que depois o emprestariam.

4 - Há clubes portugueses em risco?

Oficialmente, não, mas o FC Porto para lá caminha. É que os portistas tinham de acabar a época de 2015/16 com um prejuízo máximo de €8,6 milhões, para não ultrapassar o tal limite de €30 milhões em dívida — porque em 2013/2014 apresentaram perdas de €40,7 milhões e, em 2014/2015, um lucro de €19,3 milhões —, e, nos primeiros nove meses da época 2015/16, registaram um prejuízo de €37,9 milhões. Como desde então não fizeram vendas de grande relevância, o mais provável é terem de prestar contas à UEFA, em breve. Ainda assim, as sanções deverão ser mínimas, uma vez que é a primeira vez que o FC Porto ultrapassa o limite. No início do ano, a UEFA também esteve a monitorizar as contas do Sporting, mas não aplicou qualquer tipo de sanção ao clube, que disse ter “cumprido integralmente os termos do acordo de liquidação”.