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Mou contra Pep: o yang e o yin, o mau e o bom, o resultadista e o idealista

Três anos depois, ei-los de novo juntos. Pep Guardiola chegou a fugir de Espanha pelo juízo que a rivalidade com José Mourinho lhe moeu, mas este sábado (12h30) reencontra-o no dérbi de Manchester. Pode ser que agora os dois treinadores especiais (diz Xabi Alonso) partilhem um copo no fim do jogo

Diogo Pombo

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OLI SCARFF

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“Foi assim!”

[som de um estalar de dedos, feito entre o polegar e o dedo médio.]

Feche os olhos e imagine esse som, o que as pessoas costumam criar quando falam de algo aconteceu num ápice. Muito rápido. À falta de mais inglês, que já é muito e bom para quem não nasceu a falá-lo, Xabi Alonso preferiu recorrer a esse gesto para se referir aos dois homens que passam a vida a ser colocados lado a lado, apesar de terem muitas coisas a separá-los e talvez só uma a uni-los: os títulos. Porque ambos já têm uma catrefada deles guardada em casa, para mostrar aos convidados.

Xabi Alonso diz que foi muito rápido - ou, como às tantas acrescentou, foram “cinco minutos” - até perceber, da primeira vez que esteve com cada um deles, que José Mourinho e Pep Guardiola eram especiais. O jogador espanhol tem a sorte de já ter jogado e ganhado com os dois. Os que já conquistaram mais de vinte títulos cada (22 para o espanhol, 23 para o português), os treinadores que parecem ter uma varinha que faz magia em cada equipa em que pegam, os homens que enamoraram jogadores.

Aconteceu com Xabi Alonso, que diz que talvez tenha passado “mais tempo a falar sobre o lado tático” com Guardiola, mas que tanto ele, como Mourinho, se preocupam “muito” com o próximo adversário. Como génios obcecados. Lembra-se “perfeitamente” da primeira vez que esteve com Mourinho, em Los Angeles, durante a primeira pré-época do português no Real Madrid, quando percebeu “logo que ele era muito bom”. Com Pep foi num quarto de hotel, acabado de aterrar no Bayern de Munique, onde falaram durante hora e meia sobre futebol para, no dia seguinte, o médio se estrear pelos alemães.

Shaun Botterill

Xabi Alonso falou com propriedade. O espanhol que, aos 34 anos, é um jogador a falar à treinador, já correu e jogou às ordens do português (no Real Madrid) e do catalão (no Bayern de Munique). Por isso, o amigo que deixou há muitos anos em Liverpool (onde jogou antes de Mourinho e Guardiola lhe pegarem) resolveu convidá-lo para discutir uma séria de coisas sobre os dois, na Sky Sports. Jamie Carragher não se fez rogado e fartou-se de perguntar ao médio espanhol o que ele acha sobre o jogo que, este sábado (12h30), volta a colocar os treinadores no mesmo estádio.

O alarido à volta deste jogo é muito e há vários motivos para ser assim. Porque há três anos que José e Pep não se defrontam, desde a Super Taça Europeia que o Chelsea do português venceu nos penáltis ao Bayern de Munique do catalão. Porque, antes disso, conviveram durante três épocas em Espanha, tempos que moeram tanto o juízo a Guardiola que ele saiu do Barcelona e refugiou-se num ano sabático em Nova Iorque, com a mulher e as filhas. Porque entre 2010 e 2013 houve bocas trocadas em conferências de imprensa; houve dedos de Mourinho no olho de Tito Vilanova, o então adjunto de Pep; chegaram a haver quatro clássicos em menos de 30 dias (entre campeonato, Taça do Rei e Liga dos Campeões); e porque ambos queriam ser melhor que o outro, mas só o espanhol conseguiu sê-lo.

Mas Guardiola, nessa altura, estava em casa. Tinha o seu Barça, mandava em jogadores, perdão, em craques, crescidos com uma ideia de futebol muito parecida com a do treinador, que “apenas” a teve de ir aprimorando e reinventando. O Real Madrid pensou em Mourinho para ser o antídoto, o yin que anularia o yang, mas foi apenas uma pedra que Pep conseguiu tirar sempre do sapato: em 11 partidas, José venceu apenas duas, perdendo cinco (incluindo um 5-0 em Camp Nou) e empatando quatro.

Agora estão os dois em Manchester e não se podem queixar que não estavam avisados de que isto poderia acontecer. Pep disse que sim ao City a meio da época passada, sabendo que as coisas no United estavam tremidas com Louis Van Gaal e há muito que Mourinho cobiçava treinar o clube vermelho da cidade. E o português chegou lá sabendo que ia reencontrar, no nesmo país e na mesma cidade, o treinado com quem mantém uma rivalidade que faz as delícias a tudo quanto é imprensa desportiva.

Por enquanto, a relação entre eles parece estar calma. Ainda não houve bocas, críticas ou recados deixados em conferências de imprensa. O que poderá haver é uma garrafa de vinho partilhada no final do dérbi de Manchester, como Mourinho tanto se gabava de fazer com Alex Ferguson, o homem a quem queria suceder no United, mas que não o quis como sucessor. “Vou aceitar, se ele me convidar. Já o disse várias vezes: respeito-o muito. Tento sempre aprender com todos os meus colegas e também aprendo com ele”, garantiu Pep Guardiola. Sai então um copo de vinho no fim, por favor.