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Um dia, Mourinho vai descobrir o antídoto para Guardiola. Hoje não foi esse dia

O United perdeu o dérbi (1-2), em casa, diante do City e Pep subiu para oito o número de vitórias contra José

Pedro Candeias

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Alex Livesey

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O United-City nunca seria um jogo entre o United e o City, mas um jogo entre o treinador do United e do City, que se conhecem e se desamam há anos, desde que um passou a representar um estilo que é o contrário do estilo do outro. É que jogar à bola já deixou de ser apenas um jogo de onze contra onze; transformou-se num circo mediático que promove e alimenta os futebolistas e os técnicos, e as suas manias, tricas e personalidades. É bom para eles, para os clubes, para as televisões e para os patrocinadores, porque uma futebolada será sempre melhor vendida (ou pagar-se-á mais por ela) se vier sob a forma do X contra o Y. O Mourinho contra o Pep, o Rocky contra o Creed, o Bill contra a Beatrix Kiddo, o Salieri contra o Mozart, o Batman contra o Joker - e por aí fora.

Tudo o que este frenesim provocou foi distraír-nos do essencial - o facto de toda a gente saber, à partida, como iria ser o Mou-Pep. Perdão, o United-City. Quero dizer, não estou a afirmar que tinha ido ao futuro e o futuro me tinha dito que acabaria 2-1 para o Pep, perdão, para o City, mas podia jurar que as coisas se iriam passar assim: o City teria mais posse de bola, muita posse de bola, aliás, e trocá-la-ia de pé para pé, do guarda-redes (Bravo) até aos avançados, com futebol pressionante e jogado no meio-campo do adversário, sempre disposta em triângulos para que o adversário não encontrasse uma linha reta até à sua baliza; e United andaria à procura dela, sem rodriguinhos, para contra-atacar diretamente o Manchester City, com os seus rapagões (Pogba, Fellaini, Valencia e Ibrahimovic) e em velocidade. Já tínhamos visto isto antes e em vários palcos, em que Mourinho se desunhou para descobrir um antídoto para Guardiola - encontrou-o, um dia, em Ronaldo e na sua potência muscular que o fazia disparar do meio-campo até à linha de fundo.

O que eu não podia jurar, mas quase, quase que podia garantir, era que o Mourinho não ia ganhar ao Pep, apenas porque a história é o que é - uma repetição de acontecimentos em tempos diferentes. Historicamente, o português tinha sete derrotas, três vitórias e seis empates contra o catalão. Do mal o menos, viria uma igualdade.

Que não veio. Porque, na primeira parte, Mourinho cometeu dois erros de casting ao pôr Lingard e Mkhitaryan nas alas e Wayne Rooney no meio, atrás de Zlatan. Agora é fácil dizer que estes dois extremos não jogaram nada, mas também era fácil dizê-lo aos 20, aos 30 e aos 40 minutos, quando o jogo já estava 2-0 e nenhum dos dois fazia o que estava programado: contra-atacar. Contra o City, aliás, contra as equipas de Guardiola, a intensidade é tudo, o mais-que-tudo, porque só massacrando e provocando o erro se consegue desordenar aquele controlo e aquele tiki-taka. O golo de Ibra aconteceu num disparate de Claudio Bravo, que tentou agarrar a bola quando devia tê-la socado, e permitiu a Mourinho entrar para o intervalo com a esperança de tentar recompôr as coisas.

Na segunda parte, Mourinho pôs Rashford à esquerda e Herrera a trinco, encostou Rooney à direita e fez subir Pogba e Fellaini para junto de Ibrahimovic. O jogo tornou-se mais caótico, imprevisível e até partido, favorecendo os duelos individuais nos quais o cabedal de Pogba (e de Fellaini e de Valencia e de Rashford e de Ibrahimovíc) faziam a diferença. O City tremelicou, cheirou a empate, houve alguns lances estranhos dentro da grande área, mas Guardiola emendou a mão quando colocou Fernando para restabelecer a sua lei no meio-campo. O jogo acabou 2-1, para Pep, que tem agora 8 triunfos sobre o português. E o português continua sem ter o antídoto para o tiki-taka.