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Joey Barton: um doce e terno hooligan

Suspenso três semanas por um desaguisado com um colega e suspeito de envolvimento em apostas. Esta é apenas mais uma semana na vida de Joey Barton, futebolista, filósofo, libertário, amante dos The Smiths, o último dos bad boys

Lídia Paralta Gomes

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Médio britânico em ação na liga escocesa no encontro entre o Rangers e o Hamilton

Lynne Cameron/Getty

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“Ele era um doce e terno hooligan, hooligan/E ele disse que nunca o faria de novo/E claro que não fez (oh, não até à próxima vez)”.

Morrissey é um dos ídolos de Joey Barton. Talvez porque, nas músicas dos The Smiths, como nesta "Sweet and Tender Hooligan", Moz tenha escrito a mais exata biografia do jogador britânico de 34 anos: um bad boy capaz dos maiores atos de bondade, um libertário que lê Dylan Thomas e a quem por vezes – demasiadas vezes – salta a tampa. Balotelli? Ibrahimovic? Apenas aprendizes do ofício.

Esta é apenas mais uma semana na vida de Barton. Na última segunda-feira foi suspenso pelo Rangers, na ressaca de uma acesa discussão com o colega Andy Halliday após o atropelo sofrido em casa do rival Celtic (5-1), naquele que é um dos mais icónicos dérbis do futebol mundial: o Old Firm.

Barton pediu desculpa. Mas, no Twitter (AQUI), onde escreve ensaios de 140 caracteres sobre futebol, política, Nietzsche, música ou a inutilidade da religião, deu o dito por não dito: “Pedir desculpa nem sempre significa que estás errado e a outra pessoa está certa. Significa que valorizas mais as relações do que o teu ego”.

Uma suspensão de dias passou a três semanas.

Agora vê-se envolvido num alegado caso de apostas, em que a Federação Escocesa de Futebol (SFA) tem, normalmente, uma política de tolerância zero.

Barton está a ser investigado pela SFA por alegadamente ter apostado numa derrota pesada do Celtic na Liga dos Campeões. Os católicos acabariam por perder 7-0 frente ao Barcelona, em Camp Nou. Caso se confirmem as suspeitas, Barton enfrenta mais uma suspensão, que tornará ainda mais complicada a sua vida no Ibrox, casa dos protestantes de Glasgow.

Problemas? Chamem Barton

Estes parecem quase pequenos episódios sem gravidade numa carreira marcada por muitos problemas e escaramuças. Bem, talvez o termo “escaramuça” seja demasiado simpático.

Em 2004, em plena festa de Natal do Man. City, Joey respondeu às brincadeiras do colega Jamie Tandy enfiando-lhe um cigarro no olho. Um cigarro aceso, note-se. No verão seguinte foi expulso da digressão dos citizens à Tailândia depois de agredir um adepto do Everton que o havia insultado. Pelo caminho, ferrou os dentes na mão do colega Richard Dunne enquanto este tentava acalmar a situação. Classic Joey.

Foi aí que a Sporting Chance entrou na vida do médio nascido em Huyton, perto de Liverpool. Foi na associação criada pelo antigo internacional britânico Tony Adams para ajudar desportistas em apuros que Barton frequentou um programa de sete dias para controlar o seu comportamento.

Parecia que estava ali a chave para o doce e terno hooligan arrepiar caminho. Nada mais errado. Em abril de 2007, ainda no City, esmurrou o companheiro de equipa Ousmane Dabo durante um treino, deixando-o inconsciente. O incidente valeu-lhe uma suspensão de seis jogos, uma multa de 29 mil libras e uma condenação de quatro meses com pena suspensa e 200 horas de trabalho comunitário. Acabou também ali a paciência do Manchester City.

Lynne Cameron/Getty

O flirt com as grades da prisão acabaria mesmo em casamento no ano seguinte. Numa noite de copos em Liverpool, Barton foi apanhado por uma câmara de segurança a aplicar 20 murros a um homem. Não contente, ainda partiu uns quantos dentes a um adolescente. Passou 77 dias na prisão.

“Eu penso de forma muito clara quando estou zangado, mesmo que as minhas ações sejam irracionais”, disse o jogador numa entrevista ao “Daily Mail”, antecipando o lançamento da autobiografia “No nosense”, na próxima quinta-feira. No livro, Barton fala abertamente de todos os episódios de violência que marcaram a sua carreira, algo com que conviveu desde cedo. O pai era membro de um gangue e aos filhos deixou como herança lições sobre “Como segurar alguém com a mão esquerda e espancá-lo com a direita”. Michael, irmão mais novo de Joey, cumpre uma pena de 17 anos por envolvimento no homicídio de um jovem negro, Anthony Walker.

E como se pensa de forma clara no meio desta irracionalidade? Barton explica, relembrando aquele que havia sido, até à última semana, o derradeiro caso grave de indisciplina em que esteve envolvido, que lhe valeu uma suspensão de 12 jogos, uma das mais duras de sempre do futebol inglês.

Em maio de 2012, numa altura em que era capitão do Queens Park Rangers, Barton fez do relvado do Etihad, casa do Manchester City, mais um dos seus ringues de boxe. Primeiro deu uma cotovelada em Carlos Tevez e, respondendo ao cartão vermelho quais touro na arena, pontapeou Sergio Aguero; e ainda teve forças para dar uma cabeçada em Vincent Kompany. A ideia era apenas uma: provocar uma reação violenta dos adversários, tal como confessou ao “Daily Mail”.

“Se eu conseguisse que um dos jogadores do City fosse expulso, isso daria uma hipótese ao QPR. Foi essa a minha lógica”. Rebuscado.

O lado Jekyll do Mr. Hyde

Dentro de Joey Barton convivem várias personalidades. O jogador compreenderia as comparações com Dr. Jekyll e Mr. Hyde, ele que é um apaixonado pela literatura. Entre as suas últimas leituras estão “Mothering Sunday” de Graham Swift ou “O Padrinho” de Mario Puzo. Assina a “The New York Review of Books” e, além dos Smiths, ouve Beatles e Arctic Monkeys. Aliás, Barton é dono de um cavalo de corrida chamado “Crying Lightning”, nome de uma música da banda de Sheffield.

A sensibilidade não se vê apenas na paixão pela cultura. Joey é embaixador do Tamsin Gulvin Fund, associação que apoia pessoas com problemas de adição. Foi Tony Adams, impressionado durante a passagem do médio na Sporting Chance, que o indicou para o cargo. A sua presença em jogos solidários é regular e escreve ainda na revista “Big Issue”, a “Cais” britânica.

O “desportista-filósofo”, como lhe chamou a BBC, é também um homem de convicções vincadas. Foi exatamente na televisão pública britânica que criticou abertamente o partido de direita e euro-cético UKIP e que se ergueu pelos direitos dos gays, lamentando ainda não ser possível ver um jogador assumir a sua homossexualidade no futebol inglês. Ateu militante, disse um dia que se mandasse “privatizava a religião”.

Morrissey escreveu um dia que algumas miúdas são maiores que outras e também há jogadores com mais que se lhe diga que outros. Joey Barton é um deles porque nele tudo cabe: é um “charming man”, um rebelde, um homem de grande coração e ao mesmo tempo de pavio curto, que fala francês fluentemente e no futuro quer ser treinador.

E quem não quer estar cá para assistir?