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Duas décadas de Arsène Wenger: valeu a pena?

Há precisamente 20 anos, Arsène Wenger era apresentado como treinador do Arsenal. Desconhecido e olhado com desconfiança no início, o francês levou novos métodos à Premier League, mas há quem acredite que devia ter ganho mais que três campeoantos e seis Taças de Inglaterra

Lídia Paralta Gomes

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Laurence Griffiths/Getty

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Naquela noite de 16 de setembro de 1996, o Arsenal recebia o Sheffield Wednesday e nada corria bem. Aos 25 minutos já perdia. O treinador interino Pat Rice virou-se então para o banco e chamou um desconhecido rapaz que os londrinos tinham contratado ao AC Milan. Patrick Vieira, de seu nome. Dennis Bergkamp, lesionado e a ver o jogo da bancada, lembra-se bem do que se seguiu: “Vieira entrou e mudou o jogo. Mudou o jogo completamente! Acho que toda a gente no estádio estava a pensar ‘Mas o que é que aconteceu aqui? Eu vi isto?’”. O Arsenal venceu por 4-1.

Seis dias depois, ou seja, há exatamente 20 anos, o clube londrino apresentava Arsène Wenger como treinador. O francês havia passado as últimas semanas a acertar a rescisão com o Nagoya Grampus, mas Vieira já era uma contratação sua. Daí para cá é história: em duas décadas à frente dos gunners, Wenger venceu três títulos da Premier League, seis Taças de Inglaterra e outras tantas Supertaças. Se podia ter ganho mais? Talvez, mas é impossível não reconhecer a marca do gaulês na evolução da Premier League.

Tal como o rapaz de 20 anos que virou por completo esse encontro frente ao Sheffield Wednesday, também Wenger foi recebido com desconfiança. Os britânicos olhavam de lado para o seu estilo sereno, para os novos métodos daquele homem que chegava do futebol japonês.

Numa terra de homens duros dentro e fora de campo, Arsène disse “basta” à cervejinha no final do jogo, aos chocolates no autocarro. Contratou médicos, nutricionistas, preparadores físicos. Obrigou os jogadores a adotarem novos hábitos alimentares. Os ingleses, para quem tudo aquilo era estranho - hoje é só básico -, logo encontraram uma alcunha para aquele que foi apenas o segundo técnico não-britânico na 1.ª divisão: “Inspector Clouseau”.

“Senti muito ceticismo. É normal, especialmente numa ilha”, reconheceu Wenger na altura.

Wenger foi decisivo na transformação de Thierry Henry numa estrela mundial

Wenger foi decisivo na transformação de Thierry Henry numa estrela mundial

Paul Gilham/Getty

O impacto foi quase imediato: logo à segunda época, em 1997/98, Wenger levou o Arsenal à vitória no campeonato e Taça, numa equipa em que o músculo inglês de Tony Adams convivia com o talento de Marc Overmars ou Nicolas Anelka.

Numa primeira década dourada, Wenger volta a ser campeão em 2001/02 e 2003/04, nesta última época sem qualquer derrota. Liderados por Thierry Henry, que Wenger transformou num dos melhores avançados do Mundo, os “Invencibles” igualaram um feito de 115 anos, quando o Preston North End terminou o campeonato invicto.

Ocaso

O investimento do Arsenal num novo estádio, o Emirates, acabou por ditar uma mudança na política do clube. E enquanto Chelsea e Manchester City largavam milhões, os gunners viraram-se para a academia e para o recrutamento de talentos como Cesc Fàbregas, que se estreou na equipa principal aos 16 anos.

Wenger viveu então alguns dos piores momentos nesta longa caminhada de 20 anos. De 2005 a 2014 o clube não venceu qualquer troféu e viu grande parte dos melhores jogadores saírem para clubes rivais. Thierry Henry e Fàbregas para o Barcelona, Gael Clichy e Samir Nasri para o City, Ashley Cole para o Chelsea.

Pelo meio, o francês assistiu impotente à pior derrota do Arsenal em 115 anos, 8-2 frente ao Manchester United, em agosto de 2011. A seca de títulos só terminou com a vitória na Taça de Inglaterra em 2014.

O título, esse, continua a fugir, mas em 20 anos Wenger nunca terminou abaixo do 4º lugar e tem a 2ª melhor percentagem de vitórias no campeonato inglês, apenas atrás de Sir Alex Ferguson. É obra.

Um inimigo chamado Mourinho

Calmo e sereno, Arsène Wenger acabou por ganhar o respeito dos britânicos, que rapidamente substituíram a desconfiança pela admiração. Mas cada homem tem a sua kriptonite e a de Wenger chama-se José Mourinho.

Desde que o português chegou a Inglaterra que o bate-boca é constante. “Ele está fora da realidade e não respeita os outros. Quando as pessoas estúpidas têm sucesso, isso por vezes só as torna mais estúpidas”. E esta é uma das frases mais simpáticas que o gaulês disse sobre Mourinho, que em 2014 apelidou Wenger de “especialista no falhanço”.

Entre triunfos e falhanços, críticas e palavras de admiração, já passaram 20 anos. Wenger é neste momento o treinador da Europa com mais anos de casa e Alex Ferguson está ali mesmo à vista. Só faltam seis anos.