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Nice, o clube dos mortos vivos

Um dizia mal dos clubes, discutia com treinadores, não se esforçava nos treinos. Outro pegava fogo à casa, tinha milhares de euros em multas de estacionamento e, uma vez, deixou Mourinho pendurado para ir ver Fórmula 1. Ben Arfa e Mario Balotelli têm tanto talento quanto problemas. Ou tinham, até ao dia em que chegaram a um clube do sul de França e renasceram

Diogo Pombo

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VALERY HACHE

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Vamos jogar ao jogo das semelhanças com duas histórias.

A primeira é a de um miúdo que nasceu em Clamart, um bairro pequeno, ainda mais do que Châtenay-Malabry, a vila nos arredores de Paris onde está metido. É um sítio mal olhado, onde ninguém que vive fora dele quer estar dentro. Nasceu de pais tunisinos, teve drogas, ladrões e má vida como vizinhos, não se tornou amigo de tudo porque nasceu com uma solução. Um pé esquerdo que gostava de futebol. Tinha, nessa parte do corpo, uma personalidade tão difícil quanto a do sítio onde cresceu. Era arrogante nas coisas que tentava fazer, convencido no trato com a bola, um miúdo que não precisava de falar mal com os outros miúdos para ser mau para eles. Porque os fintava, ultrapassava, minimizava e fazia-os parecer que eram terríveis, por não serem capazes de fazer o que ele fazia.

Tão bom era que o pé o tirou dos clubes das redondezas e abriu a porta de Clairefontaine. Foi viver, crescer e jogar para a melhor academia de futebol em França. Tornou-se adolescente, pirralho no feitio, inchado na ousadia dos miúdos que vêm do bairro e aprendem a não virar a cara a nada. Arranja problemas, é errático, até troca socos com Abou Diaby, um matulão que acabaria no Arsenal. Mas ele não. Vai para o Lyon, sai dos juniores com fama de craque e, aos poucos, vai jogando. Vence quatro campeonatos, mas o bom mede o mesmo que o mau, porque discute com os treinadores e, nos treinos, anda à pancada com jogadores. A última é grave e o clube farta-se.

Ele já não é pobre, mas mostra-se mal agradecido. Diz que o Lyon é um clube sem classe e pequeno demais para ele, enquanto falta a treinos e fala com jornais. Quer ir-se embora e vai falando com gente do Marselha. A transferência acontece e conquista mais uma liga. O driblador nato no campo é, fora dele, o trapalhão sem coordenação motora que não se desvia de nada. Há uma richa com Djibril Cissé no treino, outra com M’bami no estádio, uma recusa em levantar-se do banco a meio de um jogo, para ir aquecer. Didier Deschamps passa-se, não quer mais disto. Por isso ele vai para o Newcastle, de novo a dizer mal do ex-clube nos jornais, mas ainda com a fama de prodígio.

Pela primeira vez, tem azar. Todos os problemas que leva atrelados ficam mais pesados quando parte a tíbia e o perónio. Mal joga na primeira época. Nas restantes, brilha como um candeeiro com a lâmpada mal encaixada - tem os clarões de não marcar golos normais e inventar jogadas solitárias de génio, mas apaga-se nas discussões com o treinador e nas acusações, vindas dos companheiros de equipa, de que não se esforça nem trabalha nos treinos. “Se for preciso, vou até ao pólo Norte para continuar a jogar”, confessa, quando se vê sem saída na encruzilhada de querer ir para um clube depois de a FIFA não o deixar, por já ter jogado por dois (Hull City e Newcastle) na mesma temporada.

Esta história chama-se Hatem Ben Arfa.

Número nove. Há aqui algo que se veio a repetir.

Número nove. Há aqui algo que se veio a repetir.

JEAN-SEBASTIEN EVRARD

O segunda é a de uma criança que teve de aprender quem é. É filho de imigrantes ganeses em Itália. Nasce perto de Palermo, no sul, muda-se para Brescia, no norte. Os pais, pobres e sem meios, entregam-no a uma instituição. Lá fica até um casal italiano o adotar. Cresce a dividir-se entre o casal adotivo durante a semana e as visitas aos pais biológicos, aos sábados e domingos. Vai jogando à bola, com jeito, não o suficiente para o Barcelona, que não o quer quando, aos 15 anos, o chama a um treino de captação.

Mas tem capacidades de sobra para, meses volvidos, o Inter de Milão o querer. Estreia-se aos 16, marca golos, põe o país que lhe ensina o que é o racismo a perguntar quem é o menino negro que apareceu por ali de repente. Os problemas, contudo, explodem na segunda temporada que passa no meio dos graúdos do clube. Coincide com a chegada de José Mourinho, o português duro de feitio e sem paciência para lidar com ele, o rapaz que chega a descrever como “não treinável”. Porque diz que ele não se esforça, não treina como gente que tem mais 15 anos (como Luís Figo), não se controla fora de campo e não cumpre horários. “Contigo posso falar a qualquer dia da semana, mas a Fórmula 1 só vem a Itália uma vez por ano”, chega a ouvir, quando ele falta a uma reunião para assistir a um treino dos tipos que conduzem a 300 km/h.

Ele consegue piorar a relação com Mourinho, o clube e os adeptos quando, para um programa de televisão italiano, decidiu vestir uma camisola do AC Milan, clube rival. É a gota de água que Roberto Mancini, o homem que o lançara no Inter, pensa ter a esponja capaz de a secar. O treinador leva-o para o Manchester City, onde ele até ganha a Premier League e marca golos, mas mostra como tudo nesta vida parece ser uma questão de tempo. É visto em discotecas a beber e a fumar, tem de chamar os bombeiros por atear um fogo em casa, chega a ter mais de 10 mil euros em multas de estacionamento. Admite que a vida fora de campo aborrece-o, confessa-se incapaz de ser o bom futebolista que nada faz nos tempos livres. O clube também o multa, muitas vezes. E ele ainda usa e mostra uma t-shirt, no jogo em que marca ao United, rival da vida: “Why always me?”.

O clube farta-se, decide emprestá-lo. O Milan, clube que apoia desde criança, contrata-o e lá passa 18 meses com golos e exibições suficientes para se falar pouco do mal que ainda se porta fora do campo. Parece estar mais calmo. O Liverpool decide arriscar, compra-o, puxa-o de novo para Inglaterra -- e de volta à má vida. Ele não joga nada de especial (a expressão é mesmo esta), marca poucos golos. Diz que a culpa é das lesões, que lhe tiram a forma e a confiança que nem outro empréstimo, ao Milan, lhe devolvem. O Liverpool não pode mais com ele e, no início desta época, decide oferecer sem custos o avançado que lhe custaram mais de 40 milhões de euros.

Esta história chama-se Mario Balotelli.

Nós avisámos.

Nós avisámos.

VALERY HACHE

Porque Ben Arfa chegou lá na última temporada e apenas se falou em coisas boas. Fartou-se de jogar, marcar e fintar, escapulindo-se aos problemas e pintando de negro a vida aos outros, em vez de a ele próprio. O prodígio acordou tarde, mas os 18 golos em 37 jogos e éne juízos moídos a adversários convenceram o Paris Saint-Germain a comprá-lo, este verão. Foi o fruto caído da árvores em que o Nice decidiu colocá-lo, apostando num jogador em quem ninguém ousava arriscar. Como a coisa resultou uma vez, tentou ir atrás da segunda.

E este verão chegou Mario Balotelli. A época ainda nem a um terço vai, mas o avançado tem-se mantido calado, indetetável fora do campo e certeira dentro dele. Vai com quatro golos marcados em três partidas, os dois últimos contra o AS Monaco de Leornado Jardim e Bernardo Silva, que perderam (4-0) o dérbi da Côte d’Azur. Parece estar concentrado apenas em futebol, não dá entrevistas e já não celebra golos sozinho ou com cara de poucos amigos.

O Nice parece estar a mudá-lo, como mudou Ben Arfa.