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“O Francesco Totti está acima do Papa”, diz Mário Rui

Ele não queria ofender ninguém mas nós percebemos. Mário Rui está em Roma, cidade, há meses suficientes para dizer que “o Francesco Totti até está acima do Papa”. O futebolista português convive todos os dias com a lenda que esta terça-feira faz 40 anos, leva mais de 750 jogos pela Roma e já marcou 250 golos. E diz que tem uma história para contar “aos netos, aos amigos, aos primos, aos irmãos”

Diogo Pombo

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Paolo Bruno

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Core de ‘sta Città.

É frase no hino da Roma, do clube, uma das primeiras que os adeptos cantam no Olímpico da cidade. É a oração cantada em uníssono antes de todos os jogos. A letra fala do clube, um que é como qualquer outro numa coisa, a que diz que não há homem que esteja por cima dele. Tudo certo. Até ao dia em que apareceu um menino, que só podia vir a ser o que é hoje porque, no lar, o alimentaram um gosto. Um amor que não o fez esquecer, ou deixar de contar, como viu a mãe a querer “levantar as mãos” a uns homens. Bateram-lhe à porta de casa, vindos de Milão, e perguntaram-lhe se podiam levar o filho. O que seria.

O rapaz ficou. O germinado em Roma teria que florescer em Roma, não havia hipótese. Vivia nas entranhas da cidade, tinha no sangue e na alma o clube, o organismo da família era assim. O menino andava de camisola e bola atrás, sempre. O jeito para jogar à bola teria que o levar lá, e não para Milão. E a família fomentava-o. Uma vez, nos arredores da capital, o filho passeia pela praia com o pai. Cruzam-se com uma pelada entre rapazes de oito anos. Francesco tem quatro, mas o patriarca insiste que o deixem jogar. “É demasiado pequeno, ele pode-se magoar”. Quem tinha o dobro da idade, do tamanho e da força acaba a nem fazer metade do que Totti mostra que sabe fazer.

GABRIEL BOUYS

Damos uns pulos no tempo e o jeito levou esta criança a ser adolescente e adulto no futebol. A jogá-lo bem, aos golos de chapéu, às fintas, à braçadeira a apertá-lo desde cedo, a um Scudetto (2001) e a um Mundial (2006) ganhos. Fê-lo ser protagonista de uma história que nem precisa de títulos para ser contada. Ela vale por tudo o resto. Com 13 anos entra no clube, na Roma que o estreia aos 16, no dia em que tão feliz está que não se importa de tocar apenas duas vezes na bola. Remata o primeiro golo aos 18, a quatro anos de se tornar no capitão mais jovem em Itália. É campeão bem dentro dos 20 e perto dos 30 vence um Campeonato do Mundo com parafusos no tornozelo, alicerces que lhe colam a cuspo uma fratura que era recente.

Antes, durante e depois de tudo isto estava, está e estará a Roma. O clube que o tem há mais de 30 anos, 25 seguidos na equipa principal. O clube amarelo e grená que não o perdeu porque ele nunca quis ir embora. Podia ser o Real Madrid a soprar-lhe o cheiro do dinheiro e dos títulos, o interesse de outros gigantes, sedentos depois de o verem calçar a Bota de Ouro (2007), ou a vontade em desafiar-se e experimentar coisas novas. A curiosidade jamais lhe ganhou e, com os anos, um nome e um apelido foram-se tornando sinónimos de um clube. E dos que torcem por ele na cidade. Francesco Totti é a Roma e se o hino diz que ela é o coração da cidade, isso quererá dizer algo sobre ele, o jogador.

Ou perdão, sobre a lenda, como tanto lhe chama Mário Rui. O português já sabia de tudo o que está aqui resumido quando, no verão, nem pensou antes do sim que deu à Roma. Estava no Empoli e mudou-se para a capital. Fez-se o segundo português a jogar no clube - o primeiro foi Antunes, outro lateral esquerdo - e a conviver com o homem que é engrandecido pelo nome que tem. Tantas são as coisas por contar sobre Francesco Totti que me alonguei nestes parágrafos e me atropelei nas perguntas às Mário Rui, “com todo o gosto”, foi respondendo. Porque ele sabia, e sabe, que tem “o privilégio” de jogar e conviver com o símbolo da Roma que cumpre, esta terça-feira, 40 anos. E o facto de poder desejar-lhe tanti auguri em pessoa é uma das histórias que, um dia, terá para contar “aos netos, aos amigos, aos primos e aos irmãos”.

Vamos falar sobre uma lenda? Vamos, vamos. Embora seja difícil dizer alguma coisa. Está à frente dos olhos de toda gente. Podemos dizer o que quisermos, mas todos sabemos aquilo que ele é.

Tens noção que tinhas dois anos quando o Totti começou a jogar na Roma? Também já tinha feito essas contas [ri-se].

Estavas nervoso quando o conheceste? A ele e a toda a equipa. Mas claro que, com ele, estava mais. Queria muito saber como ele era, tinha muita curiosidade por conhecer alguém como o Francesco, pela carreira que ele fez, a história que ele tem, a consideração que as pessoas têm por ele, tanto em Itália como a nível internacional. Seguramente que foi uma das coisas na qual eu pensava. Como é que hei de dizer… Sabes, agora, passados tantos anos, já me começam a faltar as palavras em português.

Não sabias o que lhe dizer? Sim, a questão da aproximação, de como começar uma conversa com ele. Acabou por ser facílimo. Foi uma das primeiras pessoas que encontrei quando fui fazer os exames médicos, deu-me logo as boas-vindas. É uma pessoa acessível, muito tranquila. Por vezes é silencioso, mas gosto de fazer as suas brincadeiras. Quando tem de brincar, brinca muito. Acima de tudo, o que mais se vê é a sua humildade. Estava habituado a ver o Totti na Playstation e a jogar com ele ou a vê-lo na televisão. No início, estava um bocado na expetativa de como seria a abordagem. A tranquilidade que ele transmite deixa-te sem palavras, demonstra o campeão que o Totti é.

Falas muito com ele? Sim, todos os dias. Ele é sempre o primeiro a chegar aos treinos. Eu também costumo ser um dos primeiros, mas, quando chego, o Francesco já lá está sempre. Aí é o normal, diz bom dia, pergunta como estou, como está a correr a recuperação [Mário Rui está a recuperar de uma lesão no joelho] e essas coisas todas.

Paolo Bruno

E fora dos treinos e jogos, convivem? Por enquanto, ainda não. Têm sido poucos os tempos livres desde que a época começou. Entre a pré-época, os jogos, os estágios e as competições europeias, jogamos sempre a cada dois ou três dias. É difícil organizar alguma coisa. A equipa está junta todos os dias, portanto, quando temos uma manhã ou uma tarde livre, toda a gente a passa com a família.

Bom, tenho tanta coisa para perguntar sobre o Totti, que é difícil escolher. O homem é um ídolo para muita gente. Olha, em Roma é acima de ídolo, é um rei! Posso dizê-lo. Não quero exagerar nem ofender ninguém, por causa das religiões. Mas, em Roma, o Totti até deve estar acima do Papa. Digo isto meio na brincadeira, mas a realidade não foge muito disto.

Como é que o tratam no clube? Toda a gente o idolatra, claro. Mas, como falava há bocado, ele é muito humilde. É como se fosse mais um. Treina igual aos outros, durante o mesmo tempo, apesar da idade que tem e daquilo que já jogou. Faz exatamente os mesmos treinos que os outros. E tem mais qualidade que os outros [risos].

Nota-se muito a idade que ele tem? Não, não! Nas poucas semanas em que treinei com a equipa, vi um atleta. Apesar da idade, corre sempre, não vira a cara à luta, treina sempre bem, joga, faz a diferença… O que se pode dizer?

Já tiveste do outro lado, quando estavas no Empoli e jogaste contra ele. É complicado ou não? Nunca sabia o que podia acontecer. Estavas sempre à espera que ele inventasse alguma coisa, mas não sabias o quê. Faz coisas que tu pensas que são impossíveis ou que não se podem passar naquele momento. Mesmo agora nos últimos jogos, em que não estivemos bem, ele fez a diferença e esteve em quase todos os golos que marcámos.

A época passada houve aquela polémica entre o Totti e o Luciano Spalletti, que o deixou no banco muitas vezes quando chegou à Roma. Já passou? Sinceramente, do que eu vi até agora, só reparei na disponibilidade de ambos. Vendo as declarações do mister, ele continua a dizer que é nosso melhor jogador e que o utiliza quando acha que tem de utilizar. E o Totti tem jogado nos momentos em que a equipa precisa dele e tem dado sempre o seu contributo.

Tens pena que ele se retire no final da época? Não sou só eu! Qualquer pessoa que goste de futebol tem essa sensação, de certeza. Mas não sei se será mesmo o último ano do Totti, vendo o que ele tem feito. Se continuar assim até ao final, acho muito difícil que este seja o último ano como jogador.

Achas que ele ainda aguenta mais uma temporada? Vendo a maneira como ele treina, acho que sim. Ainda tem muita vontade e a cabeça dele, por enquanto, diz-lhe que sim. Mas só ele saberá.

Paolo Bruno

E nos treinos em que os miúdos das reservas vão treinar com a equipa principal, nota-se que eles ficam deslumbrados por terem o Totti ali ao lado? Devem sentir o mesmo que eu senti quando cheguei à Roma. Estamos a falar de uma lenda do futebol mundial. Mas, lá está, a humildade e tranquilidade que ele transmite a quem chega, ajuda. Claro que não te dá o à vontade para lhe começar a fazer entradas ou algo do género, mas deixa-te fazer o teu trabalho, tranquilamente.

O De Rossi, por exemplo, foi um deles, há muitos anos. Os adeptos chamam-lhe Il Capitano Futuro, mas a verdade é que a braçadeira nunca passou porque o Totti não pára de jogar. Sim, ele já tem 32 ou 33 anos. Vai fazer a carreira quase toda com o Totti, o que não é assim tão mau. Estamos aqui a falar sobre o Totti, mas o Daniele é outra lenda do futebol italiano, pela lealdade que também sempre demonstrou pela Roma. Ambos optaram por ficar no clube que amam. Nasceram em Roma, são dois romanos, não querem sair daqui.

Quando trocaste o Empoli pela Roma, chegou ao ponto de pensares no Totti como um dos fatores de decisão? Sim, acabou por ser tudo. Foi um de muitos fatores, além da história da Roma, por poder jogar na capital, pelo clube que é. Foi muito fácil de decidir.

Imaginas o Totti como treinador? É uma coisa muito difícil de dizer. Quer dizer, ele ainda está a jogar e fazê-lo muito bem [ri-se]. Experiência de certeza que tem, dado a idade que tem.

Acredito que os teus amigos te fizeram muitas destas perguntas quando te mudaste para a Roma. Sim, são as perguntas mais normais. O Totti é uma lenda, é muito fácil alguém querer saber como ele é. Só o facto de o ver a treinar dá para ter ainda mais certezas sobre tudo aquilo que se fala sobre ele. Vê-lo de perto e conhecê-lo torna as coisas ainda mais bonitas. Nunca o vi ser arrogante ou convencido. O que mais surpreende é a tal humildade. Ainda há pouco tempo, quando ele entrou ao intervalo do jogo contra a Sampdoria, fez duas assistências e marcou um golo, e no dia a seguir foi como se nada tivesse acontecido. Acabou o jogo, toda a gente foi ter com ele e, para o Totti, parecia que não se tinha passado.

Sentes-te um privilegiado? Claro! É uma história para contar aos netos, aos amigos, aos primos, aos irmãos… Digamos que é algo muito bonito para eu, um dia, recordar.