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O Totti é maior que o Maradona. E vou explicar-vos porquê

Francesco Totti faz 40 anos e Bernardo Pires de Lima, investigador, autor, colunista do DN e comentador da RTP, escreve sobre o seu ídolo que viu jogar em Roma, na Roma, quando viveu entre romanos. “Totti é o maior entre os maiores”

Bernardo Pires de Lima

Mike Lawrie

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27 Outubro de 2002. Há praticamente um mês que andava de albergue em albergue à procura de casa em Roma para me fixar durante um ano, quando o dia do derby chegou.

Fomos cedo para o Olímpico à procura de bilhete mas nada de curva sul. Eu vinha de nove épocas de curva sul em Alvalade, não ia agora ver um dos grandes derbies do mundo numa central, perder a fúria dos cânticos, o cheiro das tochas e a celebração de um golo de Batistuta, Montella ou, claro está, de Totti. E lá foram 60 euros sem pestanejar numa bela ação dos candongueiros de serviço.

O ambiente era electrizante, centenas de polícias a cavalo, a agitação habitual num dos jogos mais importantes do futebol, entre dois clubes que tinham vencido o scudetto em duas das três épocas anteriores: a Lázio, o segundo campeonato da sua história em 2000, 26 anos depois do primeiro; a Roma, o terceiro título em 2001, depois de 18 anos de jejum.

Os clubes da capital italiana tinham assim regressado ao topo do calcio com uma cereja no topo do bolo: no derby anterior ao de Outubro, a Roma tinha cilindrado a Lázio por 5-1 com quatro golos de Vicenzo Montella e um de Totti, numa noite negra do capitão laziale Alessandro Nesta.

Estava na altura de entrar no estádio, mas as coisas não iam ser fáceis. Havia muita pedra a voar, muitos petardos a rebentar, tochas e tudo o que estivesse à mão como arma de arremesso, a cavalaria a acelerar o passo e algumas cabeças abertas também. Eu já tinha visto muita coisa na bola, mas nunca tinha entrado de gatas num estádio. Assim foi.

Corremos para a curva sul onde tudo parecia tranquilo à espera da entrada para o aquecimento. Havia até quem jogasse às cartas. Mas no momento da entrada dos jogadores, ou gladiadores se preferirem, tudo mudou.

GABRIEL BOUYS

Começaram os cânticos dedicados a cada, mas só um tinha direito a uma explosão de amor incontrolável vinda das gargantas dos milhares que compunham a curva giallorossa. Era Il Capitano, Il Bimbo de Oro, Il Re di Roma, o inigualável, carismático, o orgulho da cidade, Francesco Totti. Estávamos no início do aquecimento, não se esqueçam, numa equipa com Panucci, Cafu, Aldair, Emerson, Delvecchio, Candela, Walter Samuel, Tommasi ou Cassano. Totti entrou à frente a liderar e seria o último a recolher ao balneário. É assim um verdadeiro capitão. A camisola do aquecimento seria dada aos adeptos, num gesto até então, para mim, inédito.

Há muitos anos já olhava para Totti como um dos grandes do futebol mundial, mas só no Olímpico percebi o que significava Totti.

Francesco estava na restrita galeria dos grandes capitães da Roma, como Giuseppe Giannini, Bruno Conti, Agostino Di Bartolomei ou Sergio Santarini, um clube que se confunde com a cidade e que, não tendo uma dimensão nacional como a Juventus, o Milan ou o Inter, com adeptos por todo o lado, carrega uma mística fora do vulgar. E o futebol sem mística, paixão e mitos não presta para nada.

A Roma condensa tudo isto e, mais singular ainda, concentra em Totti tudo aquilo por onde o futebol moderno devia ir: amor ao jogo, amor ao clube, amor à cidade, amor ao adepto, entrega ao jogo, entrega ao clube, entrega à cidade, entrega ao adepto.

Totti não é só único por estar a cumprir a sua 25ª época consecutiva com a mágica camisola da Roma (igualando Paolo Maldini no Milan), por sacralizar o 10 apenas e só como Maradona o fez, por ter feito na jornada passada o 250º golo na Série A, colocando-se em segundo na história do calcio (atrás de Silvio Piola), em primeiro com a mesma camisola (à frente de Del Piero e Giuseppe Meazza), mas cumprindo aquilo que mais ninguém fez: marcar sempre em todas as épocas.

Totti não é só único por ser o jogador com mais jogos feitos na história da Roma ou o terceiro de sempre na Série A (atrás dos gigantes Paolo Maldini e Javier Zanetti). Ou por ser o número um na história do futebol italiano que mais vezes bisou (46 vezes) e mais penalties marcou (71).

Ou o jogador mais velho (38 anos) a marcar na Liga dos Campeões, o recordista de derbies romanos (41), o jogador da Roma com mais épocas de braçadeira de capitão no braço (19) e um dos campões do mundo pela seleção italiana em 2006. Dele disse um dia Giovanni Trapattoni: “todos os grandes jogadores têm qualquer coisa de genial, mas só há um Van Gogh e nenhum é como Francesco Totti”.

Alex Livesey

O calcio foi sempre o meu campeonato de eleição. Lembro-me de despertar para o futebol italiano quando Maradona foi para Nápoles, depois continuei com o Milan de Arrigo Sacchi, a Juve de Lippi e, claro, a Roma de Capello. Acompanhava jornada após jornada os programas desportivos da RAI e não era indiferente à enorme influência que as principais claques tinham por cá, em particular na Juventude Leonina, o meu eterno lugar no estádio José de Alvalade.

Os CUCS romanos eram uma instituição para muitos de nós, tal como os Drughi da Juventus, os Settebello da Fiorentina, os Boys San do Inter, ou os Irriducibili da Lázio. As coreografias, os cânticos, as tarjas, as roupas, a postura no estádio, foi uma escola que marcou e continua a marcar gerações, mas havia um detalhe que me fascinava em Itália e que eu não via, pelo menos com a mesma intensidade, noutros campeonatos: o culto pelo jogador. Ponho Maradona à parte, mas não é por acaso que grande parte dos eternos jogadores que entraram na história do futebol mundial nos últimos 20/30 anos, por vestirem tantos anos a mesma camisola, o fizeram em Itália. Cito as vezes que forem precisas Paolo Maldini, Franco Baresi, Alessandro Costacurta, Giuseppe Bergomi, Javier Zanetti, Alessandro Del Piero, Gianluigi Buffon, Antonio Di Natale, Dino Zoff, Pietro Vierchowod, Roberto Mancini, Gianni Rivera, Ciro Ferrara, Giuseppe Giannini, Daniele De Rossi ou Francesco Totti, para ilustrar o raciocínio: em Itália ama-se o clube da nossa cidade e idolatra-se que sabe interpretar esse amor.

Por isso, a fidelidade a uma camisola é frequentemente premiada com juras de amor eterno das bancadas, mesmo que por vezes se troque de caminho. Nunca me esqueço de um episódio marcante na minha vida quando, também no Olímpico de Roma, vi o primeiro jogo de Pavel Nedved com a camisola da Juventus depois de cinco anos como laziale e um título de campeão: o jogo não começou enquanto os líderes da claque da Lázio não encheram o agora juventino de cachecóis azul-celeste, o encaminharam até à curva norte e o levaram às lágrimas quando todo o estádio se levantou a aplaudi-lo.

Ou também não me esquecerei quando Roberto Mancini regressou a Génova com a camisola da Lázio, depois de 15 épocas na Sampdória, com a qual venceu um scudetto, quatro Taças de Itália e chegou à final da Taças dos Clubes Campões Europeus, e também ele foi às lágrimas num Luigi Ferraris de pé a ovacioná-lo. Os grandes ídolos sabem merecer o respeito e a admiração dos adeptos e se forem mesmo grandes homens como são jogadores nunca os desiludirão.

Giuseppe Cacace

É verdade, há vários casos em Itália de símbolos que trocaram de camisola entre rivais, como Andrea Pirlo, Roberto Baggio, Angelo Peruzzi, Pavel Nedved, Roberto Mancini, Clarence Seedorf, Carlo Ancelotti, Fernando De Napoli, Ciro Ferrara, Gianluca Zambrotta, Alessandro Nesta ou Pierluigi Casiraghi. Nenhum deles deixou de ser um extraordinário jogador por ter feito essa opção e continuam todos na nossa memória por esta ou aquela razão. Mas também por isso nunca chegarão ao mesmo patamar de Maldini e de Totti: absolutamente vitais na transmissão entre gerações daquilo que é mais importante à sobrevivência e perpetuação de um grande clube – uma identidade própria, uma cultura singular, uma mística popular personalizada.

A linha que separa Maldini de Totti é só esta: teria Maldini feito 25 épocas consecutivas no Milan se não tivesse conquistado o que conquistou, se tivesse vencido apenas um único scudetto como Totti e recusado propostas milionárias para seguir triunfando com outro sucesso noutro clube de topo?

FILIPPO MONTEFORTE

É isto que faz de Francesco Totti, que hoje completa 40 anos de vida, um jogador para lá do futebol moderno, do negócio fácil, dos negociadores implacáveis, da camisola descartável, do símbolo pisado, do desgosto dos adeptos. É isto que faz de Francesco Totti, que hoje celebra uma vida dedicada a Roma, o último reduto dos que acreditam que um clube é muito mais do que uma sociedade anónima, que uma curva não é uma mera bancada mas um lugar permanente de peregrinação, de crença, de amizade, de cumplicidade, que um Capitão é a encarnação do símbolo do clube em campo, no treino, no banco e no balneário, e que é sempre o primeiro a entrar no aquecimento e o último a sair, sobretudo quando perde.

Regressemos a 27 de Outubro de 2002. O derby termina com um empate a dois (Fiore e Stankovic para a Lázio; Delvecchio e Batistuta para a Roma), não sem antes o grande Francesco “Batman” Antonioli ter defendido um penalty de Mihajlovic nos minutos finais. Claro que o estádio veio abaixo, a batalha foi superada e a cumplicidade entre a equipa e os adeptos preservada.

No final, os cânticos que nunca pararam nos 90 minutos continuavam a arrepiar quem ali tinha ido para evocar uma cidade, um clube e uma identidade. E um Deus. Francesco Totti saiu como entrou: capitaneando uma equipa, liderando um clube, encarnando uma cidade, eternizando o mito. Fui percebendo melhor o que era Totti nos meses seguintes, já com a casa arrumada. Como as pessoas se lhe referiam, como brilhavam os olhos daqueles que, sabendo do interesse de Berlusconi em levá-lo para o Milan, se orgulhavam da recusa dada.

Como cada Vespa tinha colado um autocolante seu, como a loba era colocada em cada janela, como os meus colegas na universidade levavam orgulhosos para as aulas camisolas de Totti vestidas. Se Maradona é imortal para Nápoles, Totti é imortal para Roma.

Pep Guardiola, que fez parte do plantel da Roma precisamente na época 2002-2003, lembra que nessa altura já se sentava no banco a admirar Totti, e que passados tantos anos continua a fazer o mesmo. Tal como todos nós. Sinto-me afortunado por ter crescido a ver Maradona, Ronaldo, Zidane, Messi e Cristiano, talentos únicos, irrepetíveis e inesquecíveis. Mas nenhum foi capaz de se confundir tão profundamente com um clube, uma cidade e uma identidade por tanto tempo como Francesco Totti, o maior entre os maiores.

Parabéns, ídolo. Longa vida ao Rei.

GABRIEL BOUYS