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O Totti é o meu irmão mais velho (e tudo mais que ele é para um verdadeiro romano)

Uma coisa é gostar de Francesco Totti, outra é ter nascido e crescido em Roma, a vê-lo no estádio e a tê-lo como ídolo. Pedimos a Guglielmo Cammino, que sabe de cor os golos que ele marcou, para escrever o que o capitão da Roma (que faz hoje 40 anos) significa para um verdadeiro romanista

Diogo Pombo

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Paolo Bruno

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O meu bom amigo Diogo pediu-me para escrever um texto sobre os 40 anos do Totti.

Pediu-me para descrever o que o capitano significa para nós, romanisti. No momento em que li a mensagem, senti arrepios. Escrever algo sobre o Totti é uma honra e um privilégio para qualquer giallorosso. Mas é também uma responsabilidade. Não é fácil escrever em nome de um povo, que ama tanto as suas cores, e sobre o jogador mais amado na história.

Pensei durante todo o dia sobre o que iria escrever. Queria falar de tudo, mas não consigo. Como posso explicar a um português o que significa o Francesco Totti? Para ele, não significa nada. Não viveu com ele. Não o viu jogar 763 vezes com a mesma camisola (ok, não o vi em todos os jogos, mas conto nos dedos de uma mão as partidas que falhei). Ele não o viu marcar por 306 vezes (os golos, sei-os de cor). Nunca gritou o nome dele no estádio. Por isso tinha de escrever uma carta, mas não para o Pai Natal. Portanto, o que faço? Junto os 40 melhores momentos da carreira do Totti? Nunca. Se tenho 1000 à disposição, iria sempre querer saber do 1001.º.

Não consigo ser tão racional e pensado. O Totti não merece uma coisa tão óbvia, algo que ele nunca foi. Sabem o que fiz? Escrevi o que me veio à cabeça. Pode ter ficado feio e não ser uma boa leitura, mas não sou jornalista, nem sou bom a escrever. Tenho 28 anos e o Francesco Totti foi como um tic-tac da minha vida. A sua carreira é paralela ao meu crescimento e, provavelmente, isso contribuiu para a minha paixão. Quando me sentei na carteira da escola, ele estreou-se na Série A. Quando entrei na adolescência, ele guiou-nos até ao scudetto. Quando dei o meu primeiro passo na universidade, ele ganhou a Bota de Ouro, marcando 26 golos ainda com parafusos no perónio.

Totti estreou-se pela Roma em 1994, com 16 anos

Totti estreou-se pela Roma em 1994, com 16 anos

Shaun Botterill

Ele sempre foi uma presença constante. Uma referência, desde os meus 5 anos até hoje. Foi como um irmão mais velho que nunca tive, apesar de ter uma irmã que me passou a alegria de ser romanista. Ok, ele não me foi buscar à escola ou ligou-me para saber como eu estava. Mas, de qualquer forma, ele esteve sempre lá. E ainda está. É uma coisa certa na minha vida. Tão certa como o sol nascer todos os dias ou como eu comer pasta ao almoço.

O Totti foi um pilar do qual aprendi muitas coisas. Aprendi o que é ser leal nos bons e maus momentos. Talvez muitos não saibam, especialmente os estrangeiros, mas o Totti manteve a Roma afastada do fim durante os dias mais negras. Em 2004, quando estávamos perto da falência, ele converteu dois meses do seu salário em ações do clube. Ficou sempre na Roma, apesar da pressão do Chelsea de Abramovich, o novo rico do futebol. Nunca desistiu. Num mundo de negócios (porque, hoje, o futebol é assim), ele tomou uma decisão com arte. Renunciou aos milhões e aos troféus que lhe teriam dado notoriedade a nível internacional.

Ele ensinou-me que não há nada mais bonito do que viver por aquilo que amas e pelo que te ama de volta. Que o podes fazer sem perseguir os contratos e os troféus que a nossa sociedade impõe como a única forma de sucesso e reconhecimento. Ensinou-me a lutar, mesmo quando tudo parece perdido. Lembro-me, em 2006, que ele conseguiu jogar o Mundial, mesmo tendo partido o perónio quatro meses antes. Jogou com parafusos na perna. Todos os italianos se lembram da meia-final, frente a Alemanha, ou da final, contra à França.

Para mim, o momento mais emocionante foi o penálti que o Totti marcou à Austrália, ao minuto 90, nos oitavos-de-final. Nos segundos antes do remate, estava nervoso. Não pela Itália, mas por ele. Sabia que, se o Totti falhasse, metade da imprensa o colocaria na mesa dos culpados. Sinto-me arrepiado cada vez que vejo esse penálti outra vez. Ainda tenho medo que ele o falhe.

Totti marcou o golo da vitória contra a Austrália, em 2006, e colocou a Itália nos quartos-de-final do Mundial.

Totti marcou o golo da vitória contra a Austrália, em 2006, e colocou a Itália nos quartos-de-final do Mundial.

Mike Hewitt

Como qualquer bom irmão mais velho, o Totti também me ensinou a brincar. A ser sério e profissional, mas também a ter uma postura serena e sorridente para com a vida. A ser um pouco convencido sem nunca ser um arrogante, ou um idiota.

Como aconteceu num dérbi contra a Lazio, em 1999, quando ele marcou e mostrou uma t-shirt, onde tinha escrito: “Vi ho Purgato Ancora”. Uma expressão muito romana, que usou para lembrar aos biancocelesti que os estava a mandar, outra vez, à casa de banho (já tinha marcado no primeiro dérbi dessa época). Ou depois, em 2000, nos penáltis da meia-final do Europeu, quando, à frente de 53 mil pessoas, fez um cucchiaio [significa colher, em italiano, palavra que usam quando alguém marca um penálti à Panenka] para tirar o pó ao Panenka. Hoje, é copiado. Lembro-me do meu tio, então com 65 anos, a saltar em cima do sofá e a correr para fora de casa, com as mãos no ar, a gritar: “Não acredito que ele fez isto!”. Não parou de correr, foi-se embora.

Naturalmente, até o Totti cometeu erros. Nem sempre se comportou como um menino de um colégio suíço. Lembro-me o que os jornais escreveram sobre ele, depois de cuspir contra o Poulsen, ou de dar um pontapé no Balotelli: que ele era um bully, uma má pessoa, um imbecil. Infelizmente, todos falhamos. Nós, os romanos, somos pessoas autênticas. Se estamos num dia mau, consegues lê-lo nas nossas caras. Se tiveres uma atitude provocatória connosco, uma reação física é automática. Mas são erros e falhas de pessoas com arte. Porque só quem tem arte corre, luta e joga na Série A aos 40 anos.

O ano passado, os adeptos da Roma dividiram-se após uma entrevista do Totti, em que ele atacou a direção do clube, pedindo esclarecimentos sobre o seu futuro. Muitas pessoas não queriam que ele continuasse, queriam livrar-se dele. São as mesmas pessoas que, hoje, gritam o seu nome ou pedem para tirar uma fotografia com ele. Já não tem capacidade, está velho, não mexe o rabo, diziam eles. Eles respondeu-lhes, guiando a equipa a um lugar de acesso à Liga dos Campeões.

O Roma-Torino foi um jogo simbólico. Estávamos a perder por 2-1 aos 86 minutos. Depois de uma semana de polémica constante com um clube que não lhe queria renovar o contrato, ele entrou em campo e ganhou o jogo sozinho. Dois golos, 3-2. Eu estava fora de Itália, em trabalho, mas vi o jogo com outros romanisti. Todos estavam a chorar no fim.

Chorei porque parecia que era uma criança de novo. Que estava em casa, aos pulos com as minhas primeiras camisolas da Roma, com o nome dele estampado nas costas.

Chorei por ele, não pela equipa. Porque, naqueles quatro minutos, ele chegou-se à frente e jogou sem o amor e a vontade de continuar a jogar pela Roma. Queria mostrar a toda a gente que não estava acabado. Queria merecer o que, automaticamente, lhe deveria ser dado, sempre que ele quisesse.

Há dois anos, após marcar num dérbi contra a Lazio, o capitão da Roma pegou num telemóvel e tirou uma selfie com os adeptos da curva sul do Estádio Olímpico de Roma.

Há dois anos, após marcar num dérbi contra a Lazio, o capitão da Roma pegou num telemóvel e tirou uma selfie com os adeptos da curva sul do Estádio Olímpico de Roma.

ANDREAS SOLARO

Para mim, o fim da carreira do Totti é uma questão de vida. Significa crescer, significa chegar à vida adulta. Vê-lo em campo faz-me sentir que o tempo não passa. Que ainda sou um miúdo, que não tenho de ir trabalhar todos os dias. Cada ano que ele renova o contrato é um alívio. É outro ano de sonhos, mais um ano para fantasiar sobre uma vitória que nunca vai chegar. Outro ano a perseguir o conto de fadas que acontece sempre aos outros e não a nós. Se ele não acontecer - vencer o scudetto - não importa. Se eu quisesse ganhar, apoiaria a Juve, o Milan ou o Inter. Mas eu sou feliz assim. Tive o privilégio de ser romanista e assistir a toda a carreira do jogador mais importante e representativa do clube.

Tive a honra de crescer com o Francesco Totti e não trocaria isso por nada. Ele é maior do que o próprio clube, representa algo que já não existe. A direção é estrangeira, o presidente é americano e nem vive em Itália. Os jogadores chegam sem alma nem atitude para jogarem na Roma. Espero que o Totti possa continuar a tomar conta de nós e a lutar por nós.

A minha paixão pela Roma e pelo futebol vai terminar no momento em que ele acabar a sua carreira.