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Leipzig, o clube mais odiado da Alemanha

Há um clube que só existe há sete anos e chegou esta época à Bundesliga. Todos os alemães o parecem odiar, menos a gente de Leipzig. Porque foi preciso a Red Bull comprar a licença de um clube, mudar-lhe o nome, investir, contornar as regras que dão os clubes aos sócios, "ocupar" um estádio e devolver o futebol ao leste da Alemanha. Esta é, até agora, a história do RB Leipzig

Diogo Pombo

ROBERT MICHAEL

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Os protestos, uns atrás dos outros, eram certos. Apenas variava a originalidade. Há dois anos, em Berlim, milhares de adeptos taparam-se com túnicas de plástico preto, negros da cabeça aos pés, e mantiveram-se em silêncio durante os primeiros 15 minutos do jogo. Na época passada, em Dresden, uma cabeça de porco, cortada de fresco, foi atirada para perto da baliza dos visitantes. Este mês, o Borussia, que é de Dortmund e se orgulha de ser o clube mais fiel à tradição que pode haver, recusou que o seu símbolo aparecesse em cachecóis alusivos ao jogo, ao lado do emblema adversário. Uma semana antes, os adeptos do Hoffenheim, mais jocosos, escreveram numa tarja: “Queremos o trono de volta: o clube mais odiado da Alemanha”.

E os adeptos do RB Leipzig terão encolhido os ombros, assobiado para o lado e feito os demais gestos de quem tem, como única solução, não se importar com o que dizem sobre o seu clube.

Habituaram-se a ouvir, ver e ler este tipo de coisas nos últimos sete anos, quando começou a história que tem de ser contada para se perceber tudo isto. Em 2009, existia um clube chamado SSV Markranstädt. Era pobre, modesto, jogava pouco e mal, não encantava vivalma. Andava pelas divisões distritais do futebol alemão e, para piorar o contexto, era um clube de Leipzig. O que não era bom e, para o entendermos, esta história tem que ser partida em duas.

Leipzig é uma cidade que está no que até 1990 foi conhecido como a Alemanha de Leste. Até aí, o futebol dava alegrias à cidade, porque havia craques, ainda havia dinheiro e durante muito tempo houve vitórias e títulos. Mas, três anos depois da queda do muro e dois após a unificação da Alemanha, quem mandava no futebol do país decidiu criar um campeonato como deve ser. Fundiram as duas ligas que existiam - a ocidental e de leste - e apareceu a Bundesliga, que teve problemas de crescimento, aprendeu mal a ganhar equilíbrio e sempre tendeu mais para o lado ocidental. A Europa e o Mundo queriam democracias e capitalismo e a antiga costela comunista da Alemanha sofreu os danos colaterais.

As fábricas, a indústria, as grandes empresas (a Volkswagen, a Bayer ou a SAP, uma gigante da tecnologia) estavam do outro lado. Ou seja, era aí que estava o dinheiro. Os clubes do leste, sem investimento local, sofreram por estarem no lado alemão com menos população, os menores salários e o mais reduzido poder de compra mais baixos. Foram caindo. Os jogadores nasciam lá e fugiam para os clubes ocidentais - como Michael Ballack, criado em Görlitz, ou Matthias Sammer, nascido em Dresden, antes dele. O sucesso passou a ser mentira. Os clubes, aos trambolhões, foram caindo pelo futebol germânico.

O Dinamo de Dresden, matulão que, enquanto houve muro, venceu nove campeonatos do leste, está na terceira divisão. O Magdeburgo, que ganhou quatro, está ainda mais a baixo. Em 2009, o leste sai de vez da Bundesliga, quando o Energie Cottbus foi despromovido.

O RB Leipzig tomou conta do estádio da cidade, que estava praticamente vazio desde o Mundial de 2006, e chamou-lhe Red Bull Arena.

O RB Leipzig tomou conta do estádio da cidade, que estava praticamente vazio desde o Mundial de 2006, e chamou-lhe Red Bull Arena.

ROBERT MICHAEL

Um bom investidor, com olho prudente e alergia ao risco, ter-se-ia afastado desta parte da Alemanha se quisesse saciar a fome de sucesso. Era lógico. Aqui voltamos à primeira metade desta história, à parte em que Dietrich Mateschitz não quis saber de todas as probabilidades que estavam contra ele. Porque ele, farto em dinheiro, virou-se para o tal SSV Markranstädt e comprou-o no ano em que a Bundesliga passou a ser um campeonato inteiramente virado para o ocidente alemão.

Mateschitz tinha dinheiro, muito, e queria usá-lo: é o dono da empresa que é dona da bebida que diz dar asas a quem a bebe, a Red Bull, que em 2015 faturou qualquer coisa como 6,5 mil milhões de euros só em vendas.

Antes de, pela calada e escondido na sétima divisão do país, usar pequenas amostras do dinheiro que tem para puxar pelo clube, mexeu-lhe no nome. Queria chamar-lhe Red Bull Leipzig, mas a federação alemã não achou piada, nem permite que os clubes tenham o nome de patrocinadores. Logo, foi obrigado a batizá-lo de Rasenballsport Leipzig. Traduzido, fica “Desportos de Relva de Leipzig”, o que em alemão lhe deu para usar as iniciais que pretendia: RB Leipzig. Mudado o nome, ainda alterou o símbolo, as cores, o equipamento. Depois, arranjou maneira de o clube se mudar para o estádio de Leipzig, construído em 2006, para o Mundial, e com mais de 44 mil lugares. Montava as fundações.

Mas os alemães gostam de regras e, por lá, elas existem para garantir que o futebol não foge muito do que era nas suas origens - feito pelas pessoas e para as pessoas. Daí a regra do 50+1, que obriga qualquer clube a ser detido, na sua maioria, por sócios e nunca por um investidor único.

Isto faz com que os adeptos, por exemplo, tenham uma palavra a dizer no preço dos bilhetes, num país onde ir ao futebol ainda é barato. O RB Leipzig foi obrigado a respeitar a regra, e fê-lo, embora com curvas num caminho que todos os outros clubes fizeram em linha reta.

Ser membro do Bayern de Munique, custa entre 30 e 60 euros por ano. Os bávaros têm mais de 270 mil, o Borussia Dortmund conta à volta de 139 mil, mas o clube da Red Bull regista à volta de 300, porque custa quase 1000 euros ser sócio.

O The Guardian já escreveu que quase todos são empresários ligados, de alguma forma, à Red Bull, e que não têm poder de veto sobre qualquer matéria, como acontece nos restantes clubes alemães. Nem o Wolfsburgo (Volkswagen), o Leverkusen (Bayer) ou o Hoffenheim (SAP) fazem o mesmo, em parte, por serem clubes fundados pelas populações locais e a uma história de décadas.

David Selke, avançado do RB Leipzig, a dar um banho de cerveja a Ralf Rangnick, diretor desportivo, quando o clube festejou a subida à Bundesliga.

David Selke, avançado do RB Leipzig, a dar um banho de cerveja a Ralf Rangnick, diretor desportivo, quando o clube festejou a subida à Bundesliga.

ROBERT MICHAEL

É daqui que brota a toda a aversão e protesto contra este projeto, que o ano passado até levou à criação de uma campanha (com site e tudo) anti-RB Leipzig. Cartazes com “Nein zu RB (Não à Red Bull)” apareceram nos estádios e vários clubes recusaram jogar amigáveis de pré-época. Mas o clube fechou os ouvidos e foi-se aguentando. Gastou quase 100 milhões de euros a contratar jogadores desde 2009 até chegar onde está agora: na Bundesliga. “Também queremos entrar na Liga dos Campeões e ter sucesso lá, que é algo que apenas consegues se jogares numa das ligas de topo”, disse, em 2011, o dono da Reb Bull.

Pelos vistos, para lá caminham. Mesmo que milhares de adeptos do Dortmund, na segunda jornada da Bundesliga, tenham preferido assistir ao jogo das reservas em vez de se deslocarem à casa do ódio de estimação, o RB Leipzig venceu (1-0) o Borussia. Surpresa. Está no sétimo lugar, ainda não perdeu e, pela maneira como tem feito as coisas, parece estar ali para ficar. E melhorar. O clube também gastou milhões em construir um centro de treinos e infraestruturas de topo.

Tem a política de contratar apenas jogadores até aos 24 anos e Ralf Rangnick, o diretor desportivo, até tem uma história engraçada para contar sobre isso: “Queríamos o Joe Gomez, do Charlton, que acabou por escolher o Liverpool. Estava a regressar de Londres e o seu agente disse-me, no avião: ‘É uma pena seres tão radical e só assinares com jogadores com menos de 24 anos, porque tenho alguém que seria perfeito para ti. Chama-se Jamie Vardy”. Aconteceu há duas épocas e Rangnick mandou-o à fava - “Não, ele tem 27, não o vamos fazer”.

Para compensar isto, faz outras coisas. Como contratar miúdos com talento e potencial de outros clubes, bem cedo. Ou aproveitar o que vai aparecendo em São Paulo, Nova Iorque, Sogakope (no Gana) ou em Salzburgo, cidades, onde a Red Bull já investira em outros clubes. Tudo funciona como uma grande franchise, em que o manda-chuva mexe nas peças conforme o clube onde mais jeito podem dar. O próprio Ralf Rangnick já foi diretor desportivo, em simultâneo, do Red Bull Salzburgo e do RB Leipzig. E Bernardo Junior, um brasileiro, foi formado no Red Bull São Paulo antes de jogar na Áustria e ter chegado, esta época, à Alemanha.

O país tem, de novo, um clube do leste a jogar no alto do seu futebol. Teve-o à custa de um preço, chamado Red Bull. Mas é a marca do touro vermelho que, tantos anos passados, deu vida a um sítio que é mais importante do que parece: Leipzig teve o primeiro campeão alemão da história, é a cidade onde foi fundada a Federação Alemã de Futebol (DFB) e foi o palco do jogo que juntou mais pessoas no país (cerca de 110 mil, em 1957, num Alemanha-Checoslováquia). Os adeptos, que aprenderam a gostar do novo clube, agradecem. A Red Bull tem mesmo olho para o negócio.