Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

O vídeo do guarda-redes que deu uma lição de jornalismo para defender a honra

Iván Cuéllar é guarda-redes do Sporting de Gijón e, há dias, foi retratado por um jornal espanhol como alguém que, à saída do autocarro da equipa, teria confrontado os adeptos com uma postura séria e de peito feito. Nada disso: estava preocupado com um adepto que estava a ter um ataque epilético. O espanhol perdeu a calma e convocou uma conferência de imprensa para confrontar o jornalista responsável pela notícia

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

Partilhar

O vídeo

“Tu pensas que a informação que dás está correta? Sim ou não? Mandar um vídeo, sem mais nem menos, e que cada um publique o que lhe der na real gana? Esse é o jornalismo no qual vivemos hoje em dia, para que tenhas uma ideia. É o jornalismo que, por exemplo, tu fazes. Pôr um vídeo e fazer-te passar pelos cojones. Isso parece-te bonito? Jogar com a saúde de uma pessoa? Vai muito além de ser adepto do Sporting ou do Deportivo. Sabes o que se estava a passar naquele momento? Deste conta? Gravas um vídeo, envias ao teu jornal, e não escreves que uma pessoa estava a sofrer um ataque epilético?”

“A sério, és um bom jornalista? Permite-me o luxo de te dizer que és um idiota. E vou-te dizer uma coisa: não é nenhum insulto. Sabes porquê? É um adjetivo qualificativo. É o que tu fazes. Dar uma informação idiota, sabes? Fazer idiotices, publicar idiotices, isso é o que tu fazes. Não digo que o faças sempre, mas fizeste-o naquele momento. Estou aqui para me defender de uma coisa e de uma acusação que me fizeram, e que não é verdade. Entendes? Antes de um jogo muito importante para a minha equipa, preocupei-me com uma pessoa que estava a ter um ataque epilético, e tu dizes que estou a enfrentar os adeptos?”

“Tu trabalhas para um jornal, tens que o defender. Defende-o agora, se conseguires. Defende-o, porque é ele que te paga. Nem mais uma, digo-te, nem mais uma! Porque eu não brinco com vocês. Eu digo as coisas na cara. E não estou para isto. Eu não leio jornais e informaram-me logo disto porque, ao fim ao cabo, estas coisas falam-se. Mas, fazerem-me isto… É de filho da puta, hein? Não me toquem nos cojones, não estou para isso. Só queria deixar isto claro.”

A história

O autocarro pára, estaciona perto do estádio, a porta abre-se e toca a sair. Um por um, os jogadores do Sporting de Gijón vão descendo. O barulho é muito, estão ali dezenas de adeptos, na Corunha, sítio onde a equipa asturiana ia jogar contra os anfitriões galegos. São dois clubes do norte de Espanha, a rivalidade fervilha e há ali muito barulho, excitação e gritos. Iván Cuéllar é dos primeiros a sair do autocarro, tem os adeptos a metros de distância, fita-os de frente e há algo que lhe prender o olhar. Ele interrompe a marcha, faz cara séria. Algo lhe rouba a atenção e transforma a postura. Parece irritado, espicaçado, ofendido, mal disposto com algo. Mas, lá está, parecia.

Um jornalista espanhol que ali estava e que gravou a cena em vídeo, deduziu que Iván Cuéllar, guarda-redes do Gijón, teria adotado a tal postura para enfrentar os adeptos. Desafiá-los. O vídeo foi publicado à boleia desta assunção. E como o que parece nem sempre o é, este jornalista espanhol enganou-se, muito, e irritou Cuéllar.

O jogador pediu ao clube para convocar uma conferência de imprensa, sabendo que o tal jornalista, provavelmente, iria aparecer. Mal o viu na sala, não mais desviou o olhar e dedicou-lhe todas as palavras que lhe saíram da boca - porque, no tal momento à saída do autocarro, o que captou a atenção de Cuéllar foi um adepto que estava a sofrer um ataque epilético. Fizeram-no passar por mau numa fita em que o espanhol foi o único bom a reparar no que estava a acontecer.

E defendeu a sua honra.

O outro lado

Sobre o momento, falta referir que um dos médicos do Sporting de Gijón saiu rapidamente do autocarro, logo à frente do guarda-redes, porque reparou na pessoa que sofria o ataque de epilepsia e, de imediato, foi ao seu auxílio. Também terá sido isso a agarrar a atenção do jogador espanhol.