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A Inglaterra, “Big Sam” e a teoria do Big Bang

Sam Allardyce foi apanhado pelos jornalistas a vender-se por 400 mil libras — e a federação demitiu-o do cargo de selecionador

Diogo Pombo

A partir de agora, não é provável que o telefone de Sam continue a receber muitas chamadas

FOTO Matthew Lewi/ getty

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A cena passa-se à mesa de um restaurante: jornalistas do “Daily Telegraph”, disfarçados de representantes de uma empresa asiática, pedem conselhos a Sam sobre como contornar o third-party ownership (passe na posse de fundos, que a FIFA proibiu) no futebol inglês, ou a detenção de passes de jogadores por parte de terceiros. Sam, que é treinador, diz-lhes que é possível dar a volta ao texto, que não se preocupem e até se mostra disponível para ajudar — a troco de 400 mil libras anuais. Foi apanhado na marosca e o castelo dele ruiu. Foi tudo o que quis ser (selecionador inglês) durante 67 dias e despediram-no com apenas um jogo feito (vitória, por 1-0, contra a Eslováquia). Disse que foi bem apanhado, sem garantir que, algum dia, voltará a treinar. Agora, já nem uma mudança de apelido lhe valerá: “Nunca serei o treinador de um clube do top-4 porque não me chamo Allardici”. O nome dele é Allardyce e esta é a história dele.

Não é fácil contar a vida de alguém tão normal. “Just a regular guy”, como dizem no país dele. Sempre morou no canto de onde tentava sair há décadas — na fronteira entre dois vizinhos, o razoável e o bom, que pouco espaço lhe deram para visitar outros comparsas, o excelente ou o extraordinário.

Este homem chama-se Sam e conhecem-no, em Inglaterra, por “Big Sam”. O Grande Samuel, se formos picuinhas na tradução. A alcunha foi-lhe colada no momento em que muita gente começou a reparar nele: Sam tinha 1,91 metros e muitos quilos, ombros largos e uma larga figura. Era grande. E era um desses defesas centrais feios, corpo montado mais para o râguebi, tão hábil para a bola como para bater no adversário. E lá andou nos anos (70 e 80) em que o futebol inglês era pontapé para a frente, jogos em campos lamacentos, num estádio chuvoso e ventoso onde se lutava mais do que se jogava.

E agora, treinador?

O tempo apanha toda a gente e este tipo duro, bochechudo, com bigode, coxas musculadas e cara de mau teve um dia de deixar de jogar. Mas gostava tanto de futebol que decidiu ser treinador. O início foi complicado. Sofreu, levou bocas e leu críticas, ouviu adeptos a lembrar-lhe que era produto do tempo em que os inventores do jogo se tornaram feios no estilo, porcos no relvado e maus nas cacetadas. Mas ele insistiu.

Começou em 1992, na Irlanda, onde pegou no Limerick e o levou à primeira divisão. Feitos uns trabalhos como adjunto e treinador interino, o Blackpool pega-lhe, mas não tarda a largá-lo. Sam é despedido, ou melhor, é empurrado para longe, porque nem chega a assinar um papel com o clube, achando que a palavra do presidente bastava. “O presidente disse que não precisava de um contrato. No dia em que fui despedido, jurei a mim mesmo que não voltava a trabalhar sem um contrato escrito como deve ser”, disse, mais tarde. De génio. Retirou a lição, foi passar uns tempos a Nottingham até que o Bolton, clube pelo qual jogara, o convida para ser treinador. Ali está em casa e dão-lhe tempo para tentar fazer bem as coisas: leva a equipa até à Premier League no início deste século e, com as épocas a passarem, dá ao Bolton a fama que hoje tem — ninguém quer ir lá jogar numa quinta-feira chuvosa, fria e ventosa. Ali fica de 1999 a 2007, não lhe auguram nada de bom, mas logra um 5º e um 6º lugares — e espreitar a Europa. Consegue-o indo direto ao ponto, com uma equipa forte no físico e despida de pudores em levantar a bola lá. Sam faz o feio ser eficaz e chega a assinar um contrato de 10 anos.

Até se ri ao ver um comentador rapar o bigode que apostara, caso o treinador se mantivesse na Premier League à primeira temporada. Só que o sucesso tem um problema — a escala. O que é ótimo no Bolton é medíocre em clubes de peito feito, mas “Big Sam”, com um ego tão grande como o corpo que o aguenta, quer mais.

Vai para o Newcastle, clube onde apenas se esperam vitórias e caçadas a títulos. É despedido ao fim da primeira época, não por fracassar, mas por ser maçador. O futebol é sonolento e puxa pelo descontentamento dos adeptos. Três anos volvidos de mediania no Blackburn Rovers, vai para o West Ham, que devolve à Premier League, e com o qual chega a entusiasmar. Até que estes deixam de ser bons o suficiente para impedir que lhe deem o cromo repetido — volta a ser despedido porque o estilo dá mais sono do que a nossa posição preferida no sofá da sala.

De repente, estamos em 2016 quando o nosso “Big Sam” é o novo selecionador inglês, depois de salvar o Sunderland de ser despromovido. É aqui que todos perguntamos: como é que isto aconteceu?

Talvez tenha sido pela personagem em que Sam Allardyce se foi tornando. Talvez por andar a pedinchar o lugar há dez anos. Talvez tenha sido por ambas as coisas, que levaram quem manda a acreditar na bazófia. Em 2006: “Não perdi a esperança, qualquer coisa que tenha que ver com o cargo de selecionador inglês é extremamente positivo”, afirmou, dizendo estar incluído numa lista de quatro candidatos. Em 2008: “Se calhar a minha imagem não é do agrado de toda a gente e um ou dois parecem não gostar de mim”. Em 2012: “Odeio perceções. Chateia-me ter de lembrar às pessoas o que eu já fiz, porque és classificado como arrogante se falas muito nisso. O jogo direto, a eterna conversa das bolas longas, é tudo treta. Isso nunca fez parte de quem eu sou”. Em 2015: “Não fui feito para o Bolton ou Blackburn, fui mais para o Inter de Milão ou o Real Madrid. Não teria problemas em treiná-los.” Outra vez em 2015: “Não acho que ainda haja um treinador mais sofisticado que eu. Nesta altura, sou tão bom como qualquer outro.” O ego é maior do que ele. A ganância também.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 1 de outubro de 2016