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Bernardo Júnior, o homem a quem a Red Bull deu realmente asas

Bernardo Júnior tem 21 anos, é brasileiro, canhoto e parece ser bom de bola, mas não é isto que nos levou a falar com ele. Foi mais o facto de ser o primeiro jogador a representar, consecutivamente, três clubes da mesma empresa, a Red Bull. Agora está no Leipzig, a equipa mais odiada da Bundesliga, e diz que “há chingamento em todos os jogos”

Diogo Pombo

ODD ANDERSEN

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É preciso um valente trampolim para se pular da terceira divisão brasileira para o principal campeonato da Áustria. É do dia para a noite, em tudo. Neste caso, não terá sido preciso um olheiro com um toque de Midas nos olhos para detetar Bernardo Júnior. Ele estava nas catacumbas do futebol brasileiro, só que jogava no melhor sítio para se estar nessa situação – no clube que é da empresa que tem outros três clubes. A Red Bull tirou-o de São Paulo, deu-lhe asas até Salzburgo e, quando os austríacos falharam a qualificação para a Liga dos Campeões, em agosto, colocou-o em Leipzig.

O brasileiro é agora o canhoto que joga a lateral direito na equipa mais odiada da Bundesliga. Ele diz-nos que sente “o chingamento” em todos os jogos, porque os alemães não gostam de empresas a tomar conta de clubes, apesar de haverem uns quantos que funcionam assim há anos. Mesmo a ler e ouvir críticas, protestos, tarjas e cânticos, Bernardo Júnior acha que isto é bom, porque dará mais competitividade ao futebol germânico. Mesmo que esteja a custar um pouco para que toda a gente se habitue à ideia - “Sabem que daqui a alguns anos o Leipzig pode tornar-se numa potência, para bater de frente com eles. Por isso eles têm essa preocupação”.

P.S. A Red Bull ainda tem mais dois clubes, em Nova Iorque e em Sogakope, no Gana. Vamos ver se Bernardo não acaba por jogar em todos.

Podes resumir a tua aventura no futebol, até chegares ao Leipzig?
Bom, eu comecei no Brasil, no Coritiba. Daí fui para o Ponte Preta, onde depois fui emprestado ao Red Bull Brasil. Aí joguei na terceira divisão do campeonato brasileiro e o Red Bull Salzburg gostou de mim. Compraram-me ao Ponte Preta. Fiquei uns oito meses na Áustria e, depois, vim para aqui, para o Reb Bull Leipzig. No fim, acabei por passar pelos três.

Exato. Sabias que és o primeiro a ter jogado nos três clubes, assim de seguida?
Sim, é curioso. Até brinco com o pessoal, dizendo que daqui a uns anos ainda posso ir para Nova Iorque!

E depois falta o Gana.
É verdade [ri-se].

Mas como foi o processo quando teve de trocar de clube?
Bom, então, do Red Bull Brasil para o Salzburgo foi a mudança mais difícil. Vi no clube uma oportunidade de jogar numa competição europeia, numa liga maior, e dar um passo em frente na minha carreira. Depois, para o Leipzig, já foi tranquilo. Era o que eu queria, jogar num campeonato mais competitivo.

Não é estranho jogar por três clubes que pertencem à mesma empresa?
Acho que não, até é mais fácil. Os clubes têm uma mentalidade muito parecida: no trabalho sério, no estilo de jogo, na pressão, no toque de bola. Isso facilitou. Quando cheguei ao Salzburgo comecei a jogar muito rápido. No Leipzig também. Acho que facilitou a minha adaptação.

Nunca sentiste que pertences a uma empresa em vez de pertenceres a um clube?
Não, porque, no fim das contas, a escolha sempre foi minha. Se a empresa determinar que tenho de ir para outro clube e eu não pudesse fazer nada, aí sim, teria outro pensamento. Mas eles apenas me deram uma oportunidade e eu tive de dizer ou sim, ou não. Encarei tudo como uma mudança de clube, sempre.

Agora, na Alemanha, parece estar na moda que os adeptos de outras equipas odeiem o Leipzig, certo?
Sim, sim, há protesto e chingamento em todos os jogos. É o time da moda. Tem um patrocinador forte por trás e os outros clubes, que se consideram tradicionais, sabem que daqui a alguns anos o Leipzig pode tornar-se numa potência, para bater de frente com eles. Por isso eles têm essa preocupação. Mas eu não vejo isso como um problema. Há outros times na Bundesliga que têm apoios de empresas: como o Hoffenheim, o Wolfsburgo, o Bayern de Munique, todos eles são apoiados.

Porque achas que a mesma coisa não acontece com esses clubes?
Acho que vai ser assim durante o primeiro. Eles vão mesmo encher o saco. Acredito que, nos próximos anos, quando se acostumarem à ideia, vão parar com isso. Esses times tiveram e têm apoio, mas são clubes com 80 anos, já existem há muito tempo. Já é algo normal. Mas nós, por sermos um clube novo, somos vistos de forma negativa.

SEBASTIAN WILLNOW

Acontecia o mesmo na Áustria e no Brasil?
No Brasil não, porque era um time que não oferecia muito risco, é um clube pequeno. Mas na Áustria sim, por ser um campeão nacional. O Salzburgo é um clube com 10 anos que tem oito títulos nacionais, é muito. Eles chegaram e acabaram com tudo.

Sentes os assobios e a aversão quando estás em campo, durante os jogos?
Sim, eles chingam e você percebe. Há faixas no estádio e ouvem-se músicas sobre o tema. Mas, quando você está jogando, não ouve nada. Tanto é que o Salzburgo foi oito vezes campeão nacional. Mas sim, claro que se percebe. Mas eu penso assim: se fizer as coisas de maneira correta e limpa, mesmo com um grande patrocinador, isso é bom para o futebol.

Porque o Leipzig vai tornar a Bundesliga mais competitiva?
Isso, concordo.

O que achas da política do clube de só contratar jogadores até aos 24 anos?
É muito interessante. Primeiro, você não gasta dinheiro em jogadores mais velhos que não te vão render nada no futuro. Um clube como o Leipzig, que ainda não é uma equipa grande, tem de pegar nos jogadores quando eles são novos para fazer um time de alto nível. E, com toda a estrutura que têm aqui - alimentação, academia, treino e tudo o que você imaginar -, vai conseguir formar uma boa equipa. É ideia mais inteligente e, também, a mais barata.

E os adeptos do Leipzig?
Sinceramente, fiquei surpreso. Não imaginava que a torcida aqui fosse tão fanática. Porque acho que o Leipzig é o primeiro clube da Alemanha de Leste a estar na primeira divisão, em muito tempo. Estão muito empolgados. Então, toda a região está apoiando o clube. Em casa, como são a maioria, não dá para notar o chingamento. Mas, fora de casa, vão ter conviver com isso, pelo menos durante a primeira temporada.

Há muitos anos, o teu pai jogou no Bayern de Munique [em 1990/91, de seu nome Bernardo Silva]. Pediste-lhe conselhos?
Sim, já quando fui para a Áustria falei com ele, porque são culturas parecidas. Quando o meu pai veio para a Alemanha, ele teve algumas dificuldades. Antigamente, os alemães eram um povo muito mais fechado, muitas vezes viam o estrangeiro como um concorrente e não como um colega de equipa, entende? Ou seja, muita coisa que o meu pai viveu no passado eu não vivi aqui. Somos todos muito amigos, as pessoas são generosas e o ambiente é muito, muito bom. Não tenho nada a reclamar do povo alemão, só tenho a agradecer.

Já falas alemão?
Cara, eu entendo bastante, mas é muito difícil. Não tem nada a ver com o português. Mas falo um bom inglês.

O que esperas que o Leipzig faça esta época?
O nosso primeiro objetivo é ficar na Bundesliga, acho que isso é muito importante. Mas, depois de algumas rodadas, e com a forma como o time vem jogando, podemos pensar em algo um pouco maior. Com calma, é lógico. Talvez pensar em ficar na parte de cima da tabela, isso seria ótimo. Daí para cima será maravilhoso.

E chegar à seleção brasileira?
Ah, é o meu objetivo. Sou novo, tenho 21 anos. Se vou chegar ou não, não sei, mas vou trabalhar ao máximo.

Muita gente diz que és parecido com o Luiz Gustavo, que já lá foi muitas vezes.
É, na Áustria joguei muito de volante. Aqui estou a jogar improvisado, como lateral direito. Mas sim, vejo algumas semelhanças entre nós. O porte físico é parecido, a entrega na marcação, na parte defensiva, também.

Mas tu és canhoto e jogas na direita?
Pois, é muito raro, não é? A gente até vê o pé direito na esquerda, mas o contrário é difícil.

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