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As chuteiras de que Guardiola gosta são hoje raras por causa deste senhor

O treinador do Manchester City decidiu proibir todos os jogadores das escolas do clube, com menos de 18 anos, a usarem chuteiras que não sejam pretas. Pep Guardiola é um tipo à antiga e não deverá gostar muito do jogador que, há muitos anos, começou com a moda de calçar botas às cores

Diogo Pombo

Alan Ball, campeão do mundo pela Inglaterra em 1966, foi o primeiro a calçar umas chuteiras brancas e a jogar à bola com elas (o problema é arranjar uma imagem desse encontro).

Allsport UK /Allsport

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Havia um tempo, há muito, muito tempo, em que era indiferente a televisão ter apenas o preto e o branco. A bola era sempre da mesma cor, pálida como cal, e distinguia-se bem. Os equipamentos que cobriam o corpo dos jogadores, pronto, eram um problema, mas o resto, que é como quem diz, o que tapava os pés, não. No tempo dos Pelés, Eusébios, Garrinchas, Puskás ou Di Stéfanos, o preto era a cor das chuteiras. Não era fetiche, era o normal, porque do tempo em que os ingleses inventaram o futebol até 1970, ninguém perdeu muito tempo a pensar em associar moda ao que os jogadores calçavam.

Pep Guardiola devia gostar desses tempos. Os jogadores davam nas vistas pelo que jogavam, pelos golos, dribles, passes e tudo o mais que inventassem. Enquanto jogou à bola, o treinador do Manchester nunca teve algo de muito reluzente nos pés e, talvez por isso, acha que os miúdos de hoje em dia não se devem preocupar com o aspeto do que calçam.

O espanhol, que chegou há meses ao Manchester City, decidiu proibir os jogadores da formação do clube a usarem chuteiras que não sejam pretas. Acabou-se a liberdade de escolha nos pés, o que hoje pode ser uma coisa grave.

Basta ir a uma loja e ver como é tão difícil encontrar um modelo de chuteira de cor não berrante, como conseguir uma entrevista com Guardiola para lhe perguntar o porquê desta decisão. É mais fácil ir à procura do “quando”, do “onde” e do “como” que deram cabo das botas negras.

Quando tudo mudou

Em 1970, o futebol ainda girava muito em torno dos ingleses. Quatro anos antes tinham conquistado o Mundial e, nessa década, quatro edições da Taça dos Clubes Campeões Europeus ficariam no país (já agora, ganhas pelo Liverpool e o Nottingham Forest). As marcas desportivas, que ainda estavam a sair da casca, a apostarem em algum lado, seria ali, onde os estádios estavam sempre à pinha, as pessoas eram loucas por futebol e ainda era barato assistir aos jogos.

A Hummel, que é uma marca alemã, teve uma ideia. Queria causar impacto, meter-se nas bocas dos adeptos e dos jogadores, e olhou para as chuteiras. Eram todas pretas e não havia quem as tivesse de outra cor. A empresa tinha acabado de chegar ao mercado inglês. Quis causar impacto e contratou Brian Hewitt, um empresário que já tinha trabalhado uns anos na Slazenger, outra empresa de produtos desportivos. A ideia era tornar conhecidas as chuteiras da Hummel.

Alan Ball aceitou, porque não tinha nada a perder e muito a ganhar com as 2 mil libras que a marca lhe iria pagar. A Hummel planeou tudo para o jogador usar as chuteiras, pela primeira vez, na Charity Shield, a Supertaça de Inglaterra, no arranque da época 1970-71.

Os alemães enviaram as botas, mas houve um problema. “Para ser honesto, eram uma porcaria, pareciam de cartão. Por isso arranjei alguém que pintasse as minhas chuteiras da Adidas de branco. Correu tudo bem, até ao dia em que choveu e o preto voltou a aparecer. Um representante da Hummel viu, não ficou contente e tive de dizer adeus às duas mil libras”, contou Alan Ball.

Não terá sido bem assim. Há uns anos, numa entrevista, Brian Hewitt revelou que as chuteiras apenas chegaram a Ball mesmo em cima da hora do jogo. “Pegámos nas chuteiras da Adidas do Alan, pintámo-las com spray não sei quantas vezes, depois colámos o logótipo da Hummel. No sábado, dia de jogo, tivemos de levá-las de comboio até ao estádio, chegaram-lhe minutos antes do jogo”, revelou o empresário. E Alan Ball entrou em campo com elas e, por várias vezes, o comentador televisivo mencionou esse facto. Na segunda-feira, a Hummel recebeu milhares de telefonemas.

As pessoas queriam umas chuteiras brancas.

Hoje até já é uma sorte se as quiserem apenas dessa cor. Os anos foram galgando e o próprio Alan Ball deixaria de usar as tais chuteiras. Depois, a antipatia pelo preto adormeceu pouco, ficando sonolenta até, mais ou menos, a década de 90. Aí, as marcas acordaram e começaram a experimentar as mais diversas cores nas botas.

E a misturá-las, sem pudores, até ao ponto de parecer proibido desenhar chuteiras de uma só cor. Agora, aliás, as marcas têm modelos que publicitam como sendo apropriadas para certos jogadores, certos estilos de jogo - umas mais leves para os mais rápidos, que jogam a extremo; outras mais robustas e com áreas reforçadas no peito do pé, para os médios. Cada vez há mais variedade, cor e estilo. Pep Guardiola já não deve poder com isto tudo.