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Uma semana na vida de Mauro Icardi, o homem mais controverso de Milão

O avançado argentino meteu-se com os ultras do Inter na sua autobiografia e o clube tomou as dores dos adeptos. Vai continuar a ser capitão, mas não escapou a uma multa. O livro, esse, terá de ser modificado. Mas a última semana trouxe outras polémicas para Icardi, uma estrela mal-amada, a quem ninguém perdoou uma traição a um colega de profissão

Lídia Paralta Gomes

MARCO BERTORELLO/Getty

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Ibrahimovic há muito que não mora ali. Mario Balotelli, idem aspas. Mas não se preocupem, vocês que gostam de um pouco de rebeldia no futebol. Há um novo rei das controvérsias no Inter de Milão: Mauro Icardi. E se existir um limite para o número de polémicas em que nos podemos ver envolvidos numa semana, o argentino deve ter batido algum tipo de recorde nos últimos dias.

A última obrigou o clube milanês a convocar para esta segunda-feira uma reunião de emergência para discutir o futuro do jogador de 23 anos no Giuseppe Meazza. Em cima da mesa estava a possibilidade de Icardi perder a braçadeira de capitão. Tal acabou por não acontecer mas, diz a imprensa italiana, Icardi ouviu das boas.

Tudo à conta do lançamento de uma autobiografia - sim, Icardi publicou uma autobiografia aos 23 anos - em que o avançado chama a si o estatuto de “herói” e de homem de coragem, depois de, supostamente, ter enfrentado os ultras do Inter num jogo fora na última temporada, contra o Sassuolo, que o Inter perdeu por 3-1.

Numa das passagens do livro, Icardi relata essa nervosa tarde de fevereiro em que no fim do jogo tentou dar a sua camisola a um jovem adepto. Um membro da Curva Nord mais chateado com nova exibição pobre do Inter terá então arrancado a camisola da mão do miúdo, atirando-a ao jogador. Icardi, diz, não gostou e lançou uns quantos nomes feios para a bancada. “Comecei a insultá-lo. ‘Seu idiota, fazes isso em frente a uma criança só para te mostrares à Curva. Devias ter vergonha’”, pode ler-se na biografia.

A prosa melhora e Icardi garante que ameaçou os adeptos de forma bem direta e expressiva: “Estou preparado para os enfrentar, um por um. Eles não devem saber que cresci num dos bairros mais perigosos da América do Sul. As pessoas são mortas na rua. Quantos são? Cinquenta? Cem? Duzentos? Digam-lhes isto: vou trazer 100 criminosos da Argentina que os matam no momento”.

A Curva Nord não perdoou Icardi

A Curva Nord não perdoou Icardi

Pier Marco Tacca/Getty

A Curva Nord reagiu, acusando o jogador de inventar uma boa história só para vender mais uns quantos livros. Na manhã de domingo, em comunicado, a claque exigiu que o jogador renunciasse à braçadeira de capitão, voltando à carga mais tarde, quando o Inter enfrentava o Cagliari em San Siro. “Usar uma criança para se justificar e atirar-nos porcaria à cara.... Não és um homem, não és um capitão, és uma merda”, lia-se numa tarja colocada na bancada norte.

Enquanto isso, em frente à casa do argentino, nova tarja ameaçadora: “Estamos aqui. Avisas-nos quando chegarem os teus amigos argentinos?”. E para mal dos pecados de Icardi, a direção do Inter tomou as dores dos adeptos. “Vamos tomar medidas. Para nós os adeptos são o mais importante e todos devemos respeitá-los. Não podemos aceitar um comportamento destes vindo de um jogador do Inter. Cada pessoa deve saber como se comportar”, disse o antigo jogador e agora vice-presidente do clube, Javier Zanetti.

O Inter não perdeu tempo e esta segunda-feira chegou a sentença para Icardi. Ao fim de 70 minutos de discussão com Zanetti, com o diretor desportivo Piero Ausilio e com o administrador Giovanni Gardini, Icardi saiu da sala ainda capitão, mas de bolsos um pouco mais vazios. É que além de uma pesada multa, cujo valor não foi revelado pelo clube, Icardi acordou que a autobiografia seja relançada sem o capítulo da discórdia.

Alvo de Maradona e da máfia

Mauro Icardi nunca foi exatamente bem-amado em Itália ou na Argentina, ele que tem apenas uma internacionalização pela seleção A do seu país, apesar de ser uma das estrelas da Serie A.

É preciso recuar até 2013, quando o argentino partilhava o balneário com o compatriota Maxi López, para entender a razão. Recém-chegado à equipa principal da Sampdoria, Icardi foi acolhido por López e pela mulher deste, Wanda Nara. Mauro e Wanda acabariam por se apaixonar e, nisto do futebol, estas traições não se perdoam.

No início da última semana, na apresentação do Jogo pela Paz, em Roma, Diego Maradona atirou-se forte e feio a Icardi, que não foi convidado para jogar. “Não falo de traidores. Icardi não tem lugar neste jogo”, disse. Responder a Deus não foi um problema para Icardi: “Falamos de uma pessoa que não é um exemplo para ninguém”.

Ainda durante a última semana, a imprensa argentina garantiu que Icardi é persona non grata na seleção porque Lionel Messi não o quer no balneário. Messi é amigo de Maxi López e, dizem na Argentina, quer distância do avançado do Inter. E para compôr o ramalhete da semana mais conturbada da vida de Mauro Icardi, o jornalista argentino Carlos Monti revelou ainda que a máfia siciliana propôs a Maxi López “cortar as pernas” ao homem que lhe roubou a mulher. López terá, delicadamente, declinado o favor.