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Não subestime Mino Raiola, porque isso vai sair-lhe caro

Quem é o excêntrico agente de Pogba que comprou um McDonald's aos 19, virou as costas ao presidente da Juve e convenceu Ibrahímovic de que iria ser um dos melhores do mundo?

Diogo Pombo

VALERY HACHE

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Mesmo que descontraído, o sítio, um restaurante japonês, era o palco para uma reunião de negócios. Ele, um miúdo, a começar a aventura dos vinte, aperaltou-se. A camisa tapou-lhe o tronco, o casaco adornou a camisa e fechou o embrulho formal com uma gravata. O jogador, pequeno em idade e grande em tamanho, com poucos meses contados em Amesterdão, viu a forma como o outro tipo chegou quase como uma afronta - calças largas, uma t-shirt sem vincos, esticada sobre a pança, com a aparência informal de quem vestiu algo à pressa, para ir ao café da esquina buscar o pequeno-almoço.

“E quem apareceu? Um tipo de calças de ganga e t-shirt da Nike – e aquela barriga, parecia um dos personagens dos Sopranos.”

A descrição, direta e com piada, é de alguém de quem já esperamos que fale assim das pessoas. É de Zlatan Ibrahimovic, o avançado nascido na Suécia, com sangue croata e bósnio na guelra, que lhe tirou todos os filtros, lhe baixou a temperatura de fervura e um dia se encontrou com um empresário. Nesse dia, enquanto devorava o que a cozinha japonesa lhe punha à frente, deixou-se de panos quentes e falou com Zlatan como imaginamos que o sueco não gosta de ser falado: de forma crua, a dizer-lhe o que pensava e a mandá-lo abaixo.

Disse-lhe que estava a jogar de menos, aquém do que ele podia dar. “Queres ser o melhor do mundo? Ou o jogador que ganha mais e pode exibir-se com mais coisas?”, perguntou-lhe, depois. Mas o jogador de ego gigante, feitio peculiar e de difícil trato, como dizem, gostou do que ouviu.

Tão impressionado ficou que, horas depois do encontro, ligou ao tal empresário e pediu-lhe para ser o seu agente. “Ok, mas se vais trabalhar comigo tens de fazer tudo que eu te digo. Vende os teus carros, os teus relógios, e começa a treinar três vezes mais. Porque as tuas estatísticas são uma treta”, disse-lhe o tal agente pançudo, descontraído e averso a vestimentas formais.

O agente era Mino Raiola.

AFP/Getty Images

E esta história é uma de várias que ele, ainda gordo, melhor amigo de calças de ganga e t-shirts, contou a Simon Kuper, jornalista do Financial Times que foi a Haarlem, na Holanda, para o entrevistar. A conversa que eles tiveram é importante por Mino Raiola ser quem é – o agente de futebol que, a par de Jorge Mendes, consegue ser uma espécie de manda-chuva das transferências que mexem com mais dinheiro no futebol europeu. E porque a entrevista, com episódios como o de Ibrahimovic, nos mostra coisas que ajudam a perceber quem é o empresário que negociou os 105 milhões de euros que o Manchester United pagou à Juventus, no verão, para ter Paul Pogba.

Raiola levou o jornalista a passear pela cidade, a mais ou menos 15 quilómetros de Amesterdão, para onde os pais, italianos, emigraram há décadas e levaram o pequeno Mino com eles. Nado em Itália e crescido na Holanda, ele aprendeu a dominar as duas línguas, aptidão que lhe serviu logo em adolescente, a resolver quezílias e problemas na pizzaria da família. Falava muito, falava rápido, tinha lábia para agradar a todos e aos clientes, a quem arranjava menus personalizados ou servia de almofada para amparar os desabafos.

Ele mexeu-se, de tal maneira que ajudou a família a ter 11 restaurantes. Falava com os fornecedores, fez-se importante no negócio, ganhou dinheiro. Tanto que, aos 19 anos, comprou um restaurante da McDonald’s com os milhões que já tinha na conta bancária. Em 1992, fundou a Intermezzo, uma empresa que a cara de Raiola e a ponte que ele queria ser entre Itália e Holanda.

Logo nesse ano, ajudou Bryan Roy, um extremo com pouco nome, a transferir-se do Ajax para o Foggia. Viveu sete meses com ele, na mesma casa, e foi aí que começou a perceber como funcionava o futebol e as pessoas que o faziam mexer.

Mino não gostou de quase nada. Viu como os clubes estavam cheios de gente que outrora jogava com a bola e agora trabalhava com números e dinheiro sem o saber. Pessoas com cargos administrativos e financeiros só por terem história como jogadores. “Não me impressionou, de maneira alguma. O incesto torna o mundo mais fraco. É estúpido, porque eles querem torná-lo [o futebol] estúpido. É um mundo fechado, com um potencial gigante e um enorme retorno de dinheiro, mas que é muitas vezes gerido por pessoas de quem penso: What the f***?”, confessou, sobre o meio onde hoje se mexe como poucos.

Não pelos milhões de euros que ganha ou faz movimentar, mas talvez pela maneira como trata as pessoas.

PACO SERINELLI

Raiola, conta ele, é mais do que amigo dos jogadores que representa. Trata-os como família. É por isso, explica, que não tem muitos em carteira, para que consiga ter uma relação próxima e um tratamento especial com cada um. Não tem a sede num escritório pomposo, rico em glamour ou espalhafato, mas numa sala que mais parece uma cozinha, simples e familiar, com uma televisão grande ao canto, na qual está sempre a passar futebol. “Inconscientemente, sim, trato-os como família. Até me arrepio só de pensar nisso. Tento sempre formular um objetivo com cada jogador. Não vamos estar sentados, à espera do que o vento traga”, resume.

Descreve-se como afável, preocupado e lutador pelo bem-estar dos jogadores. Como também o pintou Rody Turpijn, um holandês que se retirou aos 25 anos, mas que, na década de 90, num hotel à beira da auto-estrada, viu Raiola a bater o pé por mundos, fundos, cláusulas e valores com o presidente do De Graafschap, que pretendia comprá-lo ao Ajax. “O contrato assegurou, de longe, o meu futuro, não só durante os quatro anos que lá iria jogar, mas praticamente para o resto da minha vida”, garantiu o antigo jogador, na sua autobiografia.

No tal encontro, o empresário chegou a levantar-se, dizer que se ia embora e criticar os valores propostos, apesar de o que estava a ser inicialmente oferecido ser superior ao que Turpijn auferia no Ajax.

O que, em suma, chega para perceber como é Mino Raiola – incansável, amigo e protetor dos jogadores, irascível e pouco dado a confianças com dirigentes de clubes.

Começou a sê-lo bem no início. Não tinha medos, papas na língua ou fazia cerimónias forçadas. No início dos anos 90, quando começou a palmilhar terreno em Itália, conseguiu marcar um encontro com Luciano Moggi, então ainda diretor desportivo do Torino, antes de ser presidente da Juventus, de ligar a árbitros antes dos jogos e de custar uma liga italiana à Juventus, por corrupção.

Raiola, que é um tipo pontual ao ponto de chegar antes da hora, não gostou de esperar por Moggi mais do que 15 minutos. Foi falar com a secretária, disse-lhe que se ia embora e pediu-lhe para informar o dirigente.

Duas horas depois, encontrou-o num restaurante e, pela entrevista ao Financial Times, disse-lhe o seguinte: “Você é o sr. Moggi? Achei muito rude ter-me feito esperar”. O futuro presidente da Juventus perguntou-lhe quem ele era e respondeu-lhe: “Se és tão desagradável comigo, nunca vais vender um jogador em Itália”.

Anos passaram, Raiola descobriu uma pérola chamada Nedved, fê-la brilhar na Lazio e chegou o dia em que Moggi quis levá-lo para a Juve. O telefone do empresário tocou, marcaram um encontro e avisou o dirigente que, se chegasse mais do que 10 minutos atrasado, o preço do checo duplicaria. Moggi atrasou-se, Raiola foi-se embora e Nedved transferiu-se para a Juventus, sim, por 41 milhões de euros.

Michael Steele

Amigo de quem representa e hostil com quem negocia, claro que Mino Raiola arranjaria pessoas que não gostassem dele.

Como Alex Ferguson, treinador do Manchester United a quem, um dia, disse que “nem os dois chihuahuas” assinariam o contrato que o clube ofereceu a um adolescente Paul Pogba. É por isso, explicar, que se veste com o mais informal que tiver no armário – para que o subestimem.

Ou como Pep Guardiola, que reconhece como “um grande treinador”, mas critica como pessoa, pela forma como tratou Ibrahimovic na época que o avançado passou no Barcelona.

Raiola gaba-se de ter olho para prever o que aí vem e adivinhar tendências antes de elas estarem na moda. Diz ter previsto o calvário do futebol italiano, esforçando-se para convencer um “relutante” Zlatan a deixar o AC Milan, clube ao qual dizia “que não iam aguentar salários daqueles durante muitos mais anos”, para jogar no PSG. Mas martiriza-se por não ter conseguido manter Mario Balotelli, o cliente que mais lhe faz doer a cabeça – há semanas, teve um acidente com o seu Bentley, que tinha apostado caso marcasse na estreia pelo Nice –, no Manchester City. “Conscientemente ou não, o Balotelli escolheu não colocar o futebol no centro da sua vida. Por isso, sempre houve fenómenos marginais a influenciar as duas prestações”, resume, sobre o avançado italiano.

O agente que, em carteira, tem jogadores que, juntos, valem perto de 280 milhões de euros, admite que recolhe “mais ou menos” 10% do salário de cada um deles. Fora as percentagens que recolhe de cada transferência milionária que negocia. Só com Zlatan já foram muitas, as que fizeram do sueco o segundo jogador que mais dinheiro (131 milhões de euros) já movimentou. Apenas Di María, o argentino que é de Jorge Mendes, o supera. Raiola diz que tudo o que faz "é transparente".

E bem lucrativo, também.