Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Zeca, o português que está quase a ver-se grego: “Gostava de jogar pela Grécia”

A desculpa para falarmos com Zeca era a confusão no campeonato grego, que está suspenso por alguém ter incendiado a casa do chefe da arbitragem. Mas a conversa acabou por ir dar ao processo de naturalização do português que é capitão do Panathinaikos e, qualquer dia, já pode estar a jogar pela seleção da Grécia

Diogo Pombo

Comentários

Dean Mouhtaropoulos

Partilhar

No dia antes, é notícia que, na Grécia, a casa de férias de um senhor chamado Giorgos Bikas é incendiada e não se sabe por quem, nem porquê. O que é bastante grave, porque ele é o chefe da arbitragem no país. O governo e a federação decidem suspender o futebol e toda a gente fica sem jogar até que se descubra mais alguma coisa sobre o caso. Culpa de uns vândalos, portanto, há vários portugueses no meio de tantos futebolistas que ficam limitados a ir aos treinos e ir esperando que este problema se resolva.

Um deles é Zeca. É quem está lá há mais tempo, já lá vão seis anos. É capitão do Panathinaikos, um dos dois maiores clubes na Grécia e, pensamos, a melhor pessoa para nos falar sobre o que se está a passar no país. É verdade, porque, mesmo sem saber muito, Zeca conta o que tem acontecido por lá. Mas a conversa acaba no que se tem passado com ele, que no tal dia anterior está a ser testado, a responder a perguntas sobre a história da Grécia e a mostrar que domina a língua do país onde está há seis anos. Porque ele, o português que fez apenas uma época no Vitória de Setúbal antes de emigrar, está quase, quase a ser um cidadão helénico.

E isto significa que Zeca pode estar bem próximo de jogar pela seleção grega, que é o que ele quer.

Então, o que se passa aí na Grécia?
Bom, também não posso dizer muito. A casa do presidente dos árbitros foi incendiada, mas não ouvi quem o fez ou porque o fez. Não se sabe. Pronto.

Vocês aí no Panathinaikos estão tranquilos?
Estamos bem. Mas em que sentido?

Se estão preocupados com tudo isto.
Claro que é uma situação que não é boa, nem queríamos que acontecesse. A nossa preocupação é o campeonato parar e não podermos, mais uma vez, jogar. Também não sabemos qual foi o motivo de terem posto fogo à casa, se foi pelo futebol ou por outro motivo.

Agora, sem saberem por quanto tempo, só vão poder competir na Liga Europa, no vosso caso.
O que ouvi dizer foi que o próximo jogo, que era dia 20, já foi cancelado. Íamos jogar contra o AEK. Entretanto, o clube não nos disse mais nada.

Isto acontece mais ou menos um ano depois de o campeonato ter sido suspenso devido a violência nos estádios, entre adeptos. Estes problemas nunca te fizeram pensar em sair da Grécia?
Não, nunca me levaram a querer ir para outro lado. Obviamente que não gosto que aconteça, mas aqui, pelos anos que já levo aqui e pelo que já ouvi, isso já é habitual há vários anos.

Já tiveste medo?
Nunca senti receio, dentro ou fora de campo. Claro que há situações, quando os adeptos nos vêm confrontar com os maus resultados, em que não senti receio, só que é mais complicado. Mas nunca senti insegurança.

Aconteceu-te muitas vezes, lidar assim com os adeptos?
Sim, várias vezes. Os adeptos vêm pedir justificações, mas nunca estiveram perto de partir para a agressão ou fazerem alguma coisa a um jogador. Vêm e falam do descontentamento deles, o que é normal quando a equipa não está a ganhar. Mas não chegam ao ponto em que nós possamos sentir medo. Ao início, quando cheguei, claro que foi estranho ver como os adeptos iam aos treinos para falarem connosco. Aí claro, a primeira reação foi, epá, estava com um bocado de receio, não sabia o que podia acontecer. Mas, como sempre fizeram até hoje, falaram e disseram o que sentiam, só isso.

Ainda por cima hoje és capitão, tens de dar a cara.
Sim, agora tenho de ser dos primeiros e dar mais o corpo às balas, falar com os adeptos e dar-lhes as explicações que eles querem e precisam. Mas há sempre respeito da parte deles.

CHRISTINE OLSSON

E como está o teu grego? Percebes o que eles te dizem?
Sim, quase tudo. Se calhar, numa conversa de uma hora, não entendo umas cinco ou seis palavras, mas com o contexto da conversa já se entende.

Já não ficas nervoso em conferências de imprensa?
Por acaso, aí só falei uma vez em grego. Não falo em grego para a televisão.

Porquê?
Bom, tenho aquele receio de errar ou dizer alguma coisa que não possa corrigir. Posso-me atrapalhar. Então, para a mensagem sair clara e não me enganar naquilo que quero dizer, para depois os jornais também não me interpretarem de maneira diferente, cuido-me um bocado mais. Mas, a partir de agora, vou passar a falar tudo em grego.

Porque estás a fazer o teu processo de naturalização, não é?
Sim, sim.

Já acabou?
Fiz o teste ontem [quarta-feira], em que tive de mostrar que sabia falar grego e sabia a história do país, a geografia e a política. Penso que correu tudo bem. Agora falta dar o resto do andamento aos papéis, ainda restam mais umas burocracias. Está tudo bem encaminhado.

Foi estranho fazer um teste desses?
Sim, foi, e estava nervoso, as pessoas sentiram isso. Mas, como sou estrangeiro, eles compreenderam. Estava a falar das coisas do país deles, sobre história, por exemplo. Eu nem sei a história toda de Portugal, não é? A da Grécia, então, é mais rica ainda. Por isso estava nervoso. Mas as pessoas puseram-me à vontade, falaram comigo e deram-me tempo para eu pensar e dar as respostas. Mas o importante era verem que eu conseguia falar grego.

Não ligaste ao Fernando Santos a pedir dicas e conselhos?
[Ri-se]. Não, até porque nunca falei com o engenheiro Fernando Santos. Até hoje, não tive qualquer tipo de contacto com ele. Mas as pessoas do clube também já me tinham preparado bem. Tive uma professora durante duas semanas, para treinar e saber as coisas da história da Grécia. Eu não sabia e não bastava ler só na internet. Estava bem preparado.

O próximo passo é jogares pela seleção grega?
Sim, é esse o meu desejo também. Depois, é uma questão do selecionador.

Imaginas-te a jogar por eles?
Já pensei muitas vezes que isso pode ser possível. Penso que é uma coisa que vai acontecer e que eu gostava que acontecesse.

Como é que os teus amigos e companheiros gregos têm reagido a isso?
Os meus colegas de equipa dão-me os parabéns, dizem que é uma coisa boa. Antes de fazer a naturalização já me diziam que eu era grego. O único que brinca mais comigo é o Nuno Reis. Às vezes estamos todos a falar sobre alguma coisa dos portugueses e ele diz, na brincadeira: “Não, o Zeca é grego, o Zeca não é português. O português aqui sou eu”. Este é o meu sexto ano na Grécia, já aqui estou há muito tempo.

O grego já te atrapalha o português?
Um bocado, quando falo em português, penso em grego. Às vezes tenho de parar e pensar aquilo que vou dizer. Às vezes não me vem. O meu dia a dia já é mesmo em grego.