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Julian Nagelsmann, o talentoso técnico que ainda pode usar Cartão Jovem

Tem 29 anos e é um dos três treinadores que esta temporada ainda não sabe o que é perder na Bundesliga. Apelidado de “Mini Mourinho”, Julian Nagelsmann chegou ao Hoffenheim a meio da época passada, conseguiu salvar o clube da descida de divisão e agora segue em 3º na tabela, a apenas quatro pontos do Bayern Munique

Lídia Paralta Gomes

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Miúdo mas pouco: aos 29 anos, Julian Nagelsmann é o treinador mais jovem de sempre da Bundesliga e ainda não perdeu esta temporada para o campeonato

DANIEL ROLAND/AFP/Getty

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O Bayern é o Bayern, o RB Leipzig é giro porque subiu este ano e tem a Red Bull atrás, mas sabe quem vai em terceiro na Bundesliga? O Hoffenheim. Sim, nós sabemos, isto por si só vale pouco. Afinal, o clube do sudoeste alemão até já foi notícia na viragem do século, quando andou na frente da tabela uma catrefada de jornadas, durante a época de estreia no principal escalão, em 2008/09. E daí para cá manteve-se sempre entre os gigantes.

Mas se lhe contarmos que o treinador do Hoffenheim, uma das três equipas que ainda não perderam esta época na Bundesliga, ainda pode usar Cartão Jovem? True story.

Julian Nagelsmann tem 29 anos e é o homem (ou o jovem) de quem se fala, o miúdo que colocou uma equipa de jogadores de classe média mas cheios de raça a jogar de peito feito em casa dos melhores. O puto que disse não ao Bayern Munique, que diz ter as melhores ideias “de manhã, na casa de banho” e que voltou a trazer um “cheirinho de Champions”, como escreveu a Kicker, a uma terriola com três mil e quinhentos habitantes.

Ninguém estava propriamente de olho em Nagelsmann até o Hoffenheim roubar um empate ao Bayern em plena Allianz Arena, na última jornada da liga alemã, antes da paragem para as seleções. Ainda assim, a sua precocidade é notícia pelo menos desde o ano passado. Em outubro, o Hoffenheim anunciou que o técnico campeão nacional com a equipa sub-19 em 2014 saltaria para a equipa principal no início da época 2016/17. Nagelsmann soube logo ali que teria de esperar uns meses para se tornar no mais jovem treinador principal da história da Bundesliga.

O que nem ele - nem ninguém - estaria à espera era que o recorde fosse batido bem mais cedo que o previsto.

Em fevereiro, o Hoffenheim penava na zona de descida da Bundesliga, com a salvação já a 5 pontos de distância, quando o coração do técnico Huub Stevens deu de si. O holandês percebeu que era hora de parar e pediu para sair. E como para grandes males, grandes remédios (ou ‘perdido por cem, perdido por mil’, é escolher), o Hoffenheim decidiu atirar desde logo Nagelsmann aos leões.

Na última época, Nagelsmann ajudou a salvar o Hoffenheim da descida

Na última época, Nagelsmann ajudou a salvar o Hoffenheim da descida

UWE ANSPACH/AFP/Getty

Resultado? O Hoffenheim não só se salvou da descida, ganhando sete dos 14 jogos que faltavam, como este ano segue em terceiro, a apenas quatro pontos do líder Bayern Munique.

E de repente toda a gente começou a perguntar-se quem é e o que tem este rapaz, que nem sequer era nascido quando Maradona brilhou no Mundial de 86, que é mais novo que 88 jogadores da liga alemã e a quem o antigo guarda-redes tornado lutador de wrestling Tim Wiese (de quem falámos AQUI) colocou a alcunha de ‘Mini Mourinho’, apesar de Nagelsmann ter mais admiração por Arsène Wenger ou Pep Guardiola. Ou por Johan Cruyff, que já só viu em vídeos.

Uma lesão grave, um novo destino

Nagelsmann era um entroncado central de 20 anos, com 1,90m, quando teve de dizer basta. Tinha sido contratado para as reservas do Augsburgo, mas as persistentes lesões nos joelhos não davam para mais: a carreira como jogador profissional tinha acabado.

Quem lhe deu a mão nesse momento complicado foi um tal de Thomas Tuchel, atual treinador do Borussia Dortmund e que então treinava a segunda equipa do Augsburgo. Tuchel deu a Nagelsmann a responsabilidade de observar os adversários e o miúdo fez o trabalho tão bem que em pouco tempo estava a treinar os sub-17 do Munique 1860, clube onde fez a sua formação. Mas a marca de Thomas Tuchel ficou: “Influenciou-me muito. Todos os treinos eram extremamente exigentes. Ele era chato, mas de forma positiva”, admitiu ao portal ‘Der Westen’.

O convite do Hoffenheim surge em 2010: primeiro foi treinador dos sub-17, depois dos sub-19, onde foi campeão nacional em 2014. Pelo meio, em 2013, com apenas 25 anos, foi adjunto de Franz Kramer, técnico interino da equipa principal do Hoffenheim. E recusou um namoro insistente do Bayern Munique, que o queria como treinador dos juniores. Nagelsmann ainda chegou a reunir-se com o presidente Karl-Heinz Rummenigge, com o diretor-desportivo Matthias Sammer e até Pep Guardiola apareceu para dar um olá, mas o jovem preferiu continuar a subir a pulso na equipa de Sinsheim.

Dietmar Hopp, proprietário do Hoffenheim, tem dúvidas que Nagelsmann fique por lá muito mais tempo

Dietmar Hopp, proprietário do Hoffenheim, tem dúvidas que Nagelsmann fique por lá muito mais tempo

UWE ANSPACH/AFP/Getty

Pressão, pressão e mais pressão

Julien Nagelsmann tem cara de miúdo mas já é muito rodado. E não tem cá medos de dizer o que pensa. Em entrevista ao site spox.com disse, por exemplo, que as táticas são sobrevalorizadas. “É uma questão de 5 ou 10 metros estares a jogar em 4-4-2 ou 4-3-2-1”, sublinhou o homem que diz que isto de ser treinador é “30% tática e 70% competências sociais”. Não há nada como adaptar-se às circunstâncias: desde que Nagelsmann chegou ao Hoffenheim que a equipa não tem uma tática definida. Jogar em 4-2-3-1 e no encontro seguinte em 5-4-1? Nagelsmann já o fez.

No vocabulário de Nagelsmann, a palavra mais importante é “pressão”: mais do que jogar bem, o que o técnico exigiu aos jogadores mal chegou foi que anulassem o adversário, pressionando o portador da bola, cortando linhas de passe, controlando os espaços.

“Dou muita importância ao nosso comportamento quando não temos a posse. No futebol de hoje precisas das duas coisas: soluções quando tens a bola e quando não a tens”, revelou.

Para já, a filosofia parece estar a resultar.

Obrigado a crescer

Os números não mentem: desde que Julien Nagelsmann pegou no Hoffenheim, em fevereiro, apenas duas equipas fizeram mais pontos na Bundesliga: Bayern e Borussia Dortmund. Pela Alemanha fora há muito bom treinador enciumado e as alcunhas “puto maravilha” e “bubi” (termo fofinho para designar um pequeno rapaz na Alemanha) não caem particularmente bem ao jovem técnico. “De certeza que não sou um ‘bubi’”, disse ao Frankfurter Allgemeine Zeitung.

E foi à mesma publicação que o treinador se confessou, numa entrevista concedida em outubro. A vida não foi simpática nem fácil para Nagelsmann: no mesmo ano em que deixou de jogar, o pai morreu, obrigando-o a crescer mais depressa.

“Seguramente que tive de crescer mais rápido que muitos outros rapazes. Não tive tempo para ser jovem e despreocupado. Por causa do futebol saí muito cedo de casa e tive de cuidar de mim: cozinhar, fazer as compras, algo que não é muito normal aos 15 anos. Aos 20 anos o meu pai morreu e de repente tive de fazer coisas nada típicas para a idade: vender a casa de família e procurar uma nova casa para a minha mãe. Tudo isto acaba por ajudar-te a perceber o que é essencial e que há mais para lá do futebol. Foram experiências muito difíceis, mas tornaram-me mais forte”, revelou o jovem técnico.

E assim se pode explicar a maturidade de um treinador que promete tomar de assalto a Bundesliga. De tal forma que o dono do Hoffenheim, o magnata da tecnologia e fundador da SAP Dietmar Hopp, já confessou os seus medos: “Tenho dúvidas que fique por cá muito mais tempo. O Hoffenheim vai ser muito pequeno para ele”.

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