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Neno: “O Caio era como o Nené, não sujava os calções”

Neno jogou com Caio Júnior, falecido treinador da Chapecoense, durante duas épocas no Vitória de Guimarães. O antigo guarda-redes português recordou-nos o avançado a quem “Deus deu um dom” e, por o ter, não gostava de correr. Ao ponto de até nas peladinhas, nos treinos, os jogadores discutirem para verem quem ficava com o brasileiro

Diogo Pombo

NELSON ALMEIDA

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"O Caio Júnior, no tempo em que eu jogava à bola, era um jogador fora de série. Ele pensava o jogo. Não era de muita corrida, não corria muito, mas resolvia jogos. Até há aqui uma certa antítese, porque hoje em dia diz-se que todos têm de correr. Mas ele não. Ficava parado, fazia os tais lançamentos, até dizíamos que tinha pezinhos de lã. Era estilo de Nené, tirava o pé dos duelos, mas tinha aquele toque de classe no momentos que mais precisávamos. Fazia a diferença por isso.

Na Supertaça que ganhámos [1988] contra o FC Porto, o Caio fez dois jogos extraordinários. Era um daqueles jogadores que queríamos ter na nossa equipa, mas, ao mesmo tempo, não. Porque ele não corria muito. Até nas peladas que fazíamos entre nós, nos treinos, ninguém o queria escolher. Ele, sem bola, não se mexia, não corria. Mas o golo da vitória, o que decidia tudo, era sempre dele.

Como pessoa, fui amigo, companheiro e até adversário do Caio. Quando fui para o Benfica, até houve um jogo em que, já no fim, houve um livre para o Vitória, que os podia colocar na frente do jogo. Um livre do Caio era meio golo, até pensei nisso. Fiz uma grande defesa a remate dele, ainda me lembro. “Puta que te pariu, porra!”, veio ele dizer-me, depois, na brincadeira, uma expressão muito brasileira.

Como homem, era quem todos gostariam de ter. Dávamo-nos muito. No Vitória, tínhamos muito espírito de grupo e de equipa, era uma coisa diabólica na altura. Confesso que, na altura, fazíamos almoços e jantares praticamente todas as semanas, de forma a cimentar o espírito. O nosso treinador na altura, o Paulo Autuori, também estimulava muito isso.

Éramos muito unidos, todos nós. O Caio fazia parte desse grupo. Ninguém se punha de lado. Em qualquer posição que tomávamos, era o grupo todo que tomava. Bastava um dizer e todos íamos atrás.

Já não falava com ele há uns tempos. Quando fui ao Brasil, o Caio entregou-me um CD, nos primórdios dele como treinador. Um dos sonhos que ele tinha era treinar o Vitória. Era um indivíduo muito ambicioso. No Brasil, fruto do seu trabalho, estava a ter um sucesso tremendo.

Falámos desse possibilidade logo quando ele me deu o CD. O CD continha o currículo dele, dos primeiros anos da carreira como treinador. Nesta altura, falava com o Bené Sobrinho [outro antigo jogador do Vitória, também brasileiro], que também era amicíssimo dele. O Caio estava num sitio e depois ia para o outro, perdi um pouco contacto com ele, o Brasil é muito grande.

O Caio era um jogador fora de série. Dizíamos que o Nené não sujava os calções, e ele também não. Nós davamos-lhe cabo da cabeça. Dizíamos que tinha de comer relva. Ele foi um dos tais a quem Deus deu um dom, e digo mais: só não chegou a um patamar mais elevado porque tinha esse dom e não o quis cultivar. Não trabalhou o talento que Deus lhe deu. Se o tivesse feito, tinha sido muito melhor jogador. Ele tinha essa particularidade."

Neno, antigo guarda-redes do Vitória, coincidiu durante duas épocas (entre 1988 e 1990) com Caio Júnior no clube de Guimarães. Hoje, Neno é relações públicas no clube.