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A certeza errónea de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro

A morte aconteceu-lhes a 30 quilómetros do destino, na Colômbia: 75 morreram, seis sobreviveram (na verdade foram sete, mas um não resistiu aos ferimentos depois de resgatado). Foram 75 tragédias e seis milagres naquele avião que caiu. Quase todo o Chapecoense, equipa de cidade influenciada por índios e italianos e exemplo de rara organização no futebol brasileiro, desapareceu ali. Minutos antes, os jogadores publicaram um vídeo: alguém faz uma “selfie”, a maioria sorri. Estão todos tranquilos. É aquela certeza errónea que todos temos de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro

Plínio Fraga, correspondente no Rio de Janeiro

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A cidade de Chapecó, no oeste de Santa Catarina, surgiu no meio do nada. Era só parte do caminho que ligava o rico Estado de São Paulo às regiões agrícolas do Rio Grande do Sul. Os índios Kaingang dominavam a região, até que, no século XIX, tropeiros resolveram fincar raízes ao meio do caminho.

Chapecó é uma daquelas palavras que os brasileiros herdaram dos índios. Tem um certo doce no falar, vindo do chiado da primeira sílaba e a contração engraçada da última. Seu significado ainda causa controvérsias. Poderia ser “chapéu feito de cipó”, “põe no chapéu” ou ainda “donde se avista o caminho da roça”. Significados tão diferentes para uma palavra tão curta só aumenta a simpatia por ela. Seja por sua complexidade ou por nossa ignorância.

Uma das razões do crescimento de Chapecó foram as levas de migrantes italianos que dominaram o campo, deixando marcas no desenvolvimento e na formação da identidade cultural da cidade. O time de futebol local não poderia ter outro nome: Chapecoense, de quem nasce em Chapecó. Entre seus torcedores, era conhecido como o Furacão do Oeste catarinense.

Era um raro exemplo administrativo no bagunçado futebol brasileiro. Um clube de quem valoriza os pés no chão. Usou a experiência de empresários da indústria de carne, característica de sua economia, para profissionalizar sua gestão. Orçamento enxuto, executivos experimentados no setor privado no comando e jogadores de pouca fama, que aceitavam receber salários muito abaixo das médias exorbitantes do futebol. Sua folha salarial custa dez vezes menos que a do Palmeiras, que se sagrou campeão da atual temporada no domingo passado.

O time da cidade de apenas 200 mil habitantes ganhou o campeonato catarinense, está em nono lugar no Brasileiro e chegou à final do segundo mais importante torneio do continente - o primeiro é a Taça Libertadores da América.

A Chapecoense enfrentaria o Atlético de Medellín nesta quarta-feira na primeira partida da final. A equipe pulou da quarta divisão ou série do futebol brasileiro para a primeira em apenas cinco anos.

Heuler Andrey

O avião que transportava o time de futebol caiu na madrugada após uma pane elétrica. O piloto jogou o combustível fora e provavelmente tentou o pouso forçado na área de mata densa. Informações iniciais indicam que 76 pessoas morreram, entre elas 22 jogadores e outros 28 entre acompanhantes e a equipe técnica.

Entre os mortos havia um grupo de jornalistas desportivos, do qual se destacava o ex-jogador Mário Sergio, que atuava como comentarista para o canal Fox. A seu tempo, foi tido como um dos exemplos dos jogadores turrões. Tinha um quê de travessura simpática - como a famosa história de um grupo de jogadores do Fluminense que baixou o calção de Mário Sérgio na porta de um hotel para constrangê-lo e terminou constrangido por sua imobilidade blasé. Os colegas foram obrigados a levantar-lhe o calção de volta, sob a ameaça de que, de cuecas, não arredaria o pé da portaria do hotel.

A delegação do Chapecoense e os passageiros do voo deixaram um registo feito minutos antes de o avião descolar. Alguém faz uma “selfie”, em que se pode ver quase três dezenas de rostos. A maioria sorri. Mais uma “selfie” de um dia comum, podem ter imaginado. Estão todos tranquilos, como se estivessem no caminho da roça, um caminho prosaico da rotina do esporte. Naquela certeza errónea que todos temos de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro. Pois não é.