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God save the kids - abusos e silêncios nos grandes clubes ingleses

Um enorme escândalo de pedofilia sacudiu o futebol britânico nas últimas semanas. Com lágrimas nos olhos e a voz aos soluços, dezenas de ex-futebolistas revivem os terríveis abusos sexuais a que foram sujeitos em academias de futebol de clubes como o Chelsea ou o Southampton nas décadas de 70, 80 e 90

Paulo Anunciação

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Uma entrevista publicada no caderno de desporto do diário “The Guardian”, no mês passado, foi o suficiente para destapar um escândalo que atingiu proporções impensáveis. Andy Woodward, um antigo futebolista profissional de clubes medianos da Inglaterra, descreveu em pormenor o abuso sexual que sofreu dos 11 aos 15 anos na academia de futebol do Crewe Alexandra. Outros ex-jogadores seguiram-lhe o exemplo. Deram a cara, frustrados com a inércia de clubes, o silêncio das autoridades federativas ou a lentidão das investigações policiais. Jornais e televisões encheram-se, entretanto, de imagens destes homens de 40, 50 ou mais anos a falar de forma corajosa e comovente sobre as violações e outros abusos sexuais que sofreram durante a infância e adolescência passada em balneários de escolinhas de futebol. Muitos deles têm a vida destroçada, um passado de álcool, drogas, divórcios e tentativas de suicídio.

A lista de acusados é enorme — a polícia fala, agora, em mais de 80 “potenciais suspeitos que foram identificados” —, todos nomes desconhecidos do grande público. São treinadores, olheiros, dirigentes (e até roupeiros) que se aproveitaram da inocência das crianças e, sobretudo, dos sonhos delas em se converterem, um dia, em estrelas do futebol britânico. Os casos de pedofilia agora destapados envolvem uma centena de clubes, de todas as divisões. O número de vítimas deverá rondar, segundo os últimos cálculos, entre 550 e 800 homens — um número monstruoso que ultrapassa em muito outros escândalos de pedofilia ocorridos no mundo do espetáculo e da música britânica, ou no seio das igrejas católica e anglicana, escolas, lares e instituições de menores.

No centro do furacão está o nome de Barry Bennell, o treinador denunciado por Andy Woodward. Bennell, de 62 anos, cumpriu três penas diferentes de prisão por delitos sexuais, incluindo uma nos Estados Unidos. Mas até ser preso pela primeira vez, em 1994, trabalhou diretamente com jovens futebolistas durante quase 25 anos. Bennell foi olheiro de clubes importantes como o Leeds United e o Manchester City e treinador nas academias do Stoke City e do Crewe Alexandra, onde passou quase uma década. Era um técnico popular que encantava os miúdos com as suas fintas impossíveis e o jeito para o futebol (ele próprio passara pela academia do Chelsea mas abandonou a carreira de futebolista por razões médicas). Tinha fama de ser um dos melhores olheiros e formadores. As suas relações privilegiadas com clubes importantes do Norte da Inglaterra podiam abrir portas e ajudar os miúdos que sonhavam tornar-se futebolistas profissionais.

Bennell tinha igualmente um Mercedes descapotável e uma casa que era um misto de salão de jogos, minijardim zoológico e armazém de roupa desportiva. Foi nesta casa que Barry Bennell — um homem descrito uma vez por um juiz como tendo “um apetite insaciável por rapazinhos” – cometeu grande parte dos abusos sexuais. “A casa dele era uma espécie de caverna de Aladim. Máquinas de jogos por todo o lado, mesa de bilhar, jukebox, caixas de doces, uma sala cheia de botas e camisolas de futebol que ele nos oferecia a toda a hora. Tinha um macaco, cães lindíssimos, um puma, cobras e tarântulas. Mas tudo o que ele fazia tinha uma razão de ser”, conta agora Jason Dunford, de 46 anos, um ex-futebolista que diz ter testemunhado vários abusos sexuais em casa de Bennell.

Chris Unsworth, que jogou nas equipas jovens do Manchester City e depois no Crewe, sempre pela mão de Bennell, ficou muitas vezes em casa dele e por vezes partilhava a cama com o treinador e outros miúdos. Unsworth diz que foi violado talvez uma centena de vezes e que tinha nove anos quando o abuso começou. “Queria era ser futebolista e na altura pensei que se calhar aquilo era o que tinha de ser feito. Tinha de passar por aquilo. Sabia que era errado, mas aguentei”, conta. Outros ex-jogadores têm relatos semelhantes. A lista de vítimas inclui muitos nomes, como Mark Williams (que passou pela academia do Crewe e depois jogou pelo Watford, Stoke e seleção da Irlanda do Norte), Anthony Hughes, Steve Walters (outro ex-jogador do Crewe que foi abusado durante vários meses quando tinha apenas 14 anos), David White (que jogou sete épocas no Manchester City), David Lean (ex-Preston North End) e Ian Ackley (ex-jogador do Rochdale).

“Ele atacava a qualquer altura e em qualquer lugar que pudesse aproveitar. Fui violado por ele dezenas de vezes quando tinha entre 10 e 14 anos”, conta Ackley, de 48 anos e pai de quatro filhos. “Lembro-me de ver outro rapaz na casa dele aos fins de semana. Dormíamos na mesma cama. Bennell abusava dele enquanto eu dormia. E depois abusava de mim enquanto o outro dormia. Era miúdo e sentia-me paralisado com medo e sem saber o que fazer. Sentia que não podia contar a ninguém porque ele era esta figura importante e carismática. Os clubes fechavam os olhos sempre que ouviam rumores ou queixas, porque ele era um olheiro muito bom e que produzia muito talento. Os clubes e a federação não fizeram nada”, diz.

O silêncio das vítimas perpetuou o abuso durante muito tempo. Barry Bennell era um manipulador que combinava as recompensas com o terror, os prémios com as ameaças. “Fui aliciado durante meses e depois violado durante duas noites”, conta por sua vez David Lean. “Nunca contei aos meus pais, pensando que nunca mais voltaria a ver Bennell. Um dia cheguei a casa e ele estava lá a falar com a minha mãe. Ela disse: ‘David, porque não mostras ao Barry a coleção de troféus que tens no quarto?’ Tentei fazê-lo o mais depressa possível, mas ele barrou-me a passagem, fitou-me nos olhos e disse: ‘Não te preocupes, não vou contar à tua mãe o que tu me fizeste!’” Este encontro deixou David Lean aterrorizado. Nunca falou dos abusos durante mais de 30 anos.

Andy Woodward, que despoletou este verdadeiro tsunami de revelações, foi abusado centenas de vezes. Ele foi jogador profissional no Crewe Alexandra (atualmente no quarto escalão do futebol inglês), mas também no Bury, Sheffield United e Scunthorpe. Pôs fim à carreira aos 29 anos porque não conseguia suportar mais o fardo horrendo dos traumas provocados por Bennell. “Nunca perdoei o facto de o Crewe Alexandra ter certamente conhecimento de que ele levava miúdos como eu para casa dele”, conta Woodward. “Ainda hoje, quando ouço os resultados dos jogos do Crewe na rádio sinto-me mal e o estômago dá voltas.” Ele diz que os abusos tiveram um efeito catastrófico na vida dele. “Um trauma que encheu os meus dias com depressão, ansiedade e pânico. Estive muito perto do suicídio, pelo menos umas dez vezes.”

Vários clubes da Premier League, a liga de futebol mais rica do mundo (uma liga onde o último classificado, por exemplo, recebe mais de 115 milhões de euros anuais em direitos televisivos), saem chamuscados com esta história. Entre a centena de clubes investigados contam-se o Chelsea, atual comandante do campeonato inglês, o Newcastle e o Southampton.

As revelações referentes a este clube do Sul da Inglaterra, onde jogam atualmente os internacionais portugueses José Fonte e Cédric Soares — campeões europeus com a seleção de Portugal, em 2016 —, dizem respeito a Bob Higgins, antigo treinador da academia do clube na década de 80. Vários antigos jogadores das equipas de iniciados e juvenis do Southampton queixaram-se publicamente de Higgins. “Ele entrava nos nossos quartos à noite, cantava-nos canções de amor enquanto nos apalpava”, diz Dean Radford, antigo jogador do Southampton. Outro antigo iniciado do clube, Jamie Webb, contou à BBC como Higgins “punha as mãos dentro dos nossos fatos de treino, lá em baixo, a toda a hora”.
Antigos jogadores da academia recordam as “massagens ensaboadas” ministradas por Bob Higgins. Ou as inspeções estranhamente meticulosas com todos os miúdos nus, em fila indiana, dentro do balneário gelado. “Lembro-me de me sentir desconfortável com tudo aquilo. Toda a gente nua ou quase nua, deitada numa espécie de cama onde [Higgins] nos dava uma massagem muito rápida”, diz Matt Le Tissier, de 48 anos, antiga estrela do clube e atual comentador televisivo na cadeia Sky Sports. “Lembro-me de ser miúdo e assistir àquilo tudo à minha volta e pensar: ‘Será que isto é normal?’”

Claro que não era normal. Bob Higgins foi despedido pelo Southampton, apesar de ser reconhecido por muitos como um dos melhores treinadores das camadas jovens do futebol britânico. “Os boatos sobre Bob Higgins circulavam há muito nos meandros do futebol. Conheço-o há muito e espanta-me que ele tenha sobrevivido tanto tempo. A verdade é que, naquela época, ele era provavelmente o treinador [de academias de futebol] mais importante do país”, diz por sua vez Harry Redknapp, antigo treinador principal do West Ham, Tottenham e de vários clubes do Sul da Inglaterra, como o Bournemouth, Portsmouth e Southampton.
Higgins fundou uma escola de futebol (The Bob Higgins Soccer Academy) e trabalhou mais tarde em clubes menores, como o Peterborough United, nas seleções jovens de Malta e em clubes das ligas regionais do Sul da Inglaterra. Em 1989, a liga inglesa distribuiu uma circular entre os clubes advertindo, sem mais pormenores, que se opunha “às atividades da Bob Higgins Soccer Academy”. Outra carta circular, assinada pela polícia e pelos serviços sociais britânicos, descreveu Higgins como “um risco para as crianças”. Em 1991, ele respondeu em tribunal a acusações de abuso sexual apresentadas por seis ex-jogadores. Higgins negou tudo. O júri, seguindo a indicação do juiz, absolveu-o no processo criminal. Bob Higgins, de 63 anos, continuou a trabalhar no futebol até 2012 e atualmente está reformado em parte incerta.

As revelações sobre o Chelsea são bem mais graves. O clube de Londres empregou Eddie Heath durante vários anos (1968-1978) como chefe do departamento de prospeção. Heath era conhecido como “The Star Maker” [o fazedor de estrelas] e em diversas publicações oficiais do clube — tão recentes quanto o programa de um jogo de 2011 — ele é descrito como um verdadeiro herói, o olheiro que descobriu craques como Ray Wilkins, o médio que vestiu as camisolas do Chelsea, do Manchester United e do Milan e jogou mais de 80 vezes pela seleção principal da Inglaterra. Mas Eddie Heath tinha outra faceta. Pelo menos seis jogadores afirmam ter sido abusados sexualmente por ele.

De acordo com outra antiga estrela do Chelsea, Alan Hudson, Eddie Heath “era um perigo para os mais jovens”. O olheiro gostava de tocar nos rapazes durante os chuveiros no final dos treinos. Nas últimas semanas, ex-jogadores como Derek Richardson e Russell Davy confirmaram os abusos frequentes. As histórias não deveriam ser novidade para ninguém. Em 2011, o antigo defesa da seleção do País de Gales, Pat Van Den Hauwe — que passou pela academia do Chelsea, na década de 70 — escreveu na sua autobiografia que um dia Heath o convidou para ver a sala de jogos habitualmente frequentada pelos jogadores da equipa principal do Chelsea. “Fomos no elevador e ele chegou-se muito a mim, talvez demasiado perto de mim”, escreve Van Den Hauwe. “Quando entrámos na sala comecei a desconfiar e a pensar por que diabo me quereria ali. Dei uma desculpa rápida e fugi. Contei tudo ao meu pai. Algum tempo mais tarde recebi a informação de que o clube decidira que eu não tinha qualidade suficiente para jogar no Chelsea.” Nas décadas de 80 e 90, Van Den Hauwe foi jogador profissional de clubes de topo, como Birmingham, Everton e Tottenham.
As acusações mais graves, no entanto, foram feitas por Gary Johnson e outro ex-jogador que pediu para manter o anonimato. “Ele [Heath] gostava de subir as mãos pelas nossas pernas, dentro dos calções. Depois tocava nos nossos genitais e ria-se”, contou esta vítima que preferiu não ser identificada publicamente. O anónimo diz que em 1974, quando tinha 15 anos, foi apanhado sozinho e violado por Heath numa sala do clube. “Ele agarrou-me por detrás, pôs as mãos dentro da frente da minha camisola e disse-me: ‘Fecha os olhos!’ E aí começou.” Este ex-jogador fez queixa, mas o Chelsea terá feito tudo para abafar o caso. Um treinador adjunto da equipa principal foi a casa dos pais do juvenil tentando justificar as ações de Heath. O olheiro manteve-se no clube mais cinco anos.

O avançado Gary Johnson é outro ex-juvenil do Chelsea que afirma ter sido abusado por Eddie Heath. Johnson entrou na academia do clube de Londres aos 11 anos, fez toda a formação no Chelsea e chegou a jogar esporadicamente na equipa principal, ao longo de três épocas, entre 1978 e 1981. Segundo Johnson, Eddie Heath começou a abusar sexualmente dele quando tinha apenas 13 anos. Os abusos prolongaram-se por três ou quatro anos e ocorreram várias vezes por semana. Johnson afirma ter vivido com este trauma, em silêncio, durante décadas, mas em 2014 foi à polícia, contratou uma firma de advogados e contactou o antigo clube (Eddie Heath morrera em 1983, de ataque de coração, aos 54 anos).

A reação do Chelsea, no início, foi fria. “Fui lá dizer [aos diretores do Chelsea] que tinha sido vítima de abusos sexuais quando fora iniciado e juvenil do clube. A primeira coisa que eles disseram foi: ‘Então prove’”, contou Gary Johnson, de 57 anos, numa entrevista ao “Daily Mirror”. No ano passado, preocupada com a eventual exposição pública, a direção do Chelsea acabou por oferecer dinheiro a Johnson — 50 mil libras (60 mil euros, ao câmbio atual) — a troco do silêncio. O antigo jogador assinou uma cláusula de confidencialidade semelhante às que a Igreja Católica costumava impor nos escândalos de pedofilia das décadas de 80 e 90. A cláusula era tão rígida que ele, a família ou os advogados não estavam sequer autorizados a referir a existência do acordo.

Nas últimas semanas, pressionado pela investigação jornalística, o Chelsea cancelou aquela obrigação de confidencialidade. O clube anunciou que uma firma externa de advogados fará uma investigação sobre a forma como o caso Gary Johnson foi tratado. A federação inglesa, sem citar diretamente o Chelsea, classificou de “moralmente repugnante” o facto de um clube querer “proteger a sua reputação e abafar ou esconder eventuais crimes contra crianças”.

Vítimas. Mark Williams, Andy Woodward, Steve Walters e Jason Dunford são os principais rostos da denúncia de casos de pedofilia nas escolinhas de futebol no Reino Unido. E também dão a cara pelo Offside Trust, uma instituição criada para apoiar as vítimas de abusos sexuais

Vítimas. Mark Williams, Andy Woodward, Steve Walters e Jason Dunford são os principais rostos da denúncia de casos de pedofilia nas escolinhas de futebol no Reino Unido. E também dão a cara pelo Offside Trust, uma instituição criada para apoiar as vítimas de abusos sexuais

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As imagens de homens adultos a descrever os abusos e os traumas repetidos a que foram submetidos, chorando convulsivamente perante as câmaras da televisão, causaram um impacto enorme no público britânico. A reação inicial das autoridades e dos clubes implicados foi a negação, outras vezes o encobrimento puro e simples. A federação inglesa foi extremamente lenta a reagir, mas anunciou por fim a realização de um inquérito independente. Os media parecem não ter mãos a medir e continuam a divulgar histórias impressionantes.

Um dos testemunhos mais arrepiantes foi o de Paul Stewart, antigo jogador do Tottenham, Liverpool e Manchester City. Stewart, de 52 anos, casado e pai de três filhos, descreveu a terrível pressão psicológica a que foi submetido durante anos por um treinador das escolas do Blackpool FC. Stewart não nomeou a pessoa que abusou dele, embora a imprensa adiante o nome de Frank Roper, um antigo treinador com ligações ao clube (Roper, que morreu em 2005, foi citado pelo ex-jogador do Leeds Jamie Forrester como “um pedófilo assustador que acariciava os jovens jogadores com regularidade e que escolhia os mais fracos e vulneráveis como alvo”).

Paul Stewart cruzou-se com o treinador, pela primeira vez, aos 11 anos. Ele prometeu ajudar o miúdo a transformar-se numa grande estrela de futebol. Tornou-se amigo dos pais de Paul e muitas vezes foi buscar a criança para a levar ao cinema, ao bowling ou a jogos e torneios de futebol. “Começou por me acariciar no carro, quando eu tinha 11 anos. Depois passou para a violência sexual. Disse que matava a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos se eu contasse a alguém. Aos 11 anos, acreditei no monstro.” O abuso sexual prolongou-se durante mais de quatro anos. O treinador aparecia em casa e dizia aos pais de Paul que o miúdo precisava de trabalhar mais determinada fase do jogo, como o passe ou o controlo da bola. “Tinha sempre uma desculpa para me ir buscar. Depois abusava de mim no carro ou em casa dele”, contou Stewart.

Os casos de pedofilia no futebol britânico não são casos isolados e estenderam-se um pouco por todo o país. Envolveram, inclusive, os dois clubes escoceses de maior dimensão e historial. A academia do Rangers FC, de Glasgow, empregou durante anos o predador sexual Gordon Neely. Uma das vítimas dele, Colin Anderson, descreveu agora a forma como foi violado duas vezes quando tinha apenas 13 anos (o Rangers despediu o treinador na década de 80 após “conduta incorreta” com um adolescente; Neely morreu em 2014). O outro clube grande de Glasgow, o Celtic, também surge envolvido no escândalo. No início de dezembro, Jim McCafferty, de 71 anos, foi detido em Belfast após confessar ter abusado de pelo menos 12 adolescentes nas décadas de 80 e 90 nas academias do Celtic e de outros clubes da Escócia, onde trabalhou como roupeiro e como treinador nos escalões de formação.

Jim Torbett, outro antigo treinador com ligações à academia do Celtic, foi condenado a uma pena de dois anos e meio de prisão, em 1998, por abuso sexual de três jovens jogadores ao longo de um período de sete anos (1967-1974). Uma das vítimas foi Alan Brazil, na altura um iniciado prometedor de apenas 13 anos. Mais tarde ele brilharia como avançado da seleção escocesa e das equipas do Ipswich e do Tottenham que venceram troféus europeus na década de 80. Brazil, de 57 anos, trabalha agora como comentador desportivo numa rádio nacional e foi uma das vítimas que testemunharam em tribunal contra Torbett.

A lista de clubes escoceses envolvidos em casos de abuso sexual de crianças inclui ainda Morton, Partick Thistle, Motherwell e o pequenino Eastercraig Boys Club, um clube de Glasgow conhecido por ter uma das melhores academias da região. O Eastercraig esteve ligado, nas décadas de 70 e 80, a um dos predadores sexuais mais brutais. Hugh Stevenson trabalhou vários anos no clube como diretor e treinador dos mais novos. Ele era, além disso, árbitro auxiliar (juiz de linha) em jogos internacionais e da liga escocesa. O número de vítimas conhecidas de Stevenson tem aumentado nos últimos dias, depois de Peter Haynes, de 50 anos, ter descrito em pormenor a monstruosidade do abuso infligido.

Stevenson começou por aliciar o miúdo de 12 anos, das escolinhas do Eastercraig, com a promessa de uma carreira como futebolista num clube grande. Num dia de maio de 1979, Stevenson bateu à porta dos pais de Peter Haynes. Trazia roupa formal e um blazer oficial da federação escocesa. Pediu autorização para levar a criança à final da Taça da Escócia. Teve início nesse mesmo dia um ciclo de abuso sexual que se prolongaria durante três anos e meio, até 1982, duas ou três vezes por semana. “O nível [de abuso] aumentou muito rapidamente. Ele levava-me para casa dele e fez-me coisas que eu tenho dificuldade em descrever em detalhe. Mas praticou os atos sexuais mais depravados que se possam imaginar. Fui violado dezenas de vezes”, contou ele. “Nunca disse aos meus pais. Sentia-me sujo. Tinha imensa vergonha de mim.”

Hugh Stevenson foi despedido do Eastercraig Boys Club, ainda na década de 80, depois de uma queixa sobre “conduta menos própria” apresentada por um jovem jogador de outro clube. Peter Haynes quebrou o silêncio em 1993 e contou à família e à polícia tudo o que lhe aconteceu. Stevenson, que morreu em 2004, nunca foi acusado criminalmente. Haynes, estranhamente, ainda guarda o programa do jogo da final da Taça da Escócia de 1979. Aquele jogo mudou a vida dele para sempre.

Artigo publicado na ediçõ do EXPRESSO de 17 de dezembro de 2016