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A pré-reforma de Guardiola

Pep Guardiola disse que não queria treinar até aos 60 anos e não é o primeiro a falar em reforma antecipada. O futebol de hoje mastiga os ídolos

Pedro Candeias

OLI SCARFF

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Pep Guardiola tem 45 anos, é treinador desde os 35, ninguém ganhou tantos títulos nos últimos 10 e ninguém ganha tanto dinheiro como ele por ano: 21 troféus, €18 milhões de salário. Guardiola é bom, muito bom no que faz e é improvável encontrar outro tipo que tenha progredido tanto e tão depressa na carreira, com direito a pausa sabática entre empregos para conhecer Nova Iorque. Isto é conforto e em certa medida é felicidade, mas Guardiola não se vê a fazer isto por muito mais tempo.

Disse ele à NBC: “Estarei em Manchester [no Manchester City] durante as próximas três épocas, mas estou a chegar ao fim da minha carreira como treinador”. Depois, Guardiola acrescentou numa conferência de imprensa que o City não seria o último mas um dos últimos clubes. Porquê? “Porque sou eu quem decide”.

É evidente que as coisas não estão a correr como ele esperava (ou como se esperava) e o contexto poderá estar a condicionar o que Pep anda a dizer sobre as regras, o futebol inglês, os jornalistas e os árbitros e os comentadores ingleses - o bê à bá do argumentário de José Mourinho.

Guardiola já mostrou antes o lado menos polido e menos arrumadinho quando questionado sobre os métodos ou o mantra da posse de bola; vê-lo mal disposto e a debitar sarcasmos não é novidade e é normal que isto aconteça numa indústria em que a pressão é fortíssima e diária e o sucesso depende das bolas ao poste e dos remates ao lado, pubalgias, entorses nas tibiotársicas e meniscos, e contraturas no bíceps femoral.

Mas o que Pep diz sobre deixar de treinar bem antes dos 60 não é assim tão comezinho que deva ser relativizado só porque o catalão estava a ter um dia mau. Talvez seja um sinal.

Vejamos o seguinte: entre os 12 treinadores que mais ganham, dois têm mais de 60 anos, sete têm menos de 50 anos (um deles, menos de 40), três estão nos cinquenta.

Esta é a lista:

  1. Pep Guardiola - 45 anos, €18 milhões
  2. Carlo Ancelotti - 57 anos, €15 milhões
  3. José Mourinho - 53 anos, €14,5 milhões
  4. André Villas Boas - 39 anos, €12 milhões
  5. Arsène Wenger - 67 anos, €10,5 milhões
  6. Zinedine Zidane - 44 anos, €9,5 milhões
  7. Luis Enrique - 46 anos, €8,5 milhões
  8. Jürgen Klopp - 49 anos, €8,5 milhões
  9. Antonio Conte - 47 anos, €7,8 milhões
  10. Ronald Koeman - 53 anos, €7 milhões
  11. Diego Simeone - 46 anos, €6 milhões
  12. Jorge Jesus - 62 anos, €5 milhões

Lanço aqui três teorias.
A primeira: os treinadores de gama média-alta ganham tanto ou mais que os futebolistas de gama média-alta e alguns desses treinadores foram eles próprios jogadores de gama média-alta. Ora, isso traduz-se em contas bancárias simpáticas.

Hoje em dia um técnico de elite pode rapidamente assegurar o seu futuro e o dos seus filhos (e o dos filhos dos seus filhos), pelo que não precisa manter-se no jogo até à idade da reforma. Fá-lo-á se achar que um euro a mais é sempre um euro a mais e um euro a mais é sempre bem-vindo; ou fá-lo-á porque gosta e porque é determinado e ambicioso.

E aqui entra a segunda teoria: treinar no século XXI não é treinar no século XX.

A intuição e o empirismo levam-te até determinado ponto, mas passado esse ponto entram os estudos, os relatórios, as observações, os egos e caprichos de jogadores riquíssimos e os riquíssimos agentes dos jogadores riquíssimos, a lógica empresarial dos clubes, o planeamento, a dieta, o estágio, o marketing, o confronto com colegas, a comunicação, a exposição mediática, a crítica. É uma profissão desgastante em que um homem ou mulher se torna principal responsável por tudo o que outros ou outras 24 futebolistas fazem - e o primeiro a levar guia de marcha se os resultados forem fracos.

E a terceira teoria: será cada vez mais natural ver rapazes como Julian Nagelsmann (29 anos, Hoffenheim) chegarem a clubes de primeira em campeonato poderosos e cada vez mais raro termos ícones como Arsène Wenger (67 anos, Arsenal).

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