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O ano de Cristiano: houve t(r)aças, houve dor, houve lágrimas. E glória

Campeão europeu por Portugal, campeão europeu de clubes pelo Real Madrid. O peso dos grandes troféus, mas também o drama, foram decisivos para Cristiano Ronaldo ser considerado o melhor jogador do mundo pela 4.ª vez

Lídia Paralta Gomes

Matthias Hangst/Getty

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Quando aquela traça pousou na cara de Cristiano Ronaldo, ainda a final de Paris era uma criança, o mundo dividiu-se entre os que gritaram “desgraça!” e os que se agarraram a uma qualquer lei cósmica da compensação. A história presenteou os que tiveram fé e é também para eles mais uma vitória do capitão da Seleção Nacional, que esta segunda-feira recebeu pela quarta vez o prémio de melhor jogador do ano para a FIFA, um troféu agora denominado de “The Best”, depois do organismo máximo do futebol mundial e a “France Football” virarem as costas à parceria que durou de 2010 a 2015.

Isso, na prática, pouco importou para Ronaldo. Ou melhor: em vez de um prémio de melhor do ano deu-lhe dois, aos 31 anos e oito anos depois de receber pela primeira vez a Bola de Ouro e o prémio da FIFA. Num ano em que Lionel Messi até marcou mais golos e fez mais assistências, o peso dos títulos de Cristiano foi decisivo: ainda antes de conquistar o Euro’2016, a taça que lhe faltava, a taça que nos faltava, levou o Real Madrid à 11.ª Liga dos Campeões. E já no final do ano fez um hat-trick na final do Mundial de Clubes, no Japão, uma espécie de retoque dourado num embrulho já muito bonito.

Este não terá sido sequer um dos anos mais dominadores a nível individual de Ronaldo - houve altos e baixos a nível físico e também exibicional, apesar de ter sido a sexta época consecutiva a marcar mais de 50 golos - mas é indelével a sua marca nos grandes momentos da época. Ronaldo chegou à final da Liga dos Campeões, frente ao Atlético de Madrid, como o melhor marcador da prova, com 16 golos. E se é inegável que passou ao lado da final, também o é que o Real não estaria ali sem ele e que foi ele quem marcou o penálti decisivo, com a frieza do costume, de quem sabe que está ali em jogo um dos troféus mais importantes do ano.

Ronaldo marcou a grande penalidade que deu a 11.ª Liga dos Campeões ao Real Madrid

Ronaldo marcou a grande penalidade que deu a 11.ª Liga dos Campeões ao Real Madrid

Matthias Hangst/Getty

E só não foi o mais importante porque um mês depois, em França, Cristiano Ronaldo foi o capitão de uma Seleção Nacional que, de forma mais ou menos improvável, chegou à final do Campeonato da Europa e venceu. Antes disso, muitos criticaram as exibições do avançado - que esteve, de facto, longe da melhor forma boa parte do torneio. Mas paulatinamente foi assumindo: primeiro como motivador (“Oh! Oh! Anda bater, anda bater, anda. Tu bates bem. Se perdermos, que se foda. Anda, personalidade, vai! Personalidade. Tu bates bem! Seja o que Deus quiser, é lotaria”), depois no campo, ao fazer um golo e uma assistência no jogo da meia-final, frente ao País de Gales.

Nunca saberemos o que podia ter feito Ronaldo na final. Aquele golpe baixo de Payet não deixou, mesmo que Ronaldo tivesse tentado a todo o custo e de lágrimas nos olhos continuar em campo. Mas todos acreditamos que a estreia do capitão como treinador, a seguir ao golo de Eder, teve o seu peso na taça que viria a levantar minutos depois, em pleno Stade de France. Foi épico, teve drama, teve dor e isso também conta.

Por tudo isto, 2016 foi o ano de Cristiano e ele próprio o admite. “Este é o melhor ano da minha carreira, a nível coletivo e individual. Faltava-me um título de seleções e esse foi um dos grandes momentos, tal como vencer de novo a Champions pelo Real Madrid”, disse o madeirense depois de receber a Bola de Ouro da “France Football”, em dezembro.

Em 2016, terá faltado a Ronaldo apenas aquele que tem sido o seu grande calcanhar de Aquiles desde que se mudou para o Real Madrid, em 2009/10: o título espanhol, que apenas conquistou uma vez, em 2011/12, com José Mourinho no comando dos merengues. Na última temporada, um ponto bastou ao Barcelona de Lionel Messi para vencer o campeonato. O argentino também venceu a Taça do Rei, mas voltou a não conseguir ajudar a Argentina a vencer um título continental, neste caso a Copa América, o que ajudou à decisão.

Talvez daqui a um ano a história seja outra: o Real Madrid já tem 5 pontos de vantagem para o Barcelona e Ronaldo está bem encaminhado para enriquecer ainda mais o palmarés, ainda bem longe de estar fechado para balanço.

Até lá personalidade, vai, personalidade. Se perderes que se… bem, tu não vais perder.