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O futebol é a nova bandeira da China (porque é que os craques estão a rumar a Oriente)

A Superliga chinesa está a seduzir alguns dos melhores jogadores da Europa e da América do Sul com milhões

Lídia Paralta Gomes e Jaime Figueiredo

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infografia jaime figueiredo

Inícios de fevereiro do ano passado: Jackson Martínez surge pouco sorridente ao lado de dirigentes e empresários, estes, sim, com um sorriso de orelha a orelha, numa foto que confirmou a contratação do colombiano pelo Guangzhou Evergrande. O clube chinês treinado por Scolari tinha pago €42 milhões pelo avançado, que por sua vez havia sido adquirido pelo At. Madrid ao FC Porto por €35 milhões seis meses antes. Ao olhar para aquela foto, a Europa acordou para a realidade: o investimento da China no futebol era sério. Aos 29 anos, Jackson estava longe de ser um pré-reformado do jogo e a sua mudança não se podia comparar às de Didier Drogba ou Nicolas Anelka para o Shanghai Shenhua, em 2012, ambos na fase descendente da carreira. Apesar da pobre primeira metade de temporada de Jackson em Madrid, interessados entre os melhores clubes europeus não faltariam. Mas seguramente nunca com um salário de €12,5 milhões/ano.

O impressionante valor da transferência de Jackson tornou-se um pouco menos impressionante 48 horas depois, quando o Jiangsu Suning contratou Alex Teixeira por €50 milhões. Cobiçado pelo Liverpool, o brasileiro de 26 anos tornou-se a contratação mais cara daquela janela de transferências, que viu ainda jogadores como Ramires, Gervinho, Guarín ou Lavezzi rumarem ao Oriente. No total, os clubes chineses gastaram mais de €240 milhões no nosso mercado de inverno, início da época para eles — na China a temporada corresponde ao ano civil.

Parou por ali? Não, aliás, o investimento só aumentou e mais estrelas em pleno auge de forma optaram por prosseguir as carreiras na China. No verão, o Shanghai SIPG pagou quase €56 milhões por Hulk, oferecendo ao brasileiro um salário de €19,3 milhões/ano, e o Shandong Luneng contratou o avançado italiano Graziano Pellè, que não disse que não aos quase €16 milhões por temporada. E agora que chegámos de novo a janeiro, o Shanghai SIPG de Villas-Boas contratou Oscar por €60 milhões ao Chelsea, o Shanghai Shenhua fez de Carlos Tévez o jogador mais bem pago do Mundo (€37,5 milhões/ano), Witsel virou as costas à Juventus para ganhar €16 milhões por época no Tianjin Quanjian e John Obi Mikel deixou o Chelsea para ir receber €8,5 milhões anuais para o Tianjin Teda, de Jaime Pacheco.

Os milhões não estão reservados aos jogadores. O português André Villas-Boas foi contratado pelo Shanghai SIPG, seduzido por um salário de €12 milhões anuais. A Superliga chinesa, que arranca em março, terá no banco nomes como Scolari (no Guangzhou Evergrande), o chileno Manuel Pellegrini (Hebei Fortune) ou o alemão Felix Magath (Shandong Luneng).

Não há limitações quando o plano é tornar a China uma das potências do futebol. E a aposta numa liga recheada de estrelas é apenas um dos caminhos de um plano a longo prazo, impulsionado pelo sonho do Presidente Xi Jinping, um apaixonado por futebol que em 2011 assumiu três grandes ambições: que a China se qualifique novamente para um Mundial (esteve apenas no Mundial de 2002 e perdeu todos os jogos), que a China organize um Mundial e, por fim, que possa sagrar-se campeã do Mundo.

Fazer chegar jogadores como Hulk, Oscar, Tévez ou Witsel à China tem um preço e é preciso pagar o talento a peso de ouro, com salários irreais para a realidade média europeia, onde Cristiano Ronaldo e Lionel Messi são a exceção. E de onde vem o dinheiro? “Essencialmente do sector privado, embora também possam existir algumas empresas públicas a investir. A China é a fábrica do mundo e onde está a produção, está o dinheiro”, explica Virgínia Trigo, economista e diretora de programas do ISCTE na China, onde vive e dá aulas, em Cantão. As equipas chinesas estão nas mãos das maiores empresas do país, nomeadamente do sector da construção. O campeão dos últimos seis anos, o Guangzhou Evergrande, por exemplo, é detido em 64% pelo grupo Evergrande — o 2º maior grupo imobiliário do país — e em 36% pelo gigante de vendas online Alibaba.

Investir no futebol interessa aos empresários chineses e Virgínia Trigo explica porquê: “Por um lado contribuem para a realização dos objetivos governamentais de implantar o futebol na China; por outro, contribuindo para esta implantação, as empresas podem ter acesso a outros negócios, ganhando prestígio e visibilidade. Atualmente, o futebol é um negócio em todo o mundo e os empresários chineses estão atentos a todas as oportunidades, que são exponenciadas por uma população de 1,4 mil milhões de pessoas”.

A televisão

O dinheiro começa também a chegar da venda dos direitos televisivos. É uma bola de neve: mais estrelas, mais mediatismo, mais dinheiro. Em 2015, a China Media Capital adquiriu os direitos de transmissão da Superliga para os cinco anos seguintes por €1,2 mil milhões. Um acordo reduzido face aos €7 mil milhões que a Sky e a BT pagaram pelos jogos da Premier League para as próximas três épocas, mas ainda assim o dobro do anterior.

Mas o plano chinês vai muito para lá de inundar o campeonato com estrelas: o trabalho de base para tornar forte a seleção nacional está a começar a ser feito e o Governo quer implementar mais de 20 mil escolas de futebol nos próximos anos. O objetivo é ter 30 milhões de crianças a jogar até 2020. A partir daqui, será mais fácil encontrar estrelas chinesas.

Aos 36 anos, Pedro Duarte aceitou o desafio de contribuir para o crescimento do futebol na China. Técnico campeão de juniores pelo Sp. Braga em 2013/14, trabalha atualmente na formação do Tianjin Teda. “Quase todos os clubes chineses têm academias ao nível do que existe na Europa. O Shandong, por exemplo, tem um centro de estágio com mais de 30 campos”, conta o técnico, na China há seis meses. Em Tianjin, ensina 50 crianças dos 11 aos 13 anos e também treinadores chineses. Reconhecendo as lacunas do seu futebol, os clubes procuram o know-how europeu. “Os jogadores e treinadores chineses têm a perceção que a chegada de estrangeiros é uma mais-valia. Têm bastante abertura para receber ensinamentos”, sublinha Pedro Duarte, lembrando que, apesar dos milhões investidos em europeus e sul-americanos, há uma grande preocupação em “proteger o jogador chinês” com as regras de utilização de estrangeiros [ver abaixo].

Apesar de achar “muito complicado” que nos próximos anos a China produza um Messi ou um Ronaldo — “falta-lhes o dom natural, a cultura do futebol de rua” —, Pedro Duarte acredita que o futebol chinês tem tudo para crescer nas próximas décadas. “Pode ser uma potência, é preciso dar tempo. Não basta contratar os melhores jogadores, é preciso trabalhar. E com este investimento nas academias e na formação de jogadores e técnicos, acho que tem tudo para continuar a crescer.”

Oficialmente, não é possível dizer quantos treinadores portugueses estarão de momento em academias na China, mas Pedro Duarte garante que “em cada cidade há um, ou mais”. Cláudia Cruz é uma delas.

A treinadora da Academia Luís Figo em Pequim, diz que “o futebol vai crescer devagar” e que a China precisa ainda de “construir uma base forte, uma geração que faça face às necessidades” do futebol do país: “Acredito que com o tempo haverá mais praticantes e mais adeptos irão apoiar e amar o futebol.” A paixão parece ser ainda uma questão. “O jovem chinês tem capacidade e vontade de aprender, falta é paixão e dedicação”, conta Cláudia, que trabalha em dois polos da Academia Luís Figo, com 120 miúdos dos 4 aos 14 anos, e que fala da chegada de estrelas internacionais como “uma estratégia de desenvolvimento e incentivo aos mais jovens, na medida em que vão assistir a um futebol com mais qualidade”.

O caminho é, assim, o de formar as próprias estrelas. Mas até lá é necessário investir massivamente nas estrangeiras. E está para ficar esse investimento? “Creio que esta situação de grandes contratações não será muito duradoura, até porque o Governo já lançou algumas críticas a esta vaga”, refere Virgínia Trigo. Pedro Duarte acredita que o investimento é para continuar. “Duvido é que seja por valores tão altos”, diz.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 7 de janeiro de 2017