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Futebol de rua, golos inverosímeis, dribles alucinados e tackles dilacerantes. Eis a CAN

A Taça das Nações Africanas (CAN) começa este sábado e Rui Malheiro explica tudo o que precisa de saber sobre a competição que é sempre uma festa imprevisível

Rui Malheiro

Brahimi (FC Porto) é uma das estrelas da CAN

FAROUK BATICHE/GETTY

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A globalização fez com que a CAN deixasse de ser uma visita a um admirável mundo novo. Era assim que a víamos, entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, quando grande parte dos jogadores ainda atuavam no continente africano e eram (praticamente) desconhecidos no contexto europeu.

Em 2017, há muito pouco por desvendar no Campeonato Africano das Nações (CAN), mas há uma esperança contínua em presenciarmos a jogada celestial enquanto o futebol de rua invade o relvado, libertando a bola das amarras táticas. Pode ser um golo inverosímil, um drible alucinado e desconcertante, um tackle dilacerante e incauto, ou a curta distância entre o equívoco garrafal e o voo impossível do guarda-redes. Sempre com um oceano de cores e de festa nas bancadas, de onde surgirá o som ininterrupto de inquietantes buzinas. Até nos ensurdecer.

GRUPO A

Gabão

O espanhol José António Camacho assumiu, em dezembro de 2016, a sucessão de Jorge Costa à frente da seleção que recebe a CAN’2017. Com ilusão e ganas, chavões que continua a utilizar em doses superlativas a cada declaração, o antigo treinador do Benfica, onde venceu o único troféu – a Taça de Portugal, em 2003/04 – da sua sofrível carreira de treinador, pretende conduzir as panteras à melhor classificação de sempre na prova, o que implicará ultrapassar os quartos-de-final, fase que atingiram em 1996 e 2012, mas já alertou, de forma temerosa, para as grandes arduidades em chegar longe numa competição com seleções que apresentam, sob o seu ponto de vista, muito mais argumentos.

Apesar da falta de jogos sob o comando técnico de Camacho, o que deixa antever dificuldades na assimilação do modelo de jogo, o Gabão, mais habituado a um papel expetante e de busca incessante do contragolpe, deverá privilegiar o 4x2x3x1 como estrutura tática, com o 4x4x2, de forma a juntar Evouna e Aubameyang no ataque, a surgir como principal alternativa.

Pierre-Emerick Aubameyang, avançado do Borussia Dortmund, é a grande referência gabonesa, e todos esperam que seja a principal figura da competição, pela contundência que patenteia, graças à sua impressionante velocidade e poder de aceleração, no ataque à profundidade, adindo ainda grande frieza e qualidade no momento da definição. O guarda-redes Didier Ovono (Oostende), o defesa-central Bruno Ecuele Manga (Cardiff) – perigoso a dar sequência a lances de bola parada laterais –, os médio-centro Didier Ibrahim N'Dong (Sunderland) e Mario Lemina (Juventus), e o avançado Malick Evouna (Tianjin Teda) – também capaz de atuar como falso extremo – deverão ser os atores secundários na obrigatória passagem à fase de mata-mata. Registo para a presença de Serge Kevyn, avançado da União de Leiria (Campeonato de Portugal), na lista de convocados, onde também marca presença o ex-leixonense Merlin Tandjigora.

Guiné-Bissau

Única seleção estreante em fases finais da CAN, a Guiné-Bissau vive o momento mais alto da sua história futebolística, mas tem convivido com problemas organizativos, bem patentes na greve protagonizada pelos jogadores aos prélios particulares na antecâmara da grande competição. Comandados, desde fevereiro de 2016, pelo veterano Baciro Candé, que assumiu a sucessão do português Paulo Torres, os djurtus, alcunha que representa a imagem de um cão selvagem africano, impuseram-se, com surpresa, a Congo, Zâmbia e Quénia na fase de qualificação.

Sem contarem com o lesionado Cícero, avançado-centro do Paços de Ferreira que se revelou determinante no apuramento, os guineenses apresentam-se como o underdog do grupo e da competição, o que não reduz a ambição de Candé em continuar a fazer história, recorrendo a analogias com a campanha triunfante da Seleção Nacional no Euro’2016. O que será uma tarefa hercúlea para uma seleção formada por treze jogadores que atuam nas diferentes divisões do futebol português, e onde também cabem dois futebolistas desempregados: Rudinilson, defesa que fez o seu trajeto na formação no Benfica e no Sporting, e Bocundji Ca, médio-centro de cariz defensivo que tem realizado o seu trajeto futebolístico em França.

O extremo Leocísio Sami, antigo jogador de FC Porto e Benfica (formação), atualmente nos turcos do Akhisar Belediyespor, o médio-centro Zezinho, ex-leão que atua nos gregos do Levadiakos, e o avançado Abel Camará, que vinha a ser titular no Belenenses, são as principais figuras de um conjunto que procurará surpreender com a velocidade e irreverência de Piqueti (Sporting de Braga B), Toni Silva (Levadiakos), Aldair (Olhanense) ou João Mário (Desportivo de Chaves). Contudo, apesar do papel decisivo do guardião Jonas Mendes (Salgueiros) no apuramento, os guineenses apresentam muitas debilidades no capítulo defensivo.

Burkina Faso

AHMED OUOBA/GETTY

Finalista vencido em 2013, quando o belga Paul Put conduziu a seleção ao jogo decisivo ante a Nigéria (0-1), o Burkina Faso somará a sua quinta presença consecutiva na fase final da CAN. O português Paulo Duarte, que, entre 2008 e 2012, colocou os garanhões no mapa futebolístico internacional, regressou, no final de dezembro de 2015, para carimbar o apuramento e perseguir o sonho da estreia em fases finais de Mundiais, alternando a utilização de uma estrutura tática em 4x2x3x1 com o 4x4x2 clássico.

Apesar de ainda contar com as referências da brilhante campanha de 2013, como o driblador ziguezagueante Jonathan Pitroipa (Al-Nasr), o líder equilibrador Charles Kaboré (FC Krasnodar) e o pungente avançado Aristide Bancé (ASEC Mimosas), a principal figura passou a ser Bertrand Traoré (Ajax), extremo/avançado canhoto, de 21 anos, contratualmente ligado ao Chelsea. A sua velocidade e aceleração, aliadas a qualidade no drible e espontaneidade no remate, tornam-no perigosíssimo na exploração de diagonais da direita para o meio.

A capacidade para se intrometer na luta pela qualificação para os quartos-de-final, surpreendendo os favoritos Gabão e Camarões, não gerará ondas de espanto, mas tornará crucial o contributo de Bakary Koné, defesa-central que não tem sido titular no Málaga, e de Steeve Yago, defesa polivalente do Toulouse, como também a estabilidade do médio-ofensivo Alain Traoré (Kayserispor) e do extremo versátil Abdou Razack Traoré (Karabükspor), unidades capazes de promover desequilíbrios, mas que não primam pela consistência. Com o médio-defensivo Bakary Saré (Moreirense) na convocatória, a grande surpresa poderá ser Banou Diawara, avançado que alinha nos egípcios do Smouha SC, depois de se ter destacado como goleador no campeonato nacional do Burkina Faso.

Camarões

Vencedores de quatro edições da CAN – 1984, 1988, 2000 e 2002 -, os leões indomáveis continuam a debater-se com enormes problemas organizativos, o que conduziu a várias ausências, entre as quais se destacam as de Joël Matip (Liverpool), Allan Nyon (West Bromwich Albion) e Eric Choupo-Moting (Schalke 04), e ao fracasso da tentativa de convencer os franco-camaroneses Maxime Poundjé (Bordéus), Ibrahim Amadou (Lille) e André-Frank Zambo Anguissa (Marselha) em representar a seleção dos Camarões.

No plano teórico, o conjunto comandado pelo belga Hugo Broos, protagonista de um trajeto tergiversante depois de se sagrar tricampeão belga – dois títulos pelo Club Brugge (1991/92 e 1995/96); e um pelo Anderlecht (2003/04) – assumem favoritismo, mas os resultados e exibições recentes, bem abonadas nas dificuldades para garantir a qualificação – dois empates e três triunfos pela margem mínima em seis jogos – e pela má entrada no apuramento para o Mundial – 2 empates em 2 jogos –, alteiam um mar de dúvidas.

Habitualmente estruturados em 4x2x3x1, os Camarões têm em Vincent Aboubakar (Besiktas, emprestado pelo FC Porto) a sua principal referência, apoiado por Benjamin Moukandjo, médio-ofensivo, de 28 anos, do Lorient, e por Clinton N'Jie, extremo/avançado, de 23 anos, do Marselha, que procuram esconder o défice de criatividade e de fantasia em zonas de criação que tornou os leões muito mais previsíveis e domáveis. Ambroise Oyongo, lateral-esquerdo do Montreal Impact, e Arnaud Djoum, médio-centro que se tem destacado nos escoceses do Hearts, poderão aproveitar a competição para dar o salto para um patamar competitivo mais elevado.

GRUPO B

Argélia

Favorita ao triunfo no grupo mais forte, onde se irá digladiar com Senegal e Tunísia, e com vontade de se imiscuir na luta pela vitória final, objetivo que lhe escapa desde 1990, numa altura em que o futebol genial de Rabah Madjer, auxiliado por Tahar Chérif El-Ouazzani, Djamel Menad e Djamel Amani, conduziu os guerreiros do deserto ao seu único título continental, a Argélia aborda a CAN’2017 extremamente pressionada.

Se é inegável que expõe um elenco de luxo, onde constam os nomes dos extremos Riyad Mahrez (Leicester) e Yacine Brahimi (FC Porto), candidatos a protagonistas da competição, a que se juntam os goleadores Islam Slimani (Leicester) e El Arabi Hillel Soudani (Dínamo Zagreb), ambos com passagens pelo futebol português, e o médio-centro Nabil Bentaleb (Schalke 04), o que é uma garantia de elevado poderio ofensivo, como comprova o ataque mais realizador da fase de apuramento, e de um futebol enleante, tecnicista e desequilibrador, também é verdade que os argelinos têm demonstrado limitações no processo defensivo e uma grande instabilidade no comando técnico, onde o belga George Leeskens sucedeu ao sérvio Milovan Rajevac, que só se aguentou no cargo entre junho e outubro de 2016, depois de ter substituído o francês Christian Gourcuff. Adepto do 3x5x2, que poderá dificultar a potenciação – devido à falta de extremos puros – da qualidade técnica superlativa de Mahrez e Brahimi, o veterano Leeskens parece ter percebido, pelos jogos de preparação, que terá que manter o 4x3x3 como estrutura preferencial.

Zimbabué

A felicidade no sorteio do grupo de apuramento, onde superou Suazilândia, Guiné e Malawi, valeu uma memorável qualificação ao Zimbabué para a CAN’2017: apenas a terceira na história dos guerreiros, que atravessam uma fase muita delicada em que procuram credibilizar o seu futebol, depois de vários escândalos de corrupção e de viciação de resultados. A ventura não teve prolongamento na fase final, e será pouco expetável que o conjunto comandado pelo feiticeiro Callisto Pasuwa, um técnico com um trajeto pouco relevante que costuma variar a utilização do 4x1x3x2 com o 4x2x3x1 e o 4x3x3, consiga atingir a fase a eliminar ao ter que esgrimir forças com Argélia, Senegal e Tunísia.

Knowledge Musona, avançado/extremo dos belgas do Oostende, que se destaca pela mobilidade, velocidade e oportunismo, e o extremo Khama Billiat, que atua nos sul-africanos do Mamelodi Sundowns, onde costuma imitar os festejos de Cristiano Ronaldo quando marca um golo, são as principais figuras de uma Seleção capaz de revelar alguns jogadores menos conhecidos que pretenderão seguir os trilhos de Marvelous Nakamba, jovem médio-defensivo que se tem vindo a impor no Vitesse.

Tunísia

A impressionante solidez defensiva, sustentada por uma organização coriácea e por uma preocupação esdrúxula em não ser surpreendida em transição, bem atestada em apenas 1 golo sofrido em 9 jogos em 2016, é a imagem de marca da Tunísia, seleção comandada pelo veterano Henryk Kasperczak, habitualmente fiel a uma estrutura em 3x4x3, com algumas similitudes com a aplicada por Manuel José, ao serviço do Al-Ahly, no seu périplo conquistador por África. O polaco, de 70 anos, regressou, em julho de 2015, a um País onde foi feliz há duas décadas, ao conduzir as águias de Cartago ao Mundial’1998, aos Jogos Olímpicos’1996 e a um vice-campeonato continental na CAN’1996.

O sonho de repetir o êxito de 2004, quando, sob o comando do francês Roger Lemerre, venceu pela única vez a competição, poderá ganhar forma com a chegada à fase a eliminar, onde o cinismo e o pragmatismo resultadista poderão ser determinantes. Falta, contudo, uma maior criatividade a nível ofensivo, que poderá ser ofertada pelo regressado Youssef Msakni (Lekhwiya), talento superlativo que optou por edificar uma carreira milionária no Qatar, e uma maior contundência em zona de finalização, onde é notória a ausência de um avançado com instinto matador.

Por isso, a ferocidade colocada no contragolpe e o aproveitamento cirúrgico de lances de bola parada acaba por ser crucial para debelar a falta de predicados para ferir o adversário em ataque posicional. Além de Msakni, capaz de impor, a partir da ala esquerda ou nas costas do avançado, o seu futebol tecnicista e pleno de virtuosismo no último passe, destaque para o defesa-central Aymen Abdennour (Valencia), fortíssimo na antecipação e com capacidade para sair a jogar, para o lateral-esquerdo Ali Maâloul (Al-Ahli), muito sagaz a protagonizar desdobramentos ofensivos com e sem bola, e para Wahbi Khazri (Sunderland), unidade móvel de ataque que tem vindo a assumir um papel capital em vários triunfos pela margem mínima.

Senegal

Seis jogos, seis vitórias, treze golos marcados e dois golos sofridos. Foi com esta pungência que o Senegal afiançou a qualificação para a CAN’2017, num grupo onde estavam presentes Burundi, Namíbia e Níger. Contudo, a derrota na África do Sul (1-2), na segunda jornada do apuramento para o Mundial’2018, colocou um ligeiro travão no clima de euforia – após seis triunfos consecutivos em jogos oficiais – em redor da seleção orientada por Aliou Cissé, antigo médio-defensivo de Paris Saint-Germain, Birmingham City e Portsmouth.

Apontados à vitória na CAN, feito que nunca alcançaram em toda a sua história (finalista vencido em 2002, ano em que fez surpresa no Mundial, com Aliou Cissé como capitão), os leões apresentam-se, por norma, organizados numa estrutura em 4x3x3, onde fica bem patente o elevado poderio ofensivo: perigosíssimos em contragolpe, mas com boas soluções em ataque posicional. Sadio Mané, o extremo corrosivo do Liverpool, é a grande figura, fruto da sua velocidade, aceleração, capacidade de desequilíbrio no um contra um, e poder de finalização com os dois pés – o direito é o que melhor define –, mas está bem secundado por Moussa Sow (Fenerbahçe), Mame Biram Diouf (Stoke City) e Keita Baldé Diao (Lazio), extremo formado nas escolas do Barcelona, um dos jovens que mais expetativa desperta. Falta perceber a solidez que o setor defensivo, comandado por Kalidou Koulibaly (Nápoles), poderá oferecer, assim como a resposta que os guarda-redes – os três não primam pela consistência – darão em jogos de grau de dificuldade elevado.

GRUPO C

Costa do Marfim

Campeã africana em título, depois do triunfo em 2015, a Costa do Marfim pretende repetir o êxito, conquistando o seu terceiro troféu continental. A fraca campanha na qualificação, em que apenas somou uma vitória num grupo com Serra Leoa e Sudão, deixa antever arduidades, mas a dose elevada de empates garante uma retumbante série de 23 jogos oficiais consecutivos sem conhecer o sabor da derrota: a última aconteceu, a 15 de janeiro de 2015, no derradeiro particular antes da triunfante campanha na CAN’2015.

A expetável renovação geracional sucedeu-se sob o comando do francês Michel Dussuyer, que assumiu, depois de guiar a Guiné aos quartos-de-final da última CAN, a sucessão do seu compatriota Hervé Renard. Conhecido pelo seu trabalho rigoroso e metódico, Dussuyer, um antigo guarda-redes do Cannes e do Nice, costuma apostar numa estrutura em 4x1x4x1 desdobrável, em momento ofensivo, em 4x3x3.

Sem contarem com os campeões africanos Boubacar Barry, Kolo Touré, Siaka Tiéné, Cheick Tioté, Yayá Toure e Seydou Doumbia, a que se juntou Gervinho, baixa devido a lesão, os elefantes surgem rejuvenescidos e com novas referências, como são o avançado-centro Jonathan Kodjia (Aston Villa), autor de 9 golos em 19 partidas no Championship, o médio-centro Franck Kessié (Atalanta), que soma 6 tentos em 16 jogos na Serie A, e o extremo Wilfried Zaha (Crystal Palace), que chegou a representar a seleção principal inglesa, a que se juntam o defesa-central Eric Bailly (Manchester United), o defesa-central ou lateral canhoto Wilfried Kanon (ADO Den Haag), o lateral-direito Serge Aurier (Paris Saint-Germain), e o médio-centro Jean Michaël Seri (Nice), antigo jogador de Paços de Ferreira e FC Porto B, além dos experientes Salomon Kalou (Hertha), Wilfried Bony (Stoke City) e Max Gradel (Bournemouth), que não se têm vindo a destacar pela consistência a nível exibicional.

Togo

SEYLLOU

Emmanuel Adebayor, apesar da sua condição de desempregado, continua a ser a grande bandeira dos gaviões. Aos 32 anos, o avançado dispensado, no último verão, pelo Crystal Palace, que venceu, em 2008, o prémio de melhor jogador africano, quer ser protagonista de forma a relançar a sua carreira, e assumiu, com visual de estrela do hip-hop, um discurso muito ambicioso à chegada ao Gabão, afirmando que os togoleses não estão na CAN para fazer figuração.

Comandado tecnicamente pelo francês Claude Le Roy, na sua oitava experiência como selecionador no continente africano, onde conquistou uma CAN, há vinte e nove anos, pelos Camarões, o Togo espera por mais um milagre do velho feiticeiro gaulês, já que as soluções, tal como os resultados – repescado como um dos dois melhores segundos classificados de todos os grupos da qualificação –, são parcas e deixam antever o pior cenário: a eliminação na fase de grupos.

À experiência da referência ofensiva Adebayor, do guardião Kossi Agassa, perdido nas divisões regionais do futebol francês, do médio-defensivo Alaixys Romao, suplente no Olympiacos de Paulo Bento, e dos extremos Serge Gakpé, com pouco espaço no Génova, Floyd Ayité, titular do Fulham e o togolês em melhor forma, e Mathieu Dossevi, protagonista de uma época irregular no Standard de Liège, Le Roy, que costuma alternar a utilização do 4x2x3x1 e do 4x4x2 clássico, procurará juntar a irreverência dos semidesconhecidos Kodjo Fo-Doh Laba (Nahdat Berkane) e Komlan Agbégniadan (West African FA), também conhecido por Platini, atacantes sem experiência no futebol europeu.

República Democrática do Congo

Semifinalista em 2015, ao cair nas meias-finais diante da (futura) campeã Costa do Marfim, depois de ter passado a fase de grupos com três empates e de ter superado o Congo (4-2), após ter recuperado de uma desvantagem de 0-2, nos quartos-de-final, a República Democrática do Congo pretende voltar a surpreender na CAN’2017. Num grupo com Costa do Marfim e Marrocos, a tarefa do grupo comandado por Florent Ibengé, mestre em Ciências Económicas, afigura-se como hercúlea, o que se agudizou com o confirmar da ausência do incisivo Yannick Bolasie (Everton), a principal figura dos leopardos.

Contudo, a qualificação para a competição continental – 5 vitórias e 1 derrota em 6 jogos –, o início de apuramento para o Mundial’2018 – 2 triunfos em 2 partidas – e a vitória na CHAN’2016 – competição só para atletas que atuam em África – fazem acreditar no efeito surpresa. Habitualmente estruturados em 4x2x3x1, os congoleses destacam-se pela ferocidade aplicada no contragolpe, explorando a contundência no ataque à profundidade de Cédric Bakambu (Villarreal) e o oportunismo de Dieumerci Mbokani (Hull City), a que se poderão juntar Jonathan Bolingi (TP Mazembe), revelação do campeonato local e forte candidato ao salto para o futebol europeu, e Jeremy Bokila (Al Kharaitiyat), avançado com larga experiência no futebol europeu. As maiores deficiências da seleção congolesa estão na (in)consistência do seu processo defensivo, nomeadamente na definição da última linha e na reação à perda da bola, e nos riscos excessivos que assume quando procura sair a jogar através de uma construção curta-média.

Marrocos

Sem títulos continentais desde 1976, o que representa um jejum de quatro décadas, e incapazes, nos últimos doze anos, de ultrapassar a fase de grupos, os leões do Atlas abordam a CAN’2017 com ambição em doses superlativas. Para isso contribuiu a chegada ao comando técnico do francês Hervé Renard, vencedor de duas das três últimas edições da CAN (em 2012, pela Zâmbia; em 2015, pela Costa do Marfim), astuto a edificar uma seleção forte e extremamente competitiva, o que conduziu a um apuramento sem derrotas – 5 vitórias e 1 empate com apenas 1 golo sofrido – e a um ano de 2016 invicto, como certificam os 6 triunfos e 4 empates em 10 partidas.

Habitualmente estruturados em 4x2x3x1, os marroquinos caracterizam-se pela firmeza do seu processo defensivo, tanto em organização como em transição, o que explica o parco registo de golos sofridos, mas também apresentam argumentos muito interessantes no processo ofensivo, ainda que as lesões de Oussama Tannane (Saint-Étienne), Nordin Amrabat (Watford), Sofiane Boufal (Southampton) e Younès Belhanda (Nice) retirem criatividade e poder de fogo ao conjunto comandado por Renard. Intensificará, assim, a dependência de Mbark Boussoufa (Al Jazira), extremo transformado em médio-centro-ofensivo, decisivo nos processos de construção e de criação, assim como a necessidade de contar com a inspiração de Nabil Dirar (Mónaco) e de Mehdi Carcela (Granada, por empréstimo do Benfica) no apoio a Youssef El-Arabi (Lekhwiya), principal referência ofensiva da seleção marroquina, que terá dois goleadores da segunda divisão francesa – Khalid Boutaïb (Estrasburgo) e Rachid Alioui (Nîmes) – como alternativas, o que pode revelar-se curto.

No entanto, o robustecimento da zona central do meio-campo e a competência do setor defensivo, comandado pelo patrão Medhi Benatia (Juventus), fortíssimo no desarme, arguto na antecipação e glaciar a assumir a primeira fase de construção, secundando por Manuel da Costa (Olympiacos), antigo internacional sub-21 português, são os principais trunfos de um forte candidato a chegar à fase decisiva da competição.

GRUPO D

Gana

Finalistas vencidos em 2015, as estrelas negras, tetracampeãs africanas (1963, 1965, 1978 e 1982), continuam com Avram Grant no papel de selecionador. O israelita, que estrutura a seleção entre o 4x2x3x1 e o 4x4x2 clássico, tem vindo a apostar na continuidade, o que fica refletido na chamada de 16 dos 23 jogadores que estiveram presentes na última edição da CAN.

Protagonista de um trajeto invicto no apuramento – 4 vitórias e 2 empates em 6 jogos –, o empate caseiro ante o Uganda (0-0) e a derrota na deslocação ao Egito (0-2), nos dois primeiros jogos da fase de qualificação para o Mundial’2018, fizeram disparar a contestação em redor do antigo treinador de Chelsea (foi finalista vencido de uma edição da Liga dos Campeões), de Portsmouth e de West Ham, que aborda esta competição numa posição extremamente fragilizada, percebendo-se que só uma campanha bem-sucedida, o que implicará a chegada, pelo menos, às meias-finais, possibilitará que continue em funções.

O imenso talento individual de André Ayew (West Ham United), Jordan Ayew (Aston Villa), Christian Atsu (Newcastle United) e Mubarak Wakaso (Panathinaikos) é uma garantia permanente de desequilíbrios no um contra um, acrescida pela capacidade goleadora de Asamoah Gyan (Al-Ahly Dubai), que procura reencontrar-se com a boa forma na principal competição continental de seleções. Habituado a assumir um papel dominador, o Gana gosta de fazer a bola circular entre os três corredores, mostrando facilidade em perscrutar o jogo exterior, ainda que, em algumas situações, se mostre excessivamente preso a premissas individuais para chegar a zonas de finalização. Falta, contudo, uma maior competência no momento de transição defensiva, já que é uma seleção que, apesar de contar com jogadores com vasta experiência no futebol europeu, se desequilibra com alguma facilidade e assume riscos excessivos a nível posicional.

Uganda

Passaram-se 39 anos sobre a derradeira participação ugandesa na CAN. Em 1978, as garças foram a grande surpresa da competição, atingindo, depois de aniquilarem Congo, Marrocos e Nigéria, a final da prova, onde foram derrotados pelo Gana (0-2). O apuramento, como um dos dois melhores segundos classificados da fase de qualificação, revelou-se epopeico, até porque foi obtido com os mesmos pontos do Burkina Faso, que venceu o grupo pela vantagem no confronto direto.

O técnico sérvio Milutin Sredojevic, com um largo trajeto quase anónimo no futebol africano, tornou-se em herói nacional, e aborda a grande competição continental de seleções com grande confiança, depois do empate na deslocação ao Gana (0-0), em jogo a contar para a qualificação para o Mundial’2018, e do triunfo ante a Eslováquia (3-1), no penúltimo particular antes da CAN’2017. E nem a contundente derrota diante da Costa do Marfim (0-3), na passada quarta-feira, baixou os níveis de confiança de uma seleção, habitualmente organizada entre o 4x1x4x1 desdobrável em 4x3x3 (plano A) e o 4x4x2 clássico (plano B), que nada tem a perder.

Denis Onyango, guarda-redes titular do Mamelodi Sundowns, emblema sul-africano que venceu a Liga dos Campeões Africana em 2016, é a grande figura da Seleção, e dele esperam-se, à semelhança do que aconteceu na campanha vitoriosa do seu clube, uma série de defesas impossíveis, fazendo gala da sua consistência e incomum frieza no momento da tomada de decisão, o que lhe valeu o prémio de melhor jogador africano – a atuar em clubes africanos – no último ano. Do ponto de vista ofensivo, a aposta do Uganda passa inequivocamente pela exploração de contragolpes, fazendo-se valer da velocidade e mobilidade de Farouk Miya, jovem unidade móvel de ataque que procura o seu espaço no Standard Liège, de Luwagga Kizito, extremo do Rio Ave, e de Moses Oloya, extremo que se tem imposto como estrela no exótico campeonato vietnamita.

Egipto

Paolo Bruno

Depois da tempestade, a bonança. A seleção mais titulada do continente – heptacampeã – e com mais participações em fases finais – esta será a 23.ª presença – está de regresso à CAN, depois de ter mergulhado num clima de depressão profunda, devido às violentas convulsões internas que se prolongaram até aos relvados, o que conduziu a que o Egipto se despedisse da CAN em 2010, ano em que somou um inédito terceiro triunfo consecutivo na competição. Sob o comando técnico do reflorescido Héctor Cúper, treinador da moda na mudança de século, altura em passou por Maiorca, Valência – onde chegou a duas finais da Liga dos Campeões – e Inter de Milão, que viu a sua carreira cair em desgraça, os faraós preparam-se para assaltar o trono continental perdido.

A qualificação para a CAN, em que superou sem derrotas um grupo onde a Nigéria assumia o papel de favorito, e o início de apuramento totalmente vitorioso para o Mundial’2018, apesar dos confrontos ante Gana (2-0, em casa) e Congo (2-1, fora), fizeram disparar a confiança. Com Cúper, o Egito, habitualmente estruturado num 4x2x3x1, tornou-se numa seleção mais sólida e competente no capítulo defensivo, ao aumentar os seus índices de concentração e de agressividade, ainda que revele algumas arduidades no futebol aéreo (erros na cobertura do segundo poste por parte dos laterais), e, mesmo sentindo-se confortável com bola, mostra-se particularmente pungente na exploração de contragolpes.

Mohamed Salah, extremo da Roma, é a grande figura dos egípcios, e assume a sua candidatura a melhor jogador da competição, mas é bem secundado por uma combinação entre jogadores experientes, como o lateral-direito Ahmed Fathy (Al-Ahly), o lateral-esquerdo Mohamed Abdel Shafy (Al-Ahly), o médio-ala ou lateral-direito Ahmed El Mohamady (Hull City), o médio-ofensivo Abdallah Said (Al-Ahly), o avançado Marwan Mohsen (Al-Ahly), que chegou a passar pelo Gil Vicente, ou o veteraníssimo guardião Essam El Hadary (Wadi Degla), de 43 anos, e muitos jovens, como o médio-defensivo Mohamed Elnenny (Arsenal), os médios-ala/extremos Ramadan Sobhi (Stoke City), Mahmoud Kahraba (Al Ittihad) e Mahmoud Hassan “Trézéguet” (Mouscron), ou o avançado Ahmed Hassan “Koka” (Sporting de Braga).

Mali

Terceiro classificado em 2012 e 2013, o Mali soma a sua sexta participação consecutiva em fases finais da CAN, depois de ter vencido sem derrotas – 5 vitórias e 1 empate – um grupo de grau de dificuldade baixo, onde estavam presentes Benim, Guiné Equatorial e Sudão do Sul. Contudo, um mau arranque de qualificação para o Mundial’2018, bem patente na derrota na deslocação à Costa do Marfim (1-3) e no empate caseiro ante o Gabão (0-0), criaram muitas dúvidas sobre a capacidade para se impor num grupo onde Egito e Gana assumem um claro favoritismo, e deixaram o selecionador Alan Giresse, glória do futebol francês da década de 1980, numa situação desconfortável.

Numa fase clara de transição, após o abandono da geração que tinha Seydou Keita, antigo jogador do Barcelona e da Roma, como grande bandeira, as águias, que alternam a utilização do 4x4x2 com o 4x2x3x1, apresentam claras debilidades no processo defensivo (em organização e transição), ao consentirem muitos espaços nas entrelinhas e ao patentearem erros na definição da última linha, que desfraldam arduidades no controlo da profundidade.

No entanto, evidenciam argumentos interessantes no capítulo ofensivo, onde se destacam o médio-ofensivo Adama Traoré (Mónaco), o médio-ala/extremo-direito Sambou Yatabaré (Werder Bremen), e o extremo/avançado Moussa Doumbia (Rostov), que poderão servir como suporte a Moussa Marega, autor de 10 golos em 12 jogos ao serviço do Vitória SC Guimarães, ou ao pujante Kalifa Coulibaly (Gent), que anotou 8 tentos em 9 partidas a contar para a Liga Europa.