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Emocional, arrogante, tirano e um dos melhores do mundo - chega ao fim a carreira de Louis van Gaal

O holandês despediu-se do futebol por “motivos familiares”. Deixa uma carreira de alguns sucessos e muitas polémicas, fruto de um caráter explosivo e destemperado

FILIPA BULHA PEREIRA E VANESSA PORTUGAL

Mike Hewitt

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Louis van Gaal começou a carreira de jogador no Ajax e, em 1991, depois de umas quantas passagens por outras equipas, assumiu-se treinador principal do clube. Após atirar -se para o chão num ato “emocional”, após levar uma carta de vinhos para um jogo, após assumir-se “muito arrogante” e "um dos melhores treinadores do mundo” - e sobretudo, após dividir milhares de opiniões, van Gaal diz adeus.

Aconteceu no dia em que foi homenageado pelo governo holandês, ocasião que aproveitou para anunciar o fim da carreira. Aos 65 anos, justificou a decisão com “motivos familiares”. Eis o percurso do treinador holandês que tem em Rinus Michel, igualmente jogador e treinador holandês, o seu exemplo.

Do Ajax ao Manchester são uns cabelos brancos de distância

O primeiro clube de Louis van Gaal foi o Ajax, no qual, enquanto jogador, nunca passou da equipa de reservas. Sparta Rotterdam foi o clube que o acolheu posteriormente e onde jogou maioritariamente no meio-campo.

A carreira de futebolista, está visto, não foi boa.

No AZ Alkmaar, iniciou a carreira de treinador, como adjunto, e, entre 1988 e 1991, exerceu a mesma função no Ajax. Após a saída de Leo Beenhakker, assumiu o cargo de treinador principal. Até 1997, o clube de Amsterdão brilhou no mundo do futebol. Com Van Gaal no comando, o Ajax conquistou três títulos de campeão, uma Taça da Holanda, uma Taça UEFA e a UEFA Champions League em 1995. Em 1996, o clube foi até à final desta última liga e podia ter vencido, não fosse a Juventus ter aproveitado os penalties para rumar à vitória.

Em 1997, quem o recebeu foi o país de nuestros hermanos. Durante três anos, até 2000, treinou o FC Barcelona, no qual conseguiu vencer dois campeonatos e conquistar uma Taça de Espanha. Depois,voltou à terra Natal e assumiu o cargo de selecionador holandês. Para mal dos seus pecados, por meros dois pontos, não conseguiu levar os jogadores ao Campeonato Mundial de 2002. Falhou.

Foi então que regressou ao Barcelona, por uns tempos, antes de se afastar do frenesim futebolístico até 2005, ano em que assumiu o comando do AZ. Em 2009, levou a equipa ao primeiro lugar do campeonato holandês (há mais de 20 anos que o título lhes fugia por entre os dedos). Histórico.

E 2009 foi também o ano em que o Bayern (que precisava de uma valente mudança táctica na altura) recebeu o treinador holandês de braços abertos. Neste dream club, van Gaal adotou o 4-2-3-1 e rapidamente fez com que a equipa voltasse às vitórias: conquistou o título, a Taça e a Supertaça.

Só que a época de 2010/11 foi mais negra: uns quantos resultados menos bons, aliados ao temperamento "especial" de Van Gaal ("arrogante" e "emocional", diz ele), resultaram na demissão do treinador no final da temporada.

Em julho de 2012, van Gaal voltou para o comando da seleção holandesa. Levou a equipa ao Campeonato Mundial de 2014, no Brasil, sem qualquer derrota, e Apesar de não ter conseguido vencer a competição, garantiu um lugar no pódio e nos manuais de tática - foi ele quem fez regressar a defesa a três (ou a cinco). Van Gaal estava em alta e aproveitou o marasmo do Manchester United para assumir o cargo de manager.

Em Old Trafford, o estilo do treinador holandês nem sempre foi bem visto (chegaram mesmo a apelidá-lo de “aborrecido”) e a estadia deste ficou marcada por várias polémicas. Conseguiu uma Taça de Inglaterra e, em 2016, foi despedido, cedendo o cargo a José Mourinho.

O Hitler dos jogadores brasileiros

Polémica aqui, polémica ali, van Gaal não seria van Gaal sem umas pedras no respetivo caminho futebolístico.

“Van Gaal é o Hitler dos jogadores brasileiros, é arrogante, orgulhoso, tem problemas. E não tem a menor ideia sobre futebol. Ele é louco”, disse, um dia, Giovanni, que jogou sob o olhar do treinador no Barcelona. E se Giovanni pensa assim, então Rivaldo nem se fala. Em 1999, o brasileiro foi eleito melhor jogador do mundo pela FIFA. Até à data, já tinha tido uns desentendimentos com Van Gaal mas a partir daqui tudo piorou – até um atraso de 20 segundos chegou a ser motivo de discussão.

Já no Bayern, van Gaal foi protagonista de uma “novela” de balneário. Durante uma discussão em equipa, cujo alvo principal era o jogador Luca Toni, o treinador holandês quis mostrar que era capaz de “dar baixa” a qualquer jogador. Mas não o fez apenas metaforicamente.

Van Gaal baixou mesmo as calças e o que trazia debaixo delas.

A comandar o Manchester, o treinador teve também algumas pérolas. A mais flagrante foi a queda que deu durante uma conversa com o quarto árbitro de um Manchester-Arsenal em 2016. Isto não teria mal nenhum, não fosse a queda tão obviamente propositada. "Fui demasiado emocional. Naquela altura deixei-me levar pela emoção, o que não é bom para o árbitro, auxiliares ou quarto árbitro.", justificou-se. Ficou claro que a carreira de ator não é mesmo o forte do holandês.

Outro dos momentos altos do treinador mistura ócio com trabalho. É que o holandês deu-se ao luxo de juntar à tática futebolística uma carta de vinhos na pasta de jogo. Pelo menos é isto que mostram algumas fotografias captadas em maio de 2015, durante um jogo do Manchester contra o Crystal Palace. Obviamente, os adeptos não gostaram. Tal como os jogadores ou os jornalistas não gostaram de outros gestos em que o caráter explosivo e destemperado do treinador veio à tona.

Ainda assim, van Gaal deixa o jogo como um dos grandes.