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Pato à Pequim, ou a última transferência absurdamente cara para um clube chinês

O Governo chinês anunciou recentemente novas regras, mas as contratações a peso de ouro continuam – a do brasileiro Alexandre Pato foi a mais recente

Luís M. Faria

Alexandre Pato tem 27 anos e é internacional brasileiro

JOSE JORDAN/GETTY

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Foi anunciado esta segunda-feira que Alexandre Pato, futebolista brasileiro de 27 anos, vai transferir-se do Villarreal para o Tianjin Quanjian. Este clube chinês, que só no ano passado conseguiu ascender à Superliga nacional, vai pagar 18 milhões de euros pela transferência, mais um salário anual de cinco milhões e meio. Para um jogador com a idade de Pato e cuja carreira nos últimos anos tem andado longe do brilhantismo de outros tempos – um fracasso no Chelsea, seguido por uns exíguos seis golos em 24 jogos no Vilarreal – parece um preço bastante elevado. Mas vendo aquilo que se tem pago na China ultimamente, não é nenhuma surpresa.

Ainda recentemente o mesmo clube, onde já joga o ex-benfiquista Alex Witzel, tentou contratar Diego Costa, um jogador que passou pelo Penafiel e pelo Sporting de Braga antes de se revelar a estrela internacional que hoje é. Constou que a soma oferecida ao Chelsea poderia chegar aos 150 milhões de euros, mas o clube britânico recusou. A concretizar-se, teria sido um recorde.

Em dezembro, o argentino Carlos Tevez transferiu-se para o Xangai Shenhua por uns meros 83 milhões de euros – o recorde atual. Logo antes, outro brasileiro, o médio Oscar, foi para outro clube da mesma cidade, o Xangai SIGP, a troco de 60 milhões. Trata-se do mesmo clube para onde Hulk se transferiu em junho por 65 milhões de euros. Estas somas não incluem os ordenados dos jogadores, que atingem centenas de milhares de euros por semana.

A cultura não se inventa

Para as empresas que controlam os 16 clubes da Superliga, contratar jogadores por somas fabulosas é uma forma de dar nas vistas e de mostrar serviço ao Governo. Mas numa altura em que o Presidente Xi Jinping leva a cabo uma campanha anticorrupção, essas extravagâncias nem sempre caem bem. Este mês, a associação de futebol chinesa estabeleceu novas regras. Entre as quais: nenhum clube pode ter ao serviço mais do que três estrangeiros, seja de que nacionalidades forem. Anteriormente, podiam ter quatro de qualquer nacionalidade, mais um asiático.

André Villas-Boas, o treinador português do Xangai SIGP, não discorda das novas regras, mas diz que não deviam ter sido introduzidas imediatamente antes da temporada que começa a 7 de março, pois os clubes prepararam-se de acordo com as regras antigas.

De qualquer modo, as mudanças não se referem apenas a jogadores estrangeiros (ou aos jogadores chineses abaixo de 23 anos, cuja presença passa a ser imposta) mas também a todo o esquema financeiro adotado. Há medidas contra a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro, por exemplo.

A China está a fazer tudo para se tornar uma potência futebolística de nível internacional, com o alegado objetivo de vencer um Campeonato do Mundo até meados do presente século. O Governo anunciou recentemente planos para multiplicar o número de campos de futebol no país – de 11 mil para 70 mil. A meta é ter cinquenta milhões de pessoas a jogar futebol em 2025. Mas, conforme alguém notou, nem os pais nem a cultura social que produzem os grandes jogadores se inventam. O dinheiro ajuda, mas vai ser preciso muito mais do que isso.

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