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Boateng, o homem que Mandela queria para genro e que comprou três carros num só dia (relatos de uma vida desvairada)

Ganês de 29 anos recebeu o The Guardian em Las Palmas e falou de forma cândida e sincera da vida destravada que levou em Londres, de racismo, do encontro com Nelson Mandela durante o Mundial da África do Sul e da nova aventura na cidade espanhola em pleno Atlântico, onde quer ser um exemplo para os miúdos do clube: "Já lhes dei exemplos de coisas que fiz mal: cometi erros, estou OK com isso agora, mas não quero que eles façam coisas estúpidas que os marquem para sempre"

Lídia Paralta Gomes

ELVIRA URQUIJO A./EPA

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Londres, também conhecida como “a Disneyland dos adultos”. Foi por lá que Kevin-Prince Boateng quase se perdeu, quando o Tottenham contratou um rapaz de 20 anos cheio de talento, mas pouco preparado para o explosivo combo “muito dinheiro+seduções da grande metrópole europeia”.

E depois do técnico Martin Jol dizer que não contava com o ganês no início da sua segunda época na capital britânica, Boateng decidiu “aproveitar a boa vida”.

E à grande.

“Saía todas as noites até às 6h. Passado um ano, pesava 95 quilos, inchado pela bebida e má comida”, confessou o ganês numa entrevista ao The Guardian.

Foi em Las Palmas, onde Boateng tenta um novo recomeço, aos 29 anos, que Sid Lowe falou com o médio, que em 2015 esteve prestes a assinar pelo Sporting – oficialmente a quebra nas negociações deveu-se à impossibilidade de “chegar a acordo relativamente aos direitos de imagem” do jogador, mas Kevin-Prince terá falhado os exames médicos depois de alguns meses sem jogar no Schalke 04.

Na capital britânica, Boateng não jogava e encontrava a felicidade gastando “quantidades enormes de dinheiro em discotecas, roupas e carros”. E aos rumores de que terá comprado três carros no mesmo dia, Kevin-Prince responde de forma cândida. “É verdade. Porque tentas comprar a felicidade. Não podia jogar futebol, por isso comprei um Lamborghini. Uau, ficas feliz durante uma semana, mas depois disso nem sequer o usas mais. Ainda tenho uma fotografia: três carros, uma grande casa e eu ali como se fosse o 50 Cent. Agora olho para a imagem e digo: ‘Olha que estúpido que eras’”.

Até que um dia, o ganês nascido em Berlim olhou para o espelho e assustou-se. “Pareço velho”. Um velho de 20 anos.

De Portsmouth até Madiba

Dortmund foi a tábua de salvação de Kevin-Prince Boateng. Emprestado ao Borussia, voltou a jogar com regularidade às ordens daquele que diz ser “o melhor treinador do mundo inteiro”, Jurgen Klopp. “Ele sabe exatamente o momento em que tem de puxar por ti e o momento em que tem de te confortar”, explica ao diário britânico.

Seguiu depois para Portsmouth e a boa temporada no sul de Inglaterra valeu-lhe a convocatória para o Mundial de 2010 pela seleção do Gana, país natal do pai.

Na África do Sul, além da curiosidade de ter enfrentado o irmão Jérôme, convocado pela Alemanha – foi a primeira vez que tal aconteceu na história dos Mundiais –, e de levar muita gente à loucura (“Chamavam-me ‘David Black-ham'. Era uma estrela”), teve outro encontro para a história e que terminou com uma proposta que quase não podia recusar. Por vir de quem veio.

Neste caso, Nelson Mandela.

“Há três pessoas que sempre quis conhecer: Michael Jackson, Muhammad Ali e Nelson Mandela. Só consegui conhecer um e é difícil descrever: é só felicidade. Ele entrou na sala, apertou-me a mão, puxou-me para si e disse: ‘A minha filha quer casar contigo’. E eu respondi: ‘Peço desculpa, mas já tenho namorada’. E então ele disse: ‘Não, não, mas eu tenho outras, mais bonitas’. Toda a gente se riu”.

Apesar da fama de bad boy, Kevin-Prince Boateng é o único jogador que já discursou nas Nações Unidas contra o racismo, depois de em janeiro de 2013, então no Milan, ter abandonado o campo após ouvir um chorrilho de insultos racistas num encontro frente ao Pro Patria. E também no Las Palmas, numa ilha no meio do Atlântico, o médio que aponta Ronaldinho Gaúcho como o “mais genuíno” com quem jogou quer voltar a ser um exemplo.

“Cá há muitos jovens jogadores com muito talento. Viver aqui pode ser complicado: é bonito, o tempo é fantástico, treinas duas vezes por dia e podes ir à praia, mas é difícil estar focado no meio de uma ilha. Assim, eu tento ajudar, dar conselhos. Se eles ouvem ou não, é com eles, mas pelo menos posso dizer que tentei”, sublinha. “Não quero que eles desperdicem o seu talento. Já lhes dei exemplos de coisas que fiz mal: cometi erros, estou OK com isso agora, mas não quero que eles façam coisas estúpidas que os marquem para sempre. ‘Bad boy’, ‘alcoólico’, ‘festeiro’... muitos jornais ainda têm essa imagem minha. Tanto faz. Vá lá, eu falei nas Nações Unidas. Digam-me outro jogador que o tenha feito?”

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