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Lovren foi refugiado e deixa um pedido: “Eu sei o que algumas famílias estão a passar. Dêem-lhes uma oportunidade”

Central do Liverpool tinha 3 anos quando rebentou a Guerra dos Balcãs. Ouviu bombas e histórias de horror, até que a família entrou num carro e fugiu para a Alemanha. Agora, Lovren contou a sua história num documentário produzido pela televisão oficial do clube inglês

Lídia Paralta Gomes

Clive Brunskill/Getty

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Depois de um complicado início de carreira em Anfield, Dejan Lovren tornou-se um dos homens de confiança de Jurgen Klopp na defesa do Liverpool. E passar de aparecer em listas de piores contratações do clube até titular só está ao alcance de alguém com muita força interior - a força que se ganha quando, por exemplo, se é obrigado a fugir de casa devido à guerra e a viver num outro país como refugiado.

Essa a história de Lovren, que o croata contou sem filtros num documentário produzido e transmitido pela televisão do Liverpool e que pode ser visto na íntegra aqui.

Em pouco mais de 20 minutos, o central conta como ele e a sua família foram obrigados a fugir da vila de Kraljeva Sutjeska, perto de Zenica, atual território da Bósnia, quando começou a guerra dos Balcãs. Lovren tinha apenas 3 anos e iniciou uma nova vida como refugiado na Alemanha.

“Nunca tínhamos tido problemas e todos os vizinhos se davam bem. Muçulmanos, sérvios… todos falavam bem uns com os outros e aproveitavam a vida. Até que aconteceu”. A guerra, queria Lovren dizer.

“Só me lembro quando as sirenes começavam a tocar. Eu ficava muito assustado e pensava ‘bombas’. Lembro-me que a minha mãe pegava em mim e íamos para a cave. Nem sei quanto tempo lá ficávamos sentados, acho que era até as sirenes pararem. Um dia a minha mãe, o meu tio e a mulher do meu tio pegaram no carro e conduziram até à Alemanha. Deixámos tudo, a casa, a loja dos meus pais. Foi pegar numa mala e ‘vamos embora’”, explica o jogador, de 27 anos.

Na Alemanha, mais propriamente em Munique, já estava um avô de Lovren, que recebeu a família numa pequena casa onde chegaram a viver 11 pessoas. E por lá o jovem foi acompanhando os horrores que faziam parte do dia-a-dia da sua terra natal. “Era nas aldeias mais pequenas que as coisas mais horríveis aconteciam… pessoas a serem mortas de forma brutal. Um irmão de um dos meus tios foi morto em frente a outras pessoas com uma faca”, explica Lovren durante o documentário.

Por saber o que sofre um refugiado, Dejan Lovren deixa um importante pedido: “Quando vejo o que se passa por estes dias só me lembro do que passei, da minha família e de como as pessoas não te querem no seu país. Eu percebo que as pessoas queiram proteger-se, mas outras pessoas não têm casa e não é culpa delas: estão a lutar pelas suas vidas, para salvar os seus filhos. Querem um sítio seguro para os seus filhos e para o seu futuro. Eu passei por tudo isto e sei o que algumas famílias estão a passar neste momento. Dêem-lhes uma oportunidade”.