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O rabo de cavalo de ouro faz 50 anos

Ele não sentia gozo em marcar golos sem que antes fizesse algo de bonito. Marcou mais de 200 em Itália. Pelo meio, tornou-se budista, foi operado três vezes ao joelho antes dos 18, ficou no banco na meia-final de um Mundial porque o treinador achou que ele estava com ar de cansado e, quatro anos depois, falhou o penálti na final de outro. É isso que mais se recorda de Roberto Baggio. Mas ele, que faz hoje 50 anos, era muito mais do que isso

Diogo Pombo

Simon Bruty

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Houve dois dias, em Florença, em que as pessoas perderam a cabeça. Passaram-se, mesmo. Viram-se milhares a cercarem o estádio Artemio Franchi e a ficarem por lá durante horas. Estavam furiosas, berravam, espumavam de raiva. O presidente da Fiorentina, nesse dia, recusou-se a abandonar o gabinete no qual se trancou. Os protestos duraram tanto que se espalharam pela cidade, onde uns 50 adeptos, feitas as contas, resultaram feridos entre os protestos. Do centro de Florença, a gente furiosa seguiu para Coverciano, oito quilómetros distante do centro da cidade, onde a seleção italiana estava em estágio. Os protestos continuaram por aí.

Pessoas a não dormirem em casa, polícia à mistura, muitas agressões, gritos e confusão nas ruas, demasiadas cabeças perdidas. Era tudo por causa de um homem.

Roberto Baggio.

Porque nesse verão houve uma noite, já com a época de clubes a ir para a cama e a das seleções, que iam para um Mundial, a despertar, que a gente de Florença não esperava. Souberam que a Fiorentina vendera este homem à Juventus, semanas depois dele, e deles, perderem a final da Taça UEFA contra a equipa de Turim. E ele, que era adorado e os adorava, estava a ir-se embora ao fim de cinco temporadas. Isto foi em 1990 e ele, ao ser apresentado na Juve, não pôs ao pescoço o cachecol que lhe deram, para jornalista ver e fotografar. Os adeptos não gostaram.

Todos sabiam que, na época seguinte, o miúdo e os seus 23 anos teriam de regressar a Florença. Quando o fizeram, um dos apitos do árbitro deu um penálti contra a Fiorentina e quando a bola pára ali, é o melhor pé que a bate. Era o de Roberto Baggio. Mas ele, sabendo onde estava, recusou-se, e De Agostini, o tipo que o bateu, falhou. A Juventus acabou por perder 1-0 e Baggio por ser substituído a meio. A meio caminho entre o relvado e o banco, alguém na bancada lhe atirou um cachecol da Fiorentina, que ele apanhou e envolveu no pescoço. Mais adeptos a espumarem, os brancos e pretos em vez dos roxos.

E se havia personagem em Itália a quem, com o tempo, isto se perdoava, era Roberto Baggio.

Ele nasceu num tempo em que Itália era o centro do futebol e uma terra em que se olhava a táticas, a defender, a correr e a ter mais músculo e cabeça do que outra coisa. A era do catenaccio, do apogeu de uma crença na capacidade de o futebol feio, aborrecido e contido também ganhar jogos.

Nesse tempo, ele jogou à bola, correu apenas para a frente, fintou pessoas, pernas, carrinhos e faltas e recusou-se a marcar golos - foram mais de 300 - sem antes fazer algo de bonito pelo meio. Ele estreou-se a marcar contra o Nápoles de Maradona, de livre, depois de ser operado três vezes ao mesmo joelho antes de fazer 18 anos - o que o fez duvidar do futebol e dele próprio, que não mais se livrou das dores até aos 37, idade até à qual se aventurou.

Com mais peso, mais idade e mais cabelos brancos, Baggio acabou no Brescia em 2004, a marcar golos e com os adeptos a pedirem que fosse convocado para o Europeu, aos 37 anos

Com mais peso, mais idade e mais cabelos brancos, Baggio acabou no Brescia em 2004, a marcar golos e com os adeptos a pedirem que fosse convocado para o Europeu, aos 37 anos

Claudio Villa /Allsport

A aventura dele começou em Caldogno, no norte de Itália, onde nasceu. Fica perto de Vicenza, clube que o foi buscar em miúdo e o vendeu, em adolescente, à Fiorentina. Aos 17 anos, um rapazote italiano vindo de um clube acabado de subir à segunda divisão custava 1.7 milhões de euros, quando, na altura, o génio mais caro do mundo era o de Diego Maradona, por quem o Nápoles pagara 5.8 milhões ao Barcelona, um ano antes.

Ali havia gato.

Ou um leopardo, pela forma como na Fiorentina, primeiro, e na Juventus, no AC Milan, no Bolonha, no Inter de Milão e no Brescia, por último, ele ziguezagueava por entre adversários. Parecia fácil. E era-o, para Baggio. Mesmo que as três operações ao joelho o fizessem dizer que tinha uma perna e meia. Ou que, ao longo da carreira, se apenas tivesse jogado quando não sentia dores, teria estado em duas ou três partidas por época. Ele era alérgico à maioria dos medicamentos anestésicos e, face à dor e à descrença que sentia, cedo se virou para o budismo.

Baggio era tímido, introspectivo e conhecido por falar pouco, quase não dar entrevistas. As coisas aconteciam à maneira dele, que era especial, como o brinco na orelha e o rabo de cavalo que deixou crescer e lhe dava um visual bizarro para a época - assim pegou a alcunha, “Il Codino d’Oro”. Baggio, que trocou de grandes clubes em Itália como quem muda de t-shirt, caía no goto dos adeptos, fiéis adoradores das fintas, dos dribles a circundarem guarda-redes, dos raides que ele fazia sozinho e das soluções que arranjava para quando estava cercado. “A coisa mais bonita da minha carreira é o sentimento que as pessoas têm por mim”, chegou a dizer.

O problema que Roberto Baggio tinha era com os treinadores.

Ele nasceu dez anos antes do tempo que abriu os braços aos inventores que não podem ser domados. Sven-Goran Eriksson deixou-o ser livre na Fiorentina, mas, na Juventus, os golos que marcava deixavam de servir de desculpa quando as lesões começaram a aparecer e Giovanni Trapattoni ter um motivo para não o utilizar. Quando Marcelo Lippi chegou, quis tornar a Juve “menos dependente em Baggio”. Propôs-lhe uma redução de ordenado, teve a resposta retórica que procurava e Roberto saiu para o AC Milan. Era lá que estava o treinador com quem mais às turras andou.

Arrigo Sacchi era o homem que tirara Baggio durante a primeira parte do jogo inaugural da Itália, no Mundial de 1994, quando Gianluca Pagliuca, o guarda-redes, foi expulso. O jogador muito bom e o melhor de uma seleção razoável era o primeiro a ser preterido. “Ma quello e matto!” - “O homem está louco!”, disse o avançado, enquanto saía de campo. Mas, depois, seria ele a marcar cinco golos e a ser quem mais puxou a corda que arrastou os italianos até à final. Lá chegados, e depois de Baresi e Massaro falharem, Baggio não acertou o último penálti que entregou o Mundial ao Brasil de Romário e Bebeto.

Um pontapé que deu de rastos e fez a bola passar por cima da barra ainda é a imagem que mais se cola à carreira de Roberto Baggio. E ele falou sobre ela na autobiografia que escreveu, em 2002, a dois anos de parar de jogar:

“Quanto ao penálti, não me quero gabar, mas só falhei um par deles na minha carreira. E falhei-os porque o guarda-redes defendeu, não porque rematei ao lado. Não há uma explicação fácil sobre o que se passou em Pasadena [o Mundial de 1994 jogou-se nos EUA]. Quando fui bater estava bastante lúcido, tanto quanto era possível naquela tipo de situação. Sabia que o Taffarel mergulhava sempre, por isso decidi rematar a bola ao meio, a meia altura, para que ele não lhe conseguisse chegar com os pés. Foi uma decisão inteligente, porque o Taffarel caiu para a esquerda, e nunca teria apanhado o remate que planeei.

Infelizmente, e não sei como, a bola foi três metros para cima e voou sobre a barra. Quanto a bater o penálti, eu estava de rastos, mas era o marcador de penáltis da equipa. Nunca fugi às minhas responsabilidade. Só falham os que têm coragem de bater um penálti. Nessa vez, falhei. Ponto final. E afetou-me durante anos. Foi o pior momento da minha carreira, ainda sonho com ele. O que por vezes é esquecido é que, se tivesse marcado, o Brasil podia vencer no último penálti, porque o Baresi e o Massaro já tinham falhado. Faz parte do jogo. Tiveram que escolher uma imagem da final e escolheram o meu erro. Quiseram um cordeiro para matar e escolheram-me, esquecendo-se que, sem mim, nunca teriam chegado à final.”

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Ele brilhou e falhou com a seleção em 1994, como já brilhara e falhara em 1990. No Mundial que pôs a Itália a ser anfitriã, Baggio começou os dois primeiros encontros no banco, até Azeglio Vicini, o selecionador, perceber que ele era a solução. Marcou o melhor golo do torneio a brincar com a Checoslováquia, tornou-se no melhor da equipa, mas começa a meia-final contra a Argentina de Maradona (perdida nos penáltis) no banco. O treinador olhou para ele e achou-o cansado. "Mas eu tinha 23 anos. Tinha dado tudo para começar esse jogo, até tinha comido relva", confessaria Baggio.

Entre esses Campeonatos do Mundo, a FIFA elevou-o a melhor do mundo, em 1993, quando venceu a Série A e a Taça UEFA com a Juventus. Depois de Trapattoni, de Lippi, de Fabio Capello e de Sacchi, ainda ouviu Óscar Tabarez dizer, sobre ele, que "não há lugar para os poetas no futebol".

E soube que, mesmo com o AC Milan e o Parma com o preto do negócio no branco do papel, um jovem treinador chamado Carlo Ancelotti não o queria na equipa, por não ser um avançado a sério - Platini classificava Baggio de "um nove e meio" - e por temer a sua atitudade. "Era novo e não tive coragem em arriscar em algo que não conhecia. Perdi 22 golos", reconheceria, mais tarde, Ancelotti.

Foi o número de bolas que Roberto Baggio remate para a baliza com o Bolonha, onde brilhou o suficiente para ir ao seu terceiro Mundial, em 1998. Jogou de menos para o que ainda era e o que a equipa fazia com Alessandro Del Piero, com quem Cesare Maldini, o selecionador, achava que Baggio era incompatível. O primeiro, que estava fora de forma, jogou mais tempo que o segundo, que marcou dois golos, mas caiu com a equipa nos oitavos-de-final. Seria a última competição internacional para o italiano.

Ao lado de Gianluca Vialli, nos tempos de Juventus

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Shaun Botterill

Roberto Baggio teve direito a três Mundiais, mas nenhum Europeu - em 1988 ainda não se estreara; em 1992, os italianos não chegaram lá; em 1996, o seleccionador era Arrigo Sacchi, que não o convocou; e em 2000 e 2004, a idade que já tinha serviu de desculpa para quem mandava não o juntar aos Tottis, Del Pieros e Vieris. Sempre foi difícil os treinadores irem à bola com Roberto Baggio e ele arranjou uma teoria para o justificar:

"Muitas vezes penso sobre o porquê deles não me considerarem, mas nunca encontrei uma resposta. Talvez tivessem um pouco de inveja, como toda a gente me adorava, até os adeptos rivais. Estaria eu a roubar o espetáculo, a negar-lhes o papel de protagonismo que tão desesperadamente queriam para eles? O futebol moderno está crescentemente dominado por treinadores, pelo narcicismo com o qual se colocam acima da equipa e dos treinadores."

Deu ao Brescia os últimos quatro anos que tinha de futebol. O treinador, Carlo Mazzone, deixava-o à vontade e com liberdade para liderar uma equipa aflita, que chegou a ter Pep Guardiola e Andrea Pirlo ao lado de Baggio. Com peso e cabelos brancos a mais, ele continuou a marcar mais de 10 golos por época, a ser mágico à maneira dele. Os italianos quiseram-no no Mundial da Coreia e do Japão, os rumores disseram que os jogadores da seleção não o quiseram lá.

Em 2004, na sua última época e cinco anos após a última chamada, Trapattoni chamou-o à seleção para que jogasse contra a Espanha e se despedisse de toda a gente, aos 37 anos. As bancadas do estádio do Génova, atoladas de gente, aplaudiram-no durante três minutos seguidos, ao ser substituído no derradeiro dos 57 jogos que fez com a seleção. Poucos, para tantos golos (27) e talento que tinha dentro dele.

Nunca o veremos a ser treinador, a comentar na televisão ou a ser agente de futebol. Saído do futebol, trabalhou com as Nações Unidas no Haiti e no Myanmar. Roberto Baggio continua a ser budista, a não gostar de dar nas vistas, e passa muito do seu tempo na América do Sul, onde tem uma quinta, na Argentina.

É por tudo isto que as pessoas continuam a gostar dele. Todas, menos os treinadores.