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Kuba: o herói trágico regressou a Dortmund como jogador rival. E foi aplaudido

O agora jogador do Wolfsburgo foi homenageado pelos adeptos no regresso ao Signal Iduna Park. Kuba viveu uma tragédia enquanto criança e aprendeu a viver com isso

Francisco Perez

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O futebol é um mundo em que cada vez menos jogadores possuem longas ligações aos clubes. O Borussia de Dortmund não foge a essa realidade. Da equipa que se sagrou bicampeã em 2011/2012, apenas três jogadores se mantêm no Signal Iduna Park.

Jakub Blaszczykowski, mais conhecido por Kuba, apontou sete golos nessa temporada. Depois do bicampeonato, conquistou duas Supertaças alemãs entre 2013 e 2014 pelos “amarelos”.

Em 2015, Kuba pôs fim a uma ligação de oito anos com o Dortmund, para rumar à Fiorentina, por empréstimo. Na altura, houve a possibilidade de permanecer na Alemanha, para vestir a camisola do Schalke 04, considerado por muitos adeptos o principal rival do clube – uma transferência que não se materializou por respeito aos aficionados da equipa da Vestfália.

“O Schalke queria-me a todo o custo, mas por respeito aos adeptos do Dortmund nem ponderei essa possibilidade. Os adeptos foram sempre fenomenais. Graças a eles pude chegar longe neste clube”.

Na temporada seguinte acabou mesmo por regressar ao país em que se deu a descobrir ao mundo do futebol, desta vez para representar o Wolfsburgo. A título definitivo. E a reação dos adeptos não poderia ter sido melhor.

Em setembro no ano passado, o Borussia viajou até à Volkswagen Arena, onde derrotou a equipa da casa por 5-1. Kuba, que capitaneou a formação visitante, no final do encontro foi solicitado pelos seus antigos colegas para agradecer aos adeptos, que entoaram com entusiamo o seu nome.

[A título de comparação, refira-se que Mario Gotze, Robert Lewandowski e Mats Hummels – transferidos para o Bayern de Munique –, não foram bem recebidos.]

Este sábado, cinco meses volvidos, Kuba regressou a “casa”, pela primeira vez na condição de adversário. Antes do arranque da partida – que terminou com uma vitória do Borussia por 3-0 – o médio recebeu uma coroa de flores e foi aplaudido de pé pelos apoiantes da equipa orientada por Thomas Tuchel.

No final do jogo, o internacional polaco, com a camisola do Dormund presa aos calções, deu uma volta olímpica pelo Signal Iduna Park, onde recebeu uma enorme manifestação de afeto.

“Foi um dia muito emocionante para mim. Passei aqui oito anos maravilhosos. Eu tenho a certeza que os adeptos do Wolfsburgo compreendem, porque nunca tive a oportunidade de me despedir do Dortmund”.

A morte da mãe como ponto de viragem

Aos 31 anos, Kuba conquistou seis títulos ao longo da carreira e o carinho dos adeptos. Mas a sua vida ficou marcada por um episódio trágico.

Jakub nasceu em 1985, em Truskolasy, no sul da Polónia, o segundo filho do casamento entre Zygmunt Blaszczykowski e Anna Blaszczykowska. Quando tinha dez anos, Jakub e o irmão Dawid viram o pai esfaquear a mãe, que morreu nos braços do mano mais novo.

Zygmunt foi preso, e os filhos foram entregues aos cuidados da avó materna. Na altura, jogavam no modesto Raków de Czestochowa, onde estiveram muito perto de desistirem de uma possível carreira. Não fosse Jerzy Brzeczek – tio dos jovens e antigo jogador de futebol – talvez Kuba não estaria onde está hoje.

Ao mesmo tempo que lidava com a dor, o atual jogador do Wolfsburgo foi fazendo o seu percurso, destacando-se no clube amador, contrariamente ao irmão.

Em 2003/2004 estreou-se pelo KS Czestochowa, onde permaneceu uma temporada antes de partir para o Wisla Kraków. As boas exibições pelo clube de Cracóvia levaram os responsáveis do Borussia de Dormund a avançar para a sua contratação em 2007.

O resto é a história que já se conhece.

Em 2012, antes do arranque do Euro, descobriu que o pai tinha morrido. Ainda que nunca tenha falado com ele após a tragédia, fez companhia a Dawid no seu funeral. “Precisei de muitos anos para conseguir deixar de pensar com ódio no coração”.

O jogador reconhece que não foi fácil superar a morte da mãe, mas aprendeu a seguir em frente.

“Ela olha por mim. Tive dificuldades na minha vida, mas consegui superá-las porque sinto que ela está algures e ajuda-me”.

Católico devoto, Kuba tem por hábito apontar para o céu quando marca golos. Um gesto dedicado a Anna: “É um gesto simbólico de agradecimento à minha mãe, que tinha tanta confiança em mim”.

Com 31 anos, Kuba já passou por muito. Mas canalizou os problemas com os quais se foi deparando para se tornar o futebolista e homem que é hoje.

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