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Algo se passa com Bernardo Silva

Há muita gente a falar dele e a elogiar o que o português tem feito nos últimos tempos. Bernardo Silva só tem ouvido coisas boas de Guardiola, Leonardo Jardim, Moutinho, Valdo, Raymond Domenech e de quem joga com ele, no AS Monaco. Já não estamos no tempo em que os amigos iam ao Seixal com um cartaz a dizer “Mete o Bernardo” por ele passar muito tempo no banco

Diogo Pombo

FRANCK FIFE

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É a capa da France Football, em que aparece esta terça-feira. É uma entrevista em estilo reportagem, num dos principais canais de desporto francês, que fala com ele, vai atrás dele e pergunta a pessoas importantes sobre ele. É Pep Guardiola, o génio que está careca de pensar tantas horas sobre futebol, a usar a palavra “fantástico” para o elogiar. Algo se está a passar, porque, na mesma semana, todos se centram na mesma pessoa. Num mesmo rapaz.

É mais ou menos como as tais canções que, em semanas, são ouvidas por tudo quanto é gente, têm um som de vício fácil, vão à boleia do passa-palavra e, de repente, passam a estar na moda. Quando ouvimos falar nela, também queremos ouvi-la para descobrirmos o que justifica tanto alarido.

E se há tanta coisa a dizer-se sobre Bernardo Silva, é preciso saber do que se trata.

Sabíamos, de antemão, que o português está na terceira época em França, a jogar no clube de um sítio, o Mónaco, que liga mais ao dinheiro, à classe e aos caros prazeres da vida, do que ao futebol. Decorámos o início da história dele, um miúdo que apesar do talento, da reputação de ser promissor e do amor ao clube em que cresceu, saiu do Benfica, onde nunca jogava e, nos treinos, era posto a lateral esquerdo pelo treinador que só destorceu o nariz a médios pequenos e franzinos quando eles se chamavam Aimar ou Gaitán.

Fomos vendo como ele foi posto à direita do ataque de uma equipa em que se tornou bem mais titular do que suplente. Em duas épocas, esteve em mais de 40 partidas, marcou 17 golos, inventou passes para dezenas de outros e fez-se importante.

Até que, esta temporada, começámos a descortiná-lo como talvez o melhor na equipa que, só agora, está a recuperar de uma ressaca – depois de se ter embriagado na ideia de tentar ser a melhor com os milhões de um investidor estrangeiro, que entretanto sumiu e deixou o Monaco a viver acima das suas possibilidades.

Agora, eles são os líderes do campeonato francês, são quem mais golos marca na Europa (108, em 41 jogos) e são elogiados por todos os lados. A maior quota-parte das coisas boas que têm sido ditas está com Bernardo Silva. E não foi apenas a France Football, a Téléfoot ou Pep Guardiola. Há outras pessoas que têm ajudado a montar o pedestal onde o português parece estar a ser elevado.

Tipos como João Moutinho, que joga com ele e imagina-o a “aproximar-se” do nível de “Messi, Eusébio, Cristiano Ronaldo, Maradona e Pelé”. Ou Raymond Domenech, antigo selecionador francês que, há menos de um mês, escreveu isto:

“Toda a gente o vê, Bernardo Silva tem o génio. Não se envolve em escândalos sexuais, não tem nenhum corte de cabelo extravagante, não faz declarações intempestivas, não tem problemas com o fisco. Tem apenas o seu talento, que usa para deleite do AS Monaco.”

FRANCK FIFE

No fundo, passa-se que o pequenote, que teve de sair do clube cujo lema tem tatuado no braço, está na moda em França. O que se percebe, pois Bernardo Silva joga muito na equipa que joga ainda mais, e tem aparecido nos jogos que mais interessam e nos quais mais gente está interessada – marcou ao Marselha e ao PSG, na liga francesa, e ao Villarreal, ao Tottenham e ao CSKA, na Liga dos Campeões.

É tão decisivo que, aos 22 anos, quem joga todos os dias com ele, no Monaco, o descreve como “um pequeno fenómeno que é capaz de eliminar dois ou três jogadores numa jogada” (Djibril Sidibé), ou alguém que “não está no mesmo planeta que nós” (Thomas Lemar). E o português que só é campeão europeu de sentimento, como nós, e não de título e medalha ao peito por culpa de uma lesão que o tirou dos convocados, é alguém humilde, que se dá bem com toda a gente e uma excelente pessoa.

Miguel Herlein lembra-se dele assim, dos tempos em que galgaram os degraus da formação no Benfica e antes de um ir para Penne, nas divisões inferiores de Itália, e o outro para o meio de elogios e comparações com antigos craques.

“Respeitava tudo e todos, sempre foi um exemplo nesse aspecto. No campo era o que se vê hoje: um jogador com uma técnica fora do normal, que desfruta sempre que entra em campo. Dava gosto vê-lo jogar e agora ainda dá mais. Está mais maduro, muito confortável com a bola nos pés. Já são muitos jogos nas pernas ao mais alto nível, mas continua a ser quem era, um jogador de equipa, que ajuda sempre com golos e assistências”, descreve-o, com base na experiência que teve com Bernardo.

Foi mais na adolescência tardia, conta, que ele começou a ser como é agora. Bola no pé esquerdo, evadir adversários, ludibriá-los com o engodo do corpo e de simulações, inventar um princípio, um meio e, às vezes, um fim para as jogadas.

“Nos treinos, gostava de fazer cuecas, até que alguém lhe desse um carrinho sem maldade. Principalmente a partir dos juniores, já víamos o Bernardo, nos jogos, a ter a qualidade que podia fintar três ou quatro, mas que depois podia dar em golo ou assistência”, garante Miguel, que, na altura, era próximo de Bernardo, o miúdo de colégio, que “tinha cabeça, sempre estudou, entrou na universidade e continuou a jogar” e a apanhar “todos os dias o barco de Lisboa para o Seixal”.

Miguel sabe como Bernardo nem sempre foi como é hoje, um pequeno genial que ninguém discute na equipa em que está. Ele exalta-o por nunca se ter deixado de dedicar, ao máximo, aos estudos e ao futebol, mesmo quando os livros lhe pareciam dar mais retorno que as chuteiras.

“Quando jogámos juntos, o Bernardo era um ano mais novo e não estava a jogar. Os amigos dele levaram um cartaz ao Seixal a dizer: ‘Mete o Bernardo’, ou algo do género. Não me recordo bem. No ano a seguir, o Bernardo é capitão e número 10, com o mesmo treinador. Alguma coisa esse cartaz deve ter valido, por isso tem que agradecer aos amigos dele”, lembra.

E se calhar é isso que se passa com Bernardo Silva.

É alguém que insistiu, não deixou de ser dedicado, disse até já ao sítio que gosta e onde, um dia, quer retornar, para se esforçar em ser o que cada vez mais parece ser - mais um craque português de quem muito boa gente está a falar, e elogiar.