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Carnaval e futebol misturam-se na festa e na violência

Os dois maiores patrimónios da cultura brasileira misturam-se em cânticos e hinos das equipas, mas a entrada de ultras no carnaval ameaça trazer a violência das tribunas para a passarela

Evandro Furoni

Antonio Scorza/Getty

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País do Carnaval e do futebol. É difícil tirar essas duas alcunhas do Brasil. As festas nas ruas definem o país tanto quanto as festas nas tribunas e misturam-se na história brasileira.

Entra também outro elemento comum na nação sul-americana: as contradições. Mesmo sinónimo de festa, Carnaval e futebol remetem ao longo histórico de violência entre adeptos nos estádios brasileiros.

"Marchinhas": tão importantes que viraram hinos

"Eu fui às touradas em Madrid/E quase não volto mais aqui/Pra ver Peri Beijar Ceci", cantavam os adeptos nas tribunas do Maracanã após a vitória da seleção brasileira frente à Espanha no Mundial de 1950.

A música, escrita para o Carnaval de 1938 por Henrique Foreis Domingues, o Almirante, é o grande exemplo de adeptos usarem as músicas do carnaval brasileiro, as famosas "marchinhas", nas tribunas.

A tradição continua, 67 anos depois. Cantos populares pelas escolas de samba, são usados para exaltar jogadores ou comemorar títulos.

No Rio de Janeiro, cidade dona do Carnaval mais famoso do mundo, as "marchinhas" tornaram-se tão importantes no futebol que ganharam tom oficial. Em 1949, o compositor Lamartine Babo compôs músicas de Carnaval para as principais equipas da cidade.

Todas se tornaram populares nas ruas, o que motivou as equipas a adotarem as "marchinhas" como hino oficial. Assim, Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense, rivais históricos dentro do relvado, celebram as suas glórias com as palavras do mesmo autor.

Foi também no Carnaval que surgiu a inspiração para a primeira organização de adeptos do futebol brasileiro. A Charanga do Flamengo nasceu na final do Campeonato Carioca de 1942.

Jaime Rodrigues de Carvalho reuniu os amigos para montar uma charanga, uma banda apenas com instrumentos de sopro, para apoiar a sua equipa na decisão contra o Fluminense.

Festa, mas também violência

O sucesso da Charanga motivou os adeptos de outras equipas a levarem instrumentos de Carnaval às tribunas. Na década de 70, quase todas as equipas brasileiras possuíam nos estádios um sector com os adeptos mais fervorosos armados com instrumentos de percussão, como as baterias das escolas de samba, a entoar cânticos de apoio para a sua equipa.

Eram os adeptos organizados, o equivalente brasileiro dos ultras.

Como no resto do mundo, a violência no futebol aumentou drasticamente com o surgimento dos ultras. No Brasil, o ápice da violência ocorreu na década de 90, mesmo momento em que os adeptos entraram no Carnaval, principalmente na cidade de São Paulo.

Em agosto de 1995, Marcio Gasparin foi morto dentro do relvado do estádio do Pacaembu. Adeptos de Palmeiras e São Paulo invadiram o campo de jogo e causaram uma das mais trágicas brigas entre ultras da história do futebol brasileiro.

No mesmo ano, a Gaviões da Fiel, maior grupo de ultras do Corinthians, sagrava-se campeã do Carnaval paulistano.

O exemplo da Gaviões logo foi seguido pelos rivais. Nos desfiles da principal divisão do Carnaval de São Paulo em 2017, três escolas possuem alguma ligação com grupos de adeptos. Além da Gaviões da Fiel, estão a Mancha Verde e a Dragões da Real, ligadas a Palmeiras e São Paulo, respetivamente.

As forças de segurança brasileiras já tentaram acabar com os adeptos organizados. Gaviões e Mancha Verde, por exemplo, já chegaram a ser obrigadas a fechar as portas provisoriamente. As medidas não afetaram as escolas de samba.

Os diretores do núcleo dedicado ao samba defendem que a organização de adeptos e a organização carnavalesca são entidades diferentes, com poucas relações entre si.

Em 2006, primeiro ano em que duas escolas ligadas aos ultras estiveram na principal divisão do Carnaval paulista juntas, foi instituído que os adeptos de apenas uma das escolas de samba poderiam estar no local em que é divulgado o campeão do Carnaval.

A medida tinha como objetivo evitar que as brigas dos estádios fossem repetidas na passarela.

Homenagens na Sapucaí

Quando o futebol entra na Sapucaí, templo do carnaval carioca, geralmente é para homenagens. Flamengo (1995), Vasco (1998) e Fluminense (2002) foram temas de desfile nos anos dos seus centenários.

Também não é raro jogadores serem exaltados no carnaval. Zico, maior ídolo da história do Flamengo, foi homenageado em 2014, Nilton Santos, campeão nos mundiais de 1958 e 1962, foi tema de uma escola de samba em 2002, Ronaldo, melhor goleador do Brasil no Mundial de 2002, teve um desfile dedicado em 2003.

O próprio Lamartine Babo foi homenageado pelas suas marchinhas que viraram hinos em 1981.