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Ele acompanha o futebol chinês desde o início e não vê futuro se a China não mudar

Se alguém pode falar sobre o que é o futebol chinês é Rowan Simons. Há mais de 20 anos no país asiático, ele trabalha como comentador de futebol para uma TV local, é dono de um projeto para desenvolver equipas amadoras e é autor de “Traves de Bambu”, o livro que conta as suas aventuras de quando a China pouco sabia o que era futebol. Hoje, ele viu o desporto local transformar-se num negócio de €388 milhões na última janela de transferências. Em entrevista à Tribuna Expresso, ele diz que há o risco de China voltar ao segundo escalão do futebol se o foco for apenas em estrelas como o brasileiro Oscar ou o argentino Carlos Tevez

Evandro Furoni

STR/AFP/Getty

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Tu viste o futebol chinês desde o seu começo. Qual é a diferença entre o jogo praticado hoje e o praticado 20 anos atrás no país?
Há vinte anos não havia equipas de futebol como as que conhecemos hoje. Todas as equipas eram geridas pelo Estado. Em 1993, o governo instituiu a ideia de clubes. Ao invés de começarem com equipas amadoras, os chineses foram diretamente para equipas profissionais e venderam-nas para empresas. Eles criaram o topo da pirâmide com nada por baixo.

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Porque te sentes tão atraído pelo futebol chinês?
Eu amo o futebol, e vivo e trabalho na China. Fiquei chocado ao saber que o futebol não existia aqui quando cheguei e tentei construí-lo talvez com uma imagem muito romântica que tenho do futebol na Inglaterra e no Brasil.

O que motivou as equipas chinesas a gastar tanto nos últimos anos?
Uma combinação de fatores. Os chineses são direcionados pela política, o plano do presidente (Xi Jinping, de que a China se classifique para um, sedie e ganhe um Mundial) e as oportunidades de negócio que criam. Por outro lado, a China também é um país com muitas pessoas ricas e não devíamos ficar tão surpreendidos de gastarem muito dinheiro no futebol.

D.R.

As grandes estrelas estão a fazer o futebol ficar mais popular na China?
As grandes estrelas que dão um esforço de 100% e as equipas que jogam bem fazem o futebol ser mais popular na China. Eles serão heróis e vão gerar a cobertura positiva da imprensa. As estrelas que não se estão a esforçar e as equipas que estão a jogar mal também fazem o futebol ficar mais popular na China – porque se tornarão o foco do ódio de adeptos por causa dos salários altos e terão cobertura negativa. Grandes estrelas tem um grande impacto e fazem o futebol mais popular, mas qualquer miúdo que queira fazer parte disso enfrenta os problemas de falta de infraestrutura. Sem as instalações corretas, técnicos e ligas, como uma pirâmide, toda a excitação gerada pelas grandes estrelas não será traduzida em grandes jogadores para a próxima geração. Isto não é a culpa deles. Eu pergunto-me é porque há tão poucos interessados em fazer mais.

Como é que as equipas motivam os jogadores atraídos pelo dinheiro?
No meu ponto de vista, isso cabe a cada jogador. Verdadeiros profissionais darão 100% em todos os jogos. Hoje em dia, há estatística para tudo e então não há como se esconder no relvado. Eu imagino que os contratos levam em consideração a probabilidade de um jogador “não se adaptar”, e os pagamentos antecipados fazem com que os jogadores acreditem que ainda vale a pena dar uma chance ao futebol chinês.

Há algum investimento das equipas para desenvolver talentos locais?
Sim, as grandes equipas agora estão a tentar olhar para baixo, mas não há muito por onde escolher e é muito mais fácil comprar em outro lugar. Acho que no Brasil há cerca de 30 mil equipas, cerca de 98% nas divisões inferiores, um pouco como o que acontece em Inglaterra, Na China há apenas alguns poucos clubes profissionais no topo – e nenhum clube amador. Este é o trabalho que estamos a fazer com “ClubFootball” (projeto dedicado ao desenvolvimento do futebol amador na China do qual Simons é um dos diretores), mas ainda está num um estágio muito inicial. Por isso é que os bons jogadores chineses são tão valiosos aqui, ainda que não tenham um nível de jogo para justificar isso em qualquer outro mercado. Os chineses enfrentam o mesmo problema mencionado com as estrelas estrangeiras.

Na sua opinião, o aumento de jogadores estrangeiros ajuda a desenvolver os atletas chineses ou retira o espaço deles nas equipas?
Sim, verdadeiros profissionais podem servir de inspiração, se a língua, a cultura e outras barreiras sociais forem superadas. O futebol é uma linguagem muito mais fácil de se entender na prática. E sim, com posições-chave nas mãos de jogadores estrangeiros há menos oportunidades para o jogador chinês tentar construir a base de uma seleção nacional. A equipa nacional precisa de 11 líderes, não 11 atores secundários.

O grande investimento pelas equipas chinesas é sustentável ou pode acabar num futuro próximo?
O investimento de alto nível é direcionado pelo interesse e pelos projetos do presidente Xi para o futebol. Ele estará mais cinco anos no poder e, portanto, os investidores politicamente motivados devem estar a pensar apenas nos próximos dois ou três anos, no máximo. Será mais difícil para as empresas, ou para donos milionários, abandonarem o futebol quando este não ter valor político, porque terão que enfrentar a fúria do público pela sua traição. Porém, estes investimentos são geralmente altamente não-rentáveis; logo, eles vão tentar sair do futebol. Outros poderão ficar a longo prazo por razões internacionais ou outras quaisquer. A China é um país enorme com muitas pessoas ricas e o futebol continuará a ser um veículo para eles, como acontece no resto do mundo. Não será um investimento ao nível do atual, porque isso é impossível sem um background histórico ou apoio político.

O futebol chinês foi vítima de alguns escândalos no passado, a maioria sobre resultados combinados (em 2013, 25 diretores, árbitros e atletas foram banidos do desporto por resultados combinados em 2001). Ainda há corrupção no futebol chinês?
Dado este historial seria muito inocente alguém sugerir que não há corrupção no futebol chinês, ou em qualquer desporto profissional no mundo.

É possível imaginar a China campeã mundial na próxima década?
Impossível. Eu podia dizer que comerei uma bola de futebol se a China for campeã do Mundial de 2026, ou até mesmo em 2050. O único modo de eu imaginar isso é se a China mudar as suas regras de naturalização e puder reunir uma equipa mundial. E isto foi pensado pela associação de futebol chinesa como opção de longo prazo.