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Futebol internacional

Seis ligas entram num bar, falam e trocam números. O que acontece a seguir?

Isto não é uma piada. Comparado com Inglaterra, Alemanha, França, Espanha e Itália, quão competitivo é o futebol em Portugal? Olhando para o campeonato, e para os números dele e dos outros, a primeira liga é onde os três primeiros classificados têm a maior fatia de pontos (28,3%). O que não será bom. Mas está longe de ser como a La Liga ou a Série A, onde o primeiro e o último lugar estão separados por, pelo menos, 50 pontos

Diogo Pombo

Laurence Griffiths

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Seis tipos estranhos uns aos outros entram num bar e não, isto não é uma piada. Chegam lá à vez e, cada um a seu tempo, reparam que o bar está vazio de gente. Imaginem um daqueles bares americanos, tão pequeno quanto a pequena cidade onde está, esvaziado por um dia de semana, com noite a pôr-se tarde. O balcão do bar e a sua madeira velha a deslizarem copos de whisky. O bar comprido dá para sentar os seis estranhos. Sem saberem, eles estão ali pelas mesmas razões. Tristes com a dúvida que a vida lhes dá, enternecidos pelo álcool que vão bebendo, e fartos de desabafarem apenas com quem lhes serve a bebida, começam a meter conversa.

O primeiro chega-se à frente.

Aumenta o volume e falta alto, a ideia é ser ouvido por todos. Diz que vem de um país grande, frio, com cidades muitas e onde a relação gente-futebol é à base do-apoiar-o-clube-da-terra. Os estádios enchem, sempre. O primeiro do campeonato é o mesmo de sempre e como ganha sempre tem o mesmo dinheiro de sempre. Que é muito e lhe serve para gastar milhões fora e usar os que lhe sobram para caçar os melhores jogadores das outras equipas.

Esse clube vai com 56 pontos, mais sete que o segundo e 13 que o terceiro, lidera a prova que já foi dele por 25 vezes, mas nunca ficou lá em casa mais de quatro temporadas seguidas. O estranho, melancólico no desabafo, fala e os outros ouvem-no a contar como vem de um campeonato que a neve e o frio faz parar no inverno, e onde o facto de ser muitas vezes o mesmo a ganhar dá a ideia errada. Porque do primeiro ao último de 20 classificados vão 44 pontos, que ele acha pouco, e há quatro equipas que, estando abaixo do quinto lugar, estão, no máximo, a cinco pontos de o alcançar – o que interessa, pois é o limiar a partir do qual se ganha direito a jogar pela Europa fora. No fim, diz que é alemão.

ROBERT MICHAEL

Nisto, o francês coloca os pés no chão e ergue-se.

É a vez de ele se queixar e as queixas dele caem em cima do dinheiro. Resume que o seu campeonato também sempre teve os estádios cheios e muita variedade, provada pelas nove equipas diferentes que o venceram nos últimos 25 anos. Mas o dinheiro, queixa-se, veio de fora e enriqueceu duas ou três equipas, que o fez temer pelo pior, que seria ver os mesmos a ganhar sempre e a crescerem enquanto os outros minguavam. Ouvindo o alemão, contudo, apercebe-se que vem de um sítio com menos pontos (43) entre a equipa que está em primeiro e a que está em último, e realça como até tem visto mais empates (71) do os que o alemão contou (47), até agora.

O alemão e o francês já estão à conversa um com o outro quando o inglês pousa a pint de cerveja e decide intervir.

Michael Steele

Elogia o espetáculo, os golos, os estádios ainda mais à pinha e o show que o futebol dele criou e a fama que vai cultivando. Está num país onde o vento, a chuva, a lama e o kick and rush resistem, dando condições a um campeonato onde os últimos ou medianos condicionam, muitas vezes, a vida aos primeiros e bons. Ele vem da liga que tem o 1.º e o 20.º com 44 pontos entre eles, e que viu acontecer, o ano passado, um conto que nem a melhor fada poderia imaginar – uma equipa pequena, de uma cidade ainda menor, sem estrelas, a ser campeã. Que, este ano retornou à vida normal de jogar para não descer de divisão.

O alemão e o francês erguem o copo e brindam com, e ao, inglês. O espanhol e o italiano juntam-se.

O primeiro, gabando-se de vir do sítio onde, desde 2009, jogam dois extraterrestres – um vindo de um planeta algures no nossos sistema solar (Ronaldo), o outro proveniente de alguma galáxia para a qual ainda não há telescópios que a apanhem (Messi) –, exalta as equipas que tem. Ou melhor, duas delas, as que ganham títulos, fogem das outras equipas, batem recordes de milhões gastos em compras, têm os melhores jogadores deste mundo, lutam entre elas e festejam muitas vezes na Europa. Defende um campeonato em que os três primeiros têm quase 25% dos pontos conquistados em 26 jornadas.

Alex Caparros

O segundo, o italiano, ouve isto e pede mais um copo, melancólico com o facto de a liga dele já ter sido o que a espanhola é hoje.

Sobra o tipo português.

Ele fica calado, a ouvir, pensando para os botões, ligando os pontos e comparando o que os outros dizem com o que ele tem para dizer. Vai fazendo umas contas de somar e dividir e percebendo que os três primeiros classificados do seu campeonato têm 28,3% dos pontos conquistados em 24 jornadas. São 167 de 589, e não há quem se aproxime deste valor. Comparando com as histórias dos outros, chega à conclusão que pode ficar contente com o espaço (44 pontos) que há entre o melhor o pior que tem, esta época.

Porque, depois de falar, o sétimo tipo, o único que já lá estava, o dono do bar está atrás do balcão, faz o sumário das coisas que ouviu de todos.

E tira várias conclusões. Diz ao francês que a Ligue 1 é o campeonato onde os três primeiros mais pontos somaram (189) e que maior número de empate (71) tem. O que é um sinal de competitividade, pois a isto junta-se o facto de apenas haver três pontos entre 1.º e 2.º, e o 3.º está igual ao primeiro dos últimos. Há duas equipas para lá do 5.º lugar que estão, no máximo, a cinco pontos dessa posição – a primeira que dá acesso a provas da UEFA. Entre o Monaco, o líder, e o Lorient, o lanterna vermelha, estão 43 pontos, a menor margem entre as ligas que ali estão. O dono do bar aponta, depois, para o alemão, por ter a mesma margem na Bundesliga, gabando-lhe o facto de ter o campeonato onde há mais equipas (quatro) a menos de cinco pontos de um lugar europeu.

O inglês ouve que ter apenas uma equipa a cinco pontos dos lugares europeus é pouco. A Premier League até justifica alguma da reputação de ser renhida e dura de roer, por ter a menor percentagem de pontos nos três primeiros classificados (23,5%). Mas não é a liga onde mais equipas vencem jogos fora de casa – aconteceu 75 vezes esta época, menos do que as 81 da Série A.

Michael Regan

O italiano do bar sabe que vem do campeonato em que as distâncias são maiores: a do primeiro para o segundo (oito pontos) e a que existe entre a Juventus e Pescara (55 pontos). O espanhol fica a saber que tem na La Liga a luta pelo título mais renhida.

Sorri, embora esteja acompanhado.

Ao lado está o português, a dar um gole na imperial (ou no fino) e a rasgar o mesmo sorriso, por saber que o ponto que separa Barcelona e Real Madrid é o mesmo que encontra entre o Benfica e o FC Porto. Até os pontos do primeiro (60) e do segundo (59) são os mesmos. Ele sabe que os clubes na Primeira Liga não têm o dinheiro dos clubes dos países de onde vêm os outros tipos do bar – e, portanto, que também não têm os salários, os jogadores, e, em tema para outra conversa, os estádios cheios -, mas está ciente que não fica atrás deles.

Valerio Pennicino

Lembra-lhes que tem duas equipas vivas na Liga dos Campeões e só o inglês e o espanhol se riem. Quando o francês vai à casa de banho com os seus 43 pontos entre o primeiro e o último lugar, o português fica-se a rir por essa diferença ser de 44 no campeonato dele.

Depois, os outros apontam-lhe as coisas menos boas - as cinco equipas diferentes que já venceram um campeonato em Portugal, que só fazem cócegas às 30 que já o fizeram na Alemanha, às 23 em Inglaterra, às 19 em França, às 16 em Itália e às nove em Espanha. Este e outro número, os 28,3% do total de pontos que os três primeiros têm, não deixam o português sair do bar com o francês e o alemão.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Tem de sair no meio deles e dos outros.

Antes de se despedir, contudo, termina o copo e ouve o dono do bar, que os ouviu a todos, lembrar que esta análise está mais presa aos números do que ao futebol jogado. E os dados, que mostram, por exemplo, que a Ligue 1 tem 28 jornadas feitas e a Primeira Liga vá com com 24 rondas, obrigam a que os seis tipos regressem ao bar só no fim da época. Aí se poderá ver melhor o quão competitivas foram, e são, os campeonatos.

Mas, por enquanto, o português não tem de ter vergonha de estar ao pé do francês, do alemão, do inglês, do espanhol e do italiano.