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De Golden Boy a homem de lata (a inexplicável carreira de van der Vaart)

Jogador está cedido pelo Bétis ao Midtjylland, mas a aventura na Dinamarca poderá estar perto do fim

Francisco Perez

Van der vaart assinou pelos dinamarqueses do Midtjylland

HENNING BAGGER/Getty

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Rafael van der Vaart pode estar de saída do Midtjylland, da Dinamarca, depois não ter sido convocado para os últimos três encontros da equipa, desde que o campeonato recomeçou após a paragem de inverno.

A imprensa espanhola adianta que os nórdicos não estarão satisfeitos com o rendimento do internacional holandês, considerado a grande aposta do clube para a conquista do campeonato, perdido para o Copenhaga no ano passado.

Este pode ser mais um capítulo na história de altos e baixos de um jogador que em tempos foi considerado o melhor futebolista jovem na Europa.

Sim. O melhor.

‘Recordaar’

Rafael van der Vaart nasceu a 11 de fevereiro de 1983 em Heemskerk, uma cidade localizada no norte da Holanda, mas foi em Amsterdão que começou a construir a carreira.

Em 1996 chegou ao Ajax, clube onde fez a sua formação e despertou para o futebol mundial. Três anos mais tarde, alinhou pela primeira vez com a camisola dos holandeses, mas foi na época seguinte que agarrou um lugar na equipa.

O jovem Rafael, então com 16 anos, foi confrontado com uma proposta do Barcelona, quando começava a dar nas vistas no Ajax. Mas recusou.

“Queria triunfar no Ajax. Os jovens, antes de saírem para uma Liga importante, têm de mostrar que podem jogar com regularidade”.

Pode dizer-se que a aposta foi ganha. Em 156 jogos, apontou 63 golos, tendo contribuído decisivamente para a conquista do campeonato em 2003-04, título perdido para o PSV Eindhoven no ano anterior.

No início dessa época, foi eleito como o primeiro "Golden Boy", galardão que distingue o melhor jovem sub-21 a jogar na Europa. Um dos momentos altos da carreira seria ainda o capitanear da formação holandesa frente ao Milan para a Liga dos Campeões. Com 20 anos e 217 dias, seria o mais jovem capitão a alinhar na prova europeia – estatuto entretanto perdido para o portista Rúben Neves.

O céu era o limite. Chegou-lhe a galáxia.

A experiência na Bundesliga e a chamada dos "Galácticos"

As boas exibições em Amsterdão despertaram o interesse do Hamburgo, que avançou para a sua aquisição em 2005, e por onde permaneceria três temporadas.

Na cidade alemã exibiu-se a um bom nível, com golos e assistências, mas não conquistou nenhum título.

Em 2008 foi convidado pelo Real Madrid e, naturalmente, já com 26 anos, aceitou. Na primeira época participou em 42 jogos e marcou cinco golos. O ano seguinte marcou um novo rumo para os “galácticos”, com as aquisições de Xabi Alonso, Kaká, Benzema e Cristiano Ronaldo... e van der Vaart começa a perder espaço nos "merengues".

Ao perder importância na formação espanhola, transferiu-se para o Tottenham em 2010, deixando Madrid com uma Supertaça; seria o terceiro campeonato em cinco anos.

Uma boa estreia na Premier League e o regresso ao Hamburgo

A aventura em Terras de Sua Majestade é interessante, estreando-se com 15 golos em 36 encontros na primeira época. Ajuda os “spurs” a chegar ao quinto lugar no campeonato e a atingir os quartos-de-final da Liga dos Campeões. No segundo ano exibe-se em bom plano, mesmo com a chegada de André Villas-Boas ao comando técnico dos ingleses, por troca com Harry Redknapp.

Só que a entrada do médio Gylfi Sigurdsson retira-lhe espaço, pelo que no ano seguinte regressou ao Hamburgo, um momento descrito pelo holandês como “um sonho tornado realidade”.

Mas o regresso em 2012 a uma das casas em que foi feliz não possui os contornos da primeira passagem.

Aos 32 anos, a idade começa a sentir-se e vão surgindo lesões, pelo que em três épocas faz menos 27 jogos em relação à passagem anterior. Falha, inclusivamente, o Mundial de 2014 disputado no Brasil devido a problemas físicos.

Espanha (outra vez) e a viagem para a Dinamarca

Segue-se uma nova aventura em Espanha, desta vez para representar o Bétis de Sevilha. Como bónus – um bónus estranho – passa a receber quase 115 mil euros por mês para que as suas chuteiras não sejam vermelhas, cor do rival andaluz.

Pela primeira vez desde a estreia no Ajax, faz menos de dez jogos em 2015-16. Após ter ficado de fora do embate diante do Sevilha para a Taça do Rei, van der Vaart desabafou: “Tenho de admitir que atingi o ponto mais baixo da minha carreira. Quero jogar”.

Esta temporada, assinou pelo Midtjylland da Dinamarca, encontrando-se cedido pelo clube andaluz até 2018. Já participou em 14 jogos e marcou dois golos. Mas a experiência não deve durar muito mais.

Numa entrevista ao jornal Ekstra Bladet, criticou a falta de adesão ao futebol praticado naquele país. “Os dinamarqueses parecem não se importar com o futebol. Isto é mau para a Liga, especialmente porque é um país com um campeonato em desenvolvimento, mas ninguém vem aos estádios. É decepcionante”.

O internacional holandês foi mais longe, deixando reparos à cultura de treino das equipas. “Há uma grande diferença entre jogar um futebol mais físico ou mais técnico. Os futebolistas da Dinamarca deveriam trabalhar o aspeto técnico, ao invés do físico. Eles começam a treinar-se [musculação, entenda-se] muito cedo. Eu, no Ajax, prestava mais atenção à técnica até aos 21 ou 22 anos”.

Aos 34 anos, Rafael van der Vaart está longe de ser o jovem que encantou Amsterdão e que se mostrou a alto nível no Hamburgo e no Real Madrid. De lá para cá, a sua viagem no futebol tem sido intermitente, e agora está em risco de sair do seu quinto clube em cinco anos.